Fátima. Irrupção do divino: Os Mensageiros

Poço de Jacob – 81 Antes de mais, é bom saber e sublinhar que as aparições e revelações de Jesus e de Maria nada acrescentam ao Evangelho e não são dogmas de fé. Também é preciso sublinhar que a verdadeira devoção a Nossa Senhora não afasta a nossa atenção devida a Cristo, mas encaminha-nos para Ele. Por Maria a Jesus – é o lema dos cristãos. Paulo VI dizia: Todo o católico é mariano. A nossa vida pode ser mais ou menos cristocêntrica, mas Maria nunca quis nem quer ser o centro. É muito bonito ver como os ortodoxos a representam nos seus ícones. O mais famoso é a Senhora do Caminho, como a padroeira da Polónia, que segura Seu Filho no braço esquerdo e com a mão direita o mostra ao mundo como Caminho para o Pai. O mesmo na Virgem do Perpétuo Socorro, entre tantos. São os ícones da Hodigitria que podem consultar na Internet. Também a Eleousa, que é a Virgem da Ternura como parte deste tema.

Os videntes podem ter revelações intramentais, como Faustina Kowauska, em Vilnius e em Cracóvia, enquanto presença que se nos comunica com tanta evidência, numa outra ordem de sentidos, ou em visão intelectual, como tão bem fala disso Santa Teresa de Jesus, que as teve bem lindas; ou aparições extramentais, que, apesar de o corpo glorioso não ter peso, usam de ilusões ópticas para figurar o peso, como aconteceu com Fátima ou Lourdes… embor haja discussões quanto a essa matéria.

Mas, umas e outras são dadas a pessoas que são e se consideram muito miseráveis, normalmente gente que não é de altas esferas sociais, humanamente pouco aparentada com boa condição social. Também não provém de famílias de nobreza ou gente metida no vício. Normalmente, crianças, jovens ou adultos, são pessoas que não querem aparecer, não querem receber bens materiais, preferem o anonimato e desaparecer ficando nos bastidores. As revelações mudam as suas vidas e apostam na santidade… e são perseguidas, caluniadas, sofrem muito e a maioria morre cedo, vítima de doenças graves e desprezada pelas pessoas da sua comunidade e até por vários sectores da Igreja. Mas felizes por terem cumprido sua missão.

Uma vez, S. João da Cruz foi chamado a ir ver se umas aparições eram autênticas e chegando junto de um grupo perguntou qual dessas pessoas era a vidente. A mesma disse: “Sou eu”. Então S. João da Cruz regressou e disse ao Bispo: “Não são verdadeiras as aparições”. O vidente nunca se apresenta como tal a não ser que enviado pelo Céu. E tende a buscar, depois da missão cumprida, o anonimato. Sublinho aqui que na linha de Fátima, não podemos esquecer: Paray le Monial com Margarida Maria Alacoque e as nove primeiras sextas feiras, no séc. XVIII, completadas pela Beata Maria do Divino Coração com o mesmo percurso no Ameal, Porto, à qual se deve a consagração do género humano ao Coração de Jesus por Leão XIII e a encíclica que ele escreveu sob sugestão ida do Porto pela Beata, no final do séc. XIX. Na Rue du Bac, a medalha milagrosa com Catarina Laboure, cuja vida é entusiasmante no apagamento e na renúncia, em Paris, onde se vive e percorre um verdadeiro itinerário místico da pequenez quando se visitam os lugares parisienses ligados a ela. Em La Salete, em 1846, Maria apresenta-nos o valor do domingo como dia do Senhor a Maximine e Melanie, que vivem e morrem num verdadeiro desprezo do mundo e esquecimento por parte da Igreja. Pontmain, com vários videntes de cuja sorte nunca mais ouvimos falar, apesar da beleza da mensagem na qual Nossa Senhora faz a montagem de um belo ícone no Céu e nos apresenta o valor da Cruz de Seu Filho… e Lourdes, onde Bernadete, como já dissemos em artigo anterior, nos apresenta Maria como a Senhora que nos fala da alma do Rosário que são os mistérios de Cristo, dizendo que se Maria tivesse encontrado pessoa mais miserável em Lourdes teria escolhido essa para sua mensageira. É a dinâmica do Evangelho: Deus escolhe os fracos para manifestar Sua grandeza.

P.e Vitor Espadilha