Uma estupenda maratona

Testemunho do Pe José Manuel, pároco de Requeixo e vigário paroquial de S. Bernardo, sobre a morte de sua mãe

Atingiu a meta.

Foram noventa e três anos ricos de uma vida intensa, mas discreta e serena, no remanso do lar, apesar dos variados problemas que surgiram ao longo da vida, onde, junto com o marido com quem casara, criou os filhos e lutou pelo sustento da família, agarrada a uma máquina de costura.

Maria Augusta Marques da Silva foi o nome que lhe deram os pais, quando a levaram à pia baptismal da matriz de S.ta Cruz de Albergaria-a-Velha. Ali, no lugar de Campinho, cresceu, um pouco à sombra do grande chorão (que já não existe) perto dos tanques, muito perto da oficina de serralharia de seu pai, José Ferreira de Almeida, e muito mais perto da igreja, onde celebrou o seu casamento, no dia 2 de Janeiro de 1937, com Francisco José Nunes Pereira.

Do casamento nasceram cinco filhos: a Maria de Fátima, a Glória de Jesus (que já está na Casa do Pai), a Fernanda do Nascimento, o José Manuel e, finalmente, a Maria Rita. E foi no aconchego do lar que esta mulher, de aparência frágil, mas segura das suas convicções, nos foi educando a todos, ensinando-nos a rezar, bem como as primeiras letras, junto à sua máquina de costura. De facto, antes de entrarmos na catequese ou na escola, já todos sabíamos as orações mais importantes para as nossas idades; já todos sabíamos juntar as letras e ler aqueles textos que, mais tarde, nos ocupariam os tempos escolares. Tanto a mãe como o pai liam sempre que podiam e o tempo disponível lhes permitia. Ela mesma cultivou este gosto da leitura até há bem pouco tempo, tendo sentido algum desgosto por já não poder dispor da vista para ler o que ultimamente mais a ocupava: as biografias dos santos.

Suportou o peso e as angústias de duas grandes guerras: a de 14-18 e a de 39-45, esta última agravada já pelo conflito que a antecedeu na vizinha Espanha; suportou ainda, com aquele sofrimento silenciado no coração de mãe, a partida do filho para a designada “guerra colonial”, por dois longos anos e meio, nos matos de Moçambique, de 6 de Outubro de 1971 a 16 de Abril de 1974.

Teve ainda de suportar uma longa viuvez, pois o marido faleceu-lhe em Maio de 1968 e, de algum modo, era ele o sustento garantido da casa, embora as filhas mais velhas já tivessem uma vida profissional. Mas estava o José Manuel, então no seminário, a estudar a teologia, e a filha mais nova, que necessita de acompanhamento permanente, como inquietações do seu coração de mãe.

Soube vencer serenamente e sem queixumes as diferentes agruras da vida. Se os teve, não os fazia em voz alta diante dos filhos: talvez diante de Deus no silêncio da sua oração! Mas, certamente, ia buscar as forças Àquela em quem sempre confiou como Senhora do Socorro, a Mãe a quem os albergarienses se habituaram a recorrer em todas as horas do dia e da vida, desde que nasceram, e que se venera no monte da sua invocação. Fez da sua vida uma oração e a rezar se entregou nas mãos do Pai.

Atingiu a meta no dia em que, por esse mundo fora se organizam grandes maratonas de renome. Nunca se inscreveu em qualquer delas. Também pouco sabia acerca delas e do atletismo. Mas correu a sua própria maratona, não para receber a cora de louros no estádio, mas aquela coroa de glória que está reservada no céu àqueles que correm por Cristo.

Poucos dias antes, tinha afirmado que a sua vida não passaria de 2007. Em linguagem terrena não passou; mas, de facto, foi no dia de S. Silvestre que ela “passou”, celebrou a sua “pesha”, viveu a sua Páscoa com Cristo, no ambiente da vivência do Mistério da Encarnação. Ela que celebrou o nascimento do Deus-Connosco, sentada à mesa com os filhos na noite de consoada, celebrando mais um aniversário da Fernanda, e se voltou a sentar à mesa, rodeada dos filhos no Dia de Natal, aceitou serenamente o convite para se sentar à mesa da Casa do Pai, na oitava do nascimento do Filho. Nesse dia, a Igreja celebra Santa Maria, Mãe de Deus. Estou certo que Maria, a Mãe de Deus e a Mãe dos homens, estava encostada à ombreira da porta da Casa, com um sorriso acolhedor, à espera desta sua filha para a levar ao encontro do Filho.

P.e José Manuel