Uma pequena diferença que muda o sentido da crise

Vivemos tempos de uma crise que muitos reconhecem como sendo, primeiramente, ética. Para mim, também teológica, pois quando o homem perde do horizonte o Absoluto, absolutiza-se a si mesmo! E o que será esta crise senão uma manifestação do absolutismo individualista?!

Nesta crise ilustra-se, aliás, de forma terrivelmente realista e actual, uma parábola do Céu e do Inferno, contada por Leonardo Boff, no seu livro, sempre actual, «Vida para além da morte».

Conta o teólogo brasileiro que um certo discípulo terá perguntado ao seu Mestre chinês qual era a diferença entre o céu e o inferno e que este lhe terá dito que entre ambos a diferença era pequena, ainda que de grandes consequências.

«Vi um grande monte de arroz. Cozido e preparado como alimento. Ao redor dele, muitos homens. Famintos, quase a morrer. Não podiam aproximar-se do monte de arroz. Mas possuíam longos palitos de 2-3 metros de comprimento – os chineses, naquele tempo, já comiam arroz com palitos -. Apanhavam, é verdade, o arroz, mas não conseguiam levá-lo à própria boca, porque os palitos, nas suas mãos, eram muito longos. E assim, famintos e moribundos, juntos mas solitários permaneciam, curtindo uma fome eterna, diante de uma fartura inesgotável. E isso era o inferno.

Vi outro grande monte de arroz. Cozido e preparado como alimento. Ao redor dele, muitos homens. Famintos, mas cheios de vitalidade. Não podiam aproximar-se do monte do arroz. Mas possuíam longos palitos de 2-3 metros de comprimento. Apanhavam o arroz, mas não podiam levá-lo à própria boca, porque os palitos, nas suas mãos, eram muito longos. Mas, com os seus longos palitos, em vez de levá-los à própria boca, serviam uns aos outros o arroz. E, assim, matavam a sua fome insaciável, numa grande comunhão fraterna. Juntos e solidários. Gozando a excelência dos homens e das coisas. E isso era o céu».

A diferença entre o céu e o inferno não estava, portanto, nas circunstâncias em que os homens se encontravam, mas no modo de estarem uns com os outros nas mesmas circunstâncias, descentrados de si, abertos aos outros.

A actualidade desta parábola confirma a profundidade da sua leitura do que é o homem e reforça uma convicção que venho, de há muitos anos, a partilhar com alunos e companheiros desta viagem que é a vida: a verdadeira liberdade não acaba onde começa a liberdade dos outros… A verdadeira liberdade aumenta na medida em que fizer crescer a liberdade dos outros.

Pode parecer um jogo de palavras, como a singela diferença entre solidário e solitário. Mas é muito mais do que isso. A história comprova-a.

Na verdade, quando terminou a II Grande Guerra, se os americanos, que não tiveram guerra no seu solo, tivessem entendido a liberdade à maneira da primeira definição, ter-se-iam aproveitado da destruição da Europa para dela se apropriarem. A sua liberdade pareceria, então, ter aumentado com a redução da Europa a escombros. Mas não foi assim. Os americanos compreenderam que, mesmo em economia, a verdadeira liberdade é aquela que faz aumentar a dos outros… E criaram o Plano Marshall, disponibilizando dinheiro para que a Europa ressurgisse das cinzas.

É desta visão que necessitamos, hoje, para renascer de uma crise infernal. Só uma economia que a todos respeite, envolva e dignifique será verdadeiramente capaz de superar as dificuldades que esta crise espelha. Uma lógica individualista só agudizará o fosso entre os que deviam ser iguais e fará germinar injustiças que são o húmus da violência. Numa pequena diferença reside, portanto, o segredo para voltar a página: que cada um se pergunte, como pedia J. F. Kennedy ao povo americano, em Janeiro de 1961, não o que podem os outros fazer por si, mas sim o que pode cada um fazer pelos outros.