Excertos das homilias de D. António Francisco nas celebrações da Páscoa O Bispo de Aveiro presidiu às celebrações da Páscoa na Sé de Aveiro. Das suas homilias, o Correio do Vouga seleccionou alguns excertos que iluminam o tempo pascal que estamos a viver.
Quinta-feira Santa.
Missa Crismal, em que os sacerdotes renovam os compromissos sacerdotais
“Regressemos ao lugar originário no qual Cristo instituiu o sacerdócio da nova aliança, continuando no mundo de forma perene, em cada Eucaristia celebrada e em cada vida sacerdotal dada ao seu povo, o memorial vivo da sua paixão, morte e ressurreição.
“O cenáculo permanece na história do nosso sacerdócio como o lugar fundador de um ministério que fascina e que envolve. No cenáculo, o tempo parou por alguns instantes”.
O imperativo de Jesus: “Fazei isto em memória de Mim” torna-nos contemporâneos seus, porque a Eucaristia será sempre a origem, o centro e a meta de toda a vida sacerdotal.
Nesta vida e nesta vocação, com origem mas sem ocaso, encontra o sacerdote as razões da sua alegria e da sua fidelidade, sabendo que é sempre envolta em mistério toda a sua vida e feito de despojamento, muitas vezes heróico, o seu caminho de doação.
O mundo olha-nos com alguma surpresa, a estranha surpresa sentida diante de quem é chamado a ser testemunha e dispensador de uma vida diferente da terrena.
Mas o mundo olha-nos igualmente com uma imensa gratidão, quando nos sente modelados pela oração e pela palavra de Deus e portadores de um anúncio esclarecido, acolhedor, fraterno e misericordioso da boa nova da salvação. É este mesmo mundo que nos procura na ânsia de quem o ajude a descobrir sinais de orientação para o sentido da vida, para a busca de felicidade e de bem-aventurança, para gestos de comunhão e de fraternidade e para o serviço generoso e solidário dos pobres e dos que sofrem.
Mas a eficácia da resposta que de nós espera o mundo está em Cristo, do mesmo modo que em Cristo reside o segredo da vocação, da fidelidade e da alegria do sacerdote.
Sabemo-nos “homens do mistério”, mistério sempre subjacente à pergunta inicial: “Mestre, onde moras?”. Mistério continuado em cada gesto, em cada palavra, em cada passo dado, em cada sacramento celebrado, em cada obra construída, em cada prece rezada. Mistério, por excelência, celebrado e vivido no pão e no vinho que pelas nossas palavras se tornam Corpo e Sangue do Senhor.
Se perdêssemos esta consciência do mistério que nos habita, tornar-se-iam sem sentido a nossa vida e o nosso ministério.”
Quinta-feira Santa.
Missa da Ceia do Senhor
“O maná procurado nas horas difíceis da vida no deserto e o pão multiplicado nos momentos demorados em que a multidão faminta seguiu Jesus é agora Corpo de Cristo, por nós entregue.
As palavras pronunciadas nesta ceia com os discípulos foram-nos confiadas também a nós, ao dizer-nos “fazei isto em memória de mim”. Ao congregar os cristãos, a Eucaristia une-nos a Cristo Vivo e Ressuscitado, fortalece-nos com a sua Palavra e alimenta-nos com o seu Corpo e Sangue.
A Eucaristia volta-nos para Cristo, centra-nos em Cristo e, quando proclamamos “mistério da fé”, respondemos anunciando Cristo morto, ressuscitado e esperado. A primeira missão da Eucaristia é centrar-nos em Deus e voltar-nos para Cristo como Povo reunido no Espírito. A Eucaristia faz a Igreja. (…)
A Eucaristia é verdadeiro “mistério da fé”, nunca plenamente compreendido, mas sempre acreditado, celebrado, esperado e vivido.
De cada Eucaristia emana um dinamismo sacramental de caridade, de justiça e de fraternidade. Há, assim, uma íntima relação entre a Eucaristia e o compromisso sócio-caritativo de cada um de nós cristãos.
A partir da Eucaristia, nos caminhos diariamente por nós percorridos que nos conduzem da Missa à Missão, devemos levar connosco este pão partido para um mundo novo, alimentando do Corpo de Cristo os doentes e idosos, reforçando a comunhão entre irmãos distantes ou desavindos, consolidando a justiça e a paz, promovendo a dignidade humana, levando ao mundo o alimento da verdade e tornando-nos atentos a tantas situações de injustiça e a tantos flagelos, dramas e dores dos pobres e dos que sofrem.”
Sexta-feira Santa.
Enterro do Senhor
“Detenhamo-nos por alguns momentos na expressão “Tenho Sede”.
O tema da sede atravessa todo o Evangelho de João: desde o encontro com a Samaritana, à grande profecia durante a festa das Tendas (cf. Jo 7,37-38), até à Cruz, quando Jesus, antes de morrer, disse para cumprir a Escritura: “Tenho Sede” (Jo 19,28).
A sede de Cristo é uma porta de acesso ao mistério de Deus, que se faz sedento para nos aplacar a sede, assim como se faz pobre para nos enriquecer de vida e de sentido para a vida (cf. 2 Cor 8,9). Sim, Deus tem sede da nossa fé e do nosso amor. Como um pai bom e misericordioso, deseja para nós todo o bem possível e esse bem é Ele mesmo.
Tenho sede da Tua Fé.
(…) Todos nós, a exemplo de Jesus, precisamos de Cireneus. É isso que hoje Jesus nos pede: que sejamos cireneus dos nossos irmãos. A vocação e a missão de Simão de Cirene é modelo para nós. O pior que pode acontecer a uma sociedade é, por um lado, perder a coragem de educar (Jesus começou por ser Mestre e reunir discípulos) e, por outro lado, perder a sensibilidade diante da cruz, da dor e do sofrimento (Jesus concluiu o seu tempo dando-se na cruz para assumir as nossas dores).
Ao clamor de Cristo “tenho sede”, cumpre-nos fazer surgir na Igreja de Aveiro e a partir desta Igreja Catedral autênticos cireneus dos que sofrem.”
Domingo de Páscoa.
Vigília Pascal na Sé
e Missa na Vera Cruz
“Olho a Cruz elevada à condição de trono (…).
Ai de quantas cruzes, Senhor, é feita a Tua Cruz!… Mas a todas carregas, assumindo-as na Tua Cruz – para que todos os crucificados contigo ressuscitem.
Olho os olhares serenos, a presença de dignidade e de respeito, de sensibilidade e devoção, perante o mistério da dor e da morte de Cristo, da multidão que enchia por inteiro as ruas da nossa cidade, em noite de procissão solene.
Da alma de cada um dos participantes ou daqueles que se apinhavam nas ruas da nossa cidade, soltava-se uma prece e nascia uma esperança: Tu, Senhor, não passas em vão nas nossas ruas e não esqueces nenhum daqueles com quem Te cruzaste no caminho. Urge anunciar a Páscoa a quantos te viram no túmulo que Te transportava pelas ruas da nossa cidade.
Dou-Te graças por todos os que, ao longo das suas vidas, semeiam palavras de estímulo e de bondade e anúncios festivos da Páscoa e da Ressurreição. (…)
Dou-te graças, Senhor, porque Tu és o alimento vivo de todos os dias, a dizer-nos que foi na Eucaristia que os discípulos de Emaús Te reconheceram, vivo e ressuscitado, na tarde deste dia de Páscoa.”
