Pensar a Vida Entre as muitas razões que poderia apontar para recusar qualquer possibilidade de aceitar a prática do aborto, apontarei três que me parecem fundamentais. Porque falo – teologicamente – a partir do cristianismo e sobretudo para cristãos – embora não exclusivamente – penso ser indicado ligar essas razões à profissão de fé em Deus uni-trino.
1. Um cristão recusa a prática do aborto, porque crê em Deus Pai, origem primeira e finalidade última de toda a vida humana. Porque Ele dá a vida, gratuitamente, criando à sua imagem e semelhança, instaura com isso a interdição ética – e religiosa – de dispormos dessa vida, seja própria ou dos outros. O carácter incondicional dessa máxima ética – precisamente por ter origem na própria fonte da vida, transcendente ao mundo e aos humanos – impede que circunstâncias históricas e pessoais, sejam quais forem, justifiquem, de algum modo, a manipulação da mesma.
2. Um cristão denuncia toda a prática abortiva porque crê em Deus Filho, feito humano em Jesus Cristo, origem de uma fraternidade inter-humana, que exige respeito e responsabilidade mútuos. Nenhum ser humano é, desse modo, senhor ou dono de outro, seja em que circunstâncias for. A maternidade – ou paternidade – é reconduzida, desse modo, ao nível fundamental da fraternidade, de tal modo que uma nova vida que começa é, já, a vida de um irmão em humanidade, pela qual todos somos igualmente responsáveis.
Para além disso, porque o cristão acredita que o Filho de Deus deu a própria vida, em solidariedade amorosa com todos os que são vitimados inocentemente, sente-se constantemente interpelado a dar a sua vida em defesa de todas as vítimas inocentes, sobretudo daquelas que nenhuma possibilidade têm de se defender. A participação na Páscoa de Jesus Cristo exige do cristão essa permanente atenção a todos os vitimados deste mundo, não podendo enveredar pela espiral da vitimação, vitimando ou, pelo menos, aceitando a vitimação dos mais indefesos, em nome da defesa de outras eventuais vítimas.
3. Um cristão propõe uma via alternativa, porque acredita em Deus Espírito, sopro que anima a vida e a conduz para o seu verdadeiro sentido. Assim, em vez de escolher atalhos fáceis, que iriam conduzir a becos sem saída, propõe o caminho difícil do acolhimento do outro diferente – seja quem for, rico ou pobre, perfeito ou imperfeito, desejado ou indesejado – como o único caminho com sentido de vida verdadeira. Por isso, o cristão recusa sacrificar alguns ao bem-estar de outros, sabendo que o Espírito de Deus todos quer conduzir ao Reino da verdadeira felicidade.
Não pode ficar-se, é certo, por essa recusa, mas ela constitui a base e o impulso para uma vida consciente da responsabilidade de transformar, constantemente, a vida dos outros, em vida que caminhe para o seu verdadeiro sentido. À solidariedade para com as potenciais vítimas de aborto, deve juntar a solidariedade para com todas as mães em situações humanamente difíceis, para que lhes seja possível, mesmo nessas condições, acolher os seus filhos em amor, acolhendo assim o verdadeiro sentido das suas próprias vidas. Porque só o amor é fonte de vida e Deus é amor: Pai, Filho e Espírito.
João Duque
Teólogo da Universidade Católica Portuguesa – Braga, escreve a convite da Associação de Apoio e Defesa da Vida – Aveiro
