Uma Igreja ansiando um novo Pentecostes

Os bispos representantes das 22 conferências episcopais da América Latina e do Caribe querem impulsionar uma igreja de discípulos e missionários. Estiveram reunidos em Aparecida (Brasil), à volta do tema “Discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nossos povos nele tenham vida” e vão promover uma “grande missão continental”.

Os bispos da América Latina e do Caribe procuraram, na V Conferência Geral (Celam), o “espírito de um novo Pentecostes”, para a região que comporta quase metade dos católicos do mundo. Dessa reunião, que decorreu de 13 a 31 de Maio no Santuário de Nossa Senhora Aparecida (São Paulo, Brasil), saiu um extenso documento que foi entregue esta segunda-feira a Bento XVI. O Papa, na abertura dos trabalhos, pedira-lhes que fizessem face a um “certo enfraquecimento” da vida cristã, “devido ao secularismo, ao hedonismo, ao indiferentismo e ao proselitismo de numerosas seitas, religiões animistas e de novas expressões pseudo-religiosas”.

O documento final, segundo a síntese já divulgada, divide-se em três partes, conforme o clássico “ver, julgar, agir” (um método que tinha sido abandonado em Santo Domingo, como reconhecem num documento). Na primeira parte, “A vida dos nossos povos”, os bispos avaliam as grandes mudanças que interpelam a evangelização: a globalização, a injustiça estrutural, a questão ecológica, a vida indígena, a crise na transmissão da fé. Tudo contribui para ou significa uma “difícil situação de nossa Igreja, nesta hora de desafios”.

A segunda parte, “A vida de Jesus Cristo nos discípulos missionários”, centra-se na beleza da fé em Jesus Cristo como fonte de vida para os homens e as mulheres que se unem a Ele e percorrem o caminho do discipulado missionário”. Os bispos pretendem revitalizar a vida dos baptizados, para que permaneçam e caminhem no seguimento de Jesus, como noutras situações tem sido afirmado: há muitos cristãos baptizados, poucos catequizados e ainda menos evangelizados. Nesta parte do documento, preconiza-se “um itinerário para os discípulos missionários, que considere a riqueza espiritual da piedade popular católica”(…), variados processos formativos, com seus critérios e lugares, segundo os diversos fiéis cristãos. Para apenas referir uma situação específica, os pastores latino-americanos querem “estimular a formação de políticos e legisladores cristãos, para que contribuam na construção de uma sociedade justa e fraterna, de acordo com os princípios da Doutrina Social da Igreja”.

Na última parte, “A vida de Jesus Cristo para os nossos povos”, os bispos defendem a transformação da Igreja numa comunidade mais missionária. Ser discípulo e missionário são as duas faces da mesma moeda; por isso, fomenta-se a “conversão pastoral e a renovação missionária das Igrejas Particulares, das comunidades eclesiais e dos organismos pastorais”. São usadas expressões como “missão continental” e “novo Pentecostes”. Os contornos da missão continental serão definidos pelos bispos de cada país, mas fala-se já em “grande primavera” para a Igreja da América Latina e das ilhas caribenhas como consequência do encontro de Aparecida.

Sentir-se na Igreja como em casa

Além deste documento programático, que deverá ser conhecido na totalidade após aprovação papal, a V Celam emitiu uma Mensagem Final a “todo o Povo de Deus e todos os homens e mulheres de boa vontade”. Na última parte da Mensagem (citada na última página do Correio do Vouga da semana passada), os bispos afirmam que esperam “formar comunidades vivas”, “promover um laicado amadurecido”, “impulsionar a participação activa da mulher”, “cuidar da criação”, entre outros objectivos. Uma frase desse documento escrito em linguagem simples, parágrafos curtos e propositivos, tom interpelante e esperançado, sintetiza o novo espírito de Aparecida. Dizem os bispos de quase metade dos católicos do mundo: “Propomo-nos reforçar a nossa presença e proximidade. Por isso, no nosso serviço pastoral, convidamos a dedicar mais tempo a cada pessoa, escutá-la, estar ao seu lado nos seus acontecimentos importantes e ajudar a buscar com ela as respostas às suas necessidades. Façamos com que todos, ao ser valorizados, possam sentir-se na Igreja como na sua própria casa”.

*Com Agência Ecclesia

Bento XVI não faltou

As conferências gerais do bispos da América Latina e do Caribe (Celam) são muito mais de que uma reunião esporádica dos bispos da parte do continente americano que fala português e espanhol. O que delas sai, como a “opção preferencial pelos pobres” ou a necessidade de “nova evangelização”, influencia toda a Igreja. Por isso, se o Papa esteve na primeira Celam, no Rio de Janeiro (Brasil, 1955), não mais deixou de comparecer nas restantes. Paulo VI esteve em Medellin (Colômbia, 1968); João Paulo II esteve em Puebla (México, 1979) e em Santo Domingo (República Dominicana, 1992). Bento XVI inaugurou os trabalhos da Celam de Aparecida, no dia 13 de Maio.