A Casa do Gaiato voltou às páginas dos jornais e aos ecrãs das televisões pelos motivos mais tristes: a suposta violência física de um padre, dois funcionários e uma senhora de apoio sobre as crianças de uma casa que a Obra fundada pelo Padre Américo tem em Setúbal. Se a acusação for provada, o padre Júlio Pereira pode sofrer uma pena de 20 anos de prisão.
D. António Marcelino escreve nesta edição sobre a instituição que, com “um método pedagógico inovador e objectivo” e uma “entrega incondicional”, se dedica às “crianças retiradas da rua e do lixo, sem família ou de famílias degradas”, para as transformar em “profissionais competentes, esposos e pais exemplares, cidadãos de mão cheia”.
Mais defesa não será necessária. Mas talvez convenha notar o seguinte. Parece estar a tornar-se moda denegrir a Obra da Rua, que tem quatro Casas do Gaiato em Portugal. Desde 1996, foram instaurados onze processos contra a Casa do Gaiato de Setúbal. Todos acabaram arquivados, à excepção de um, em Abril de 2003, que decretou que o Pe Acílio Fernandes, actual director nacional da Obra da Rua, não pode exercer funções de natureza disciplinar na Casa de Setúbal.
Claro que, no actual processo, pode haver matéria para os tribunais. Nesse caso, que a justiça seja rápida e imparcial – como deve ser.
O Pe Júlio Pereira não precisará de outra defesa para além do seu trabalho actual. Porém, o seu percurso de vida revela de onde vem e para onde vai. Natural do Porto, engenheiro mecânico de formação e profissão, Júlio Pereira, actualmente com 59 anos, entrou para o Seminário de Coimbra já adulto, tendo sido ordenado em 1993. Entrou para esse Seminário – onde foi aluno e colega de vários sacerdotes e seminaristas da diocese de Aveiro – porque fora precisamente o seminário frequentado por Américo Monteiro de Aguiar.
O trajecto vocacional de Júlio Pereira foi sempre este: seguir os passos do Pe Américo (chegando, por feliz coincidência, a habitar o mesmo quarto do fundador da Obra da Rua no Seminário Maior de Coimbra). No final do curso de Teologia, posto perante a questão de escrever a tese de licenciatura, escolheu como tema “Jesus Cristo nos escritos do Pe Américo”, mas abandonou o projecto. Mais urgente e importante do que a tese de licenciatura era a dedicação à Obra da Rua.
Perante este percurso, as suas palavras, num canal de televisão, atribuindo as acusações à “imaginação e fantasia” de rapazes que se fazem vítimas para desse modo justificarem às suas famílias a razão porque regressam a casa, têm credibilidade.
