Tu que sabes o que queres de Deus, procura saber o que Deus quer de ti

Em cima da linha Parece ser já um refrão, a todas as horas repetido: Isto é que vai uma crise! É a crise económica, é a crise do petróleo, é a crise da gente nova, é a crise dos mais velhos, desiludidos e saudosistas, é a crise da democracia…

Está tudo em crise e tudo é crise: estão em crise os valores, está em crise a educação, está em crise a família, está em crise a sociedade, está em crise a segurança, está em crise o emprego, está em crise a Igreja, está em crise a paz, está em crise a justiça, está em crise a seriedade, está em crise a honestidade, está em crise o respeito pela vida, estão em crise as boas relações de vizinhança, estão em crise a interioridade e a espiritualidade, … Que é que não estará em crise?

Apetecia-me dizer que a crise só é crise quando nós próprios estamos em crise. Se dentro de mim se desenvolve um sentido de insegurança, de desânimo, de desconfiança e de mal-estar interior, nada à minha volta poderá estar de boa saúde. Acredito que o grande mal da sociedade é gerado dentro de mim, dentro de cada um de nós.

Por outro lado, não há crise de fome, não há crise de guerra, não há crise de egoísmo, não há crise de malvadez, não há crise de ganância e de poder. Assim sendo, o mundo é o resultado das crises (doenças) interiores mal tratadas e mal curadas, que afectam e infectam, por contágio directo ou indirecto, milhões de pessoas, sem que se tomem as precauções necessárias.

Também é comum dizer-se que as vocações estão em crise, que os seminários estão vazios, que a Igreja está a caminhar para a ruína. Todas as crises são relativas: depois da fartura, qualquer diminuição é sensível. Há épocas de muita abundância que proporcionam dificuldades pela fartura, há épocas de carestia que criam dificuldades pela carência. É assim com o dinheiro, é assim com os produtos da terra, é assim com tudo.

Também é verdade que nem todos se apercebem das crises, uns porque estão sempre alheados de tudo, outros porque “vêem” mal ao longe, outros ainda porque vão tendo a “habilidade” de fugir ao tsunami.

Na Igreja, alguns só dão pela crise de padres nas alturas de funerais, festas e procissões; outros por ocasião de baptizados; e outros porque sentem bem na pele a realidade da nossa Igreja.

Não será difícil encontrar razões para a crise, porque elas estão aí bem à vista: a sociedade, a família, o abandono da Igreja, os meios de comunicação social, os próprios católicos que vivem despreocupados e não testemunham uma vida séria, os sacerdotes que não são capazes de motivar, as comunidades que destroem as sementes de vocação, a desvalorização da missão do sacerdote, as frequentes conversas e críticas de carácter negativo, as anedotas de mau gosto de que as pessoas tanto gostam, as calúnias, enfim… Podia ser uma interminável ladainha.

Vejam só o que acontece àquele rapaz que, na novela É tempo de viver, metralhado por toda a gente, sente dificuldades em seguir a sua vocação. Chegou-se ao cúmulo de o seu próprio pai ter dito à esposa que já rezava…, para que seu filho desistisse da ideia de ser padre. É novela, mas não está distante da realidade.

– Por que razão não quererão os jovens de hoje ser padres?

– Claramente, a “profissão” não seduz ninguém; mas também daí não vem qualquer problema, porque de profissionais não precisamos. Infelizmente já temos alguns. Por outro lado, a missão não entusiasma ninguém, porque se perdeu ou não se desenvolveu o espírito de serviço e de luta. Os jovens de hoje foram criados no facilitismo, na fartura, na acomodação, na super-protecção, na indiferença, sem sentido do dever e sem obrigações de nenhuma espécie. Não foram educados para as dificuldades e correr riscos não é com eles. “Se eu estou bem, para que é que me vou incomodar com os outros? Desinstalar-me, sair do meu comodismo… com que benefícios?”

Mas há jovens altamente empenhados em processos de missão, de voluntariado, de abertura a Deus e aos seus desígnios, em projectos de intervenção eclesial e social, preocupados em não passar à margem da vida. É destes que surgem as vocações ao sacerdócio e outras de positivo compromisso com a vida.

Tu, mãe ou pai de família, não peças a Deus um futuro risonho para o teu filho; pede-lhe que faça de ti e dos teus filhos motivo de alegria e felicidade para os outros. Verás que quem dá a vida pelos outros recebe cem vezes mais do que aquilo que dá.

Tu, jovem, acredita que a felicidade não vem de fora para dentro, mas se realiza de dentro para fora. Constrói a tua felicidade fazendo os outros felizes!