Na instituição de ensino aveirense, ter dificuldades de locomoção, ser invisual ou não ter mãos não é impedimento para levar a bom termo o curso superior.
Quando se fala em acessibilidade para todos, pensa-se em rampas para cadeiras de rodas, elevadores em vez de escadas, casas de banho adaptadas. Porém, uma universidade acessível é muito mais do que isso. Trata-se de ter condições para que qualquer aluno, qualquer que seja a sua condição, possa usufruir de toda a formação que a escola proporciona. Ora, a Universidade de Aveiro (UA) quer ser uma escola totalmente acessível.
Gracinda Martins é responsável pelo Gabinete Pedagógico da UA e lida com os alunos que têm necessidades educativas especiais. “Não há um gabinete só para eles, e espero que assim continue a ser”, afirma ao Correio do Vouga. “Fazem parte da comunidade académica, como qualquer outro, apenas têm necessidades específicas”, acrescenta.
Que necessidades podem ser essas? Além dos casos mais típicos e relativamente frequentes de alunos em cadeiras de rodas, enquadram-se nas “necessidades educativas especiais” os alunos portadores de deficiência e os que têm alguma doença crónica. A todos eles a Universidade de Aveiro deseja responder com as melhores condições através da acção concertada do Gabinete Pedagógico, dos Serviços de Acção Social e do Dep. de Ciências da Educação. Exemplos baseados na realidade desta universidade: aos invisuais é fornecido um computador com “software” de voz; a alunos com paralisia ou certos tipos de dislexia é facultado mais tempo para fazer os exames; e há também o caso de um aluno sem braços que responde aos exames ditando.
Curiosamente, na UA nunca se matriculou um aluno com surdez total. Quando tal acontecer, serão criadas condições para que possa estudar com menos limitações, garante Gracinda Martins. “A Universidade não pode ter todas as condições em todos os departamentos. Não seriam utilizadas. Mas cria-as à medida que surgem os casos”, afirma.
O trabalho de voluntários é fundamental para o GP. Há 70, entre alunos, funcionários não docentes e professores, que colaboram com o GP. Os voluntários dão aulas particulares, apoiam na prática de modalidades desportivas, como a natação, ou nos testes, no caso de um aluno sem membros superiores.
Curso superior sem nunca ir à universidade?
Porque a UA quer estar preparada, convidou as escolas secundárias a trocarem informações com a UA, em Abril e Maio, embora os alunos, naturalmente, ainda não saibam que universidade vão frequentar. Tal troca de informação é considerada útil para ambas as partes. Os alunos do secundário sabem que uma universidade tem ou cria condições para os acolher, enquanto a UA pode antecipar cenários. Até este ano, a prática era ter conhecimento das necessidade educativas especiais apenas no dia das matrículas. De entre os casos que a UA tem em mãos após esta auscultação, e que pode vir a concretizar-se ou não, está o de uma aluna acamada que quer fazer estudos superiores. A Universidade estuda a possibilidade de ela fazer o curso sem sair de casa. Se tal acontecer – para já, a aluna tem de concorrer ao ensino superior e entrar na instituição aveirense –, será caso inédito em Portugal.
Gracinda Martins dirige o Gabinete Pedagógico (GP) da UA desde 1991. Tem a seu cargo o “pelouro” das necessidades educativas especiais. Mas o GP tem outra função mais basta. É um espaço confidencial onde os alunos se sentem à vontade para “dizer tudo sem serem julgados”. Pelo GP passam jovens com problemas familiares, afectivos ou quaisquer outros. A confidencialidade é absoluta. “Não há qualquer registo”, adianta, quando se trata de problemas pessoais. Sem números concretos, Gracinda Martins pode afirmar, contudo, que “é logo a seguir às férias do Verão” que mais jovens procuram o GP. Motivo: dificuldades de relacionamento com os pais.
O GP, dependente da Vice-Reitoria para a Educação e Formação Graduada, participa ainda nos trabalhos inerentes à avalição e acreditação dos cursos.
Biblioteca com recursos para todos
2007 é o Ano Europeu para a Igualdade de Oportunidades. No capítulo do ensino superior, poderá ficar marcado pela criação da Biblioteca Aberta do Ensino Superior (BAES). A UA, com outros estabelecimentos de ensino, a UMIC (Agência para a Sociedade do Conhecimento) e a Direcção-Geral do Ensino Superior estão a criar recursos pedagógicos que ficarão disponíveis em bibliotecas e on-line. Setembro de 2007 é a data apontada para os primeiros resultados. Em Janeiro de 2008, quando o projecto estiver completo, cerca de 3000 títulos, entre excertos e obras completas, ficarão acessíveis, principalmente para quem tem dificuldades de visão.
