Uma aveirense destemida

Dia da Mulher Ocorreu há pouco, em 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher, instituído em 1975 pela Organização das Nações Unidas, para lembrar tanto as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres, como as discriminações e as violências a que muitas estão sujeitas em todo o mundo. Todavia, esta comemoração tem raízes nos meados do século XIX, quando decorreram manifestações femininas por melhores condições de trabalho e pelo direito de voto.

Neste dia, quase espontaneamente e de modo particular, evoco a minha saudosa mãe, verdadeira educadora que me transmitiu o conhecimento e o amor de Deus, me ensinou as primeiras orações, me estimulou no afecto pelos meus irmãos, me despertou no respeito por toda a gente e me orientou no perdão fraterno. Também lembro neste dia, com afectuosa amizade as minhas irmãs, as minhas cunhadas e as minhas muitas sobrinhas, de diversos graus; a todas, que me estimam sem condições, sou devedor de singular gratidão.

Mas também alargo o meu pensamento às incontáveis heroínas anónimas que, na penumbra da plateia do tempo, são muito mais numerosas do que aquelas que são aclamadas na luz do palco. Assim, nos escaninhos da minha memória, surge-me frequentemente o registo de um mero encontro casual com três pessoas, não longe de Aveiro, na tarde de 22 de Junho de 1992. Esteve presente no pequeno grupo uma senhora, para mim desconhecida, oriunda de uma das nossas terras bairradinas. Mas, desde essa hora, fiquei a conhe-cer D. Sara Tirbaze Maia; e, ao lembrá-la, quase sempre recordo a confissão auto-biográfica de Paulo de Tarso. Escreveu o Apóstolo aos cristãos da Galácia (Gál. 1, 13-20) que, por ser extremamente zeloso das tradições religiosas do Judaísmo, distinguia-se entre muitos outros compatriotas da sua idade, perseguindo violentamente a Igreja de Cristo para a destruir; porém, quando em Damasco Deus o chamou pela sua graça e lhe deu a co-nhecer o seu Filho para O revelar aos não-judeus, não duvidou da proposta divina, nem pediu conselhos a ninguém, nem voltou a Jerusalém para se encontrar com os Apóstolos. Depois de ter passado algum tempo de reflexão no deserto da Arábia, voltou a Damasco e dirigiu-se para a Síria e para a Cilícia, anunciando a Boa-Nova de Cristo aos habitantes dessas terras. Foi o início de uma admirável actividade missionária. Após a conversão do pensar e a mudança do agir, S. Paulo tornar-se-ia na figura mais importante no desenvolvimento do Cristianismo nascente.

De facto, quando alguém se dedica com sinceridade e determinação, ainda que no breve decurso da idade jovem, nomea-damente num plano de luta por melhores condições de vida na sociedade dos homens e das mulheres, mas depois chega à conclusão de que segue por um caminho errado e sem futuro, a atitude corajosa é tomar decididamente uma nova direcção – aquela que lhe pareça mais capaz para atingir e melhorar a consciência das pessoas, onde se encontra o âmago vital que determina e estimula a actividade humana. Foi o que, há anos, aconteceu com esta aveirense, quando deliberadamente se norteou por um diferente programa no rumo do seu ideal… sempre com a certeza de que a vida ou é uma aventura ousada, ou não vale a pena, ou não é mesmo nada. Já lá vão dois milénios que também uma outra menina pôs de parte o seu projecto particular, porque lhe foi proposto que poderia ser colaboradora de Deus para bem da humanidade; humildemente aceitou o convite… e contribuiu sem qualquer obstáculo. O próprio nome de D. Sara rememora o dessa menina-senhora.

Como filha única, a sua infância decorreu no ambiente calmo e feliz de uma família da média burguesia. A paixão, que cedo lhe despertou, era a de ser bailarina clássica; tendo exercido o ballet desde criança, revelou, em várias oportunidades, uma especial aptidão nessa arte. Depois, a partir da juventude, a sua história seguiu os trâmites de uma nova experiência, trilhando os atalhos sinuosos e trágicos da realidade envolvente. Contudo, percorridas e ultrapassadas essas calamitosas veredas com invulgar sofrimento e com violenta perseguição, chegou à sabedoria da maturidade. Foi uma história vivida persistentemente e inserida na história social de uma época turbulenta. Em certa ocasião, descobrindo que o emprego de meios totalitários contrariam a natureza humana e anulam a liberdade individual, tomou a consciência de que realmente só a verdade liberta.

Um dia, ouvi de D. Sara umas palavras que ela proferiu sem fingimento, porque vindas do íntimo do seu coração; nesse momento, ela ousou dizer com toda a naturalidade: – «Tenho o maior respeito e a maior consideração pelo papel desempenhado em Portugal pela Igreja Católica, na peugada de Jesus Cristo! A Europa, por falta de visão dos seus responsáveis políticos, corre o sério risco de perder a sua identidade, se não reconhecer o papel civilizador da Igreja nos respectivos países. Temos de ser coerentes, conservando e dando expressão à tradição multissecular dos nossos valores sociais, que são os valores perenes do Evangelho».

Como resumo da maneira de ser, de viver e de actuar desta conhecida aveirense, cito as palavras de Helen Adams Keller (1880-1968), uma extraordinária mulher estadunidense, escritora, conferencista e activista social, embora cega, surda e muda desde bebé: – «Nunca se deve consentir em rastejar, quando se sente o impulso para voar».

Mons. João Gaspar