Valente mulher!

João GonçalvesGaspar Padre e historiador. Vigário geral da Diocese de Aveiro
João Gonçalves Gaspar
Padre e historiador.
Vigário geral da Diocese de Aveiro

No passado dia 08 de março, dei comigo a fazer uma reflexão sobre a “mulher”. Desejaria vê-la sempre respeitada, elogiada e engrandecida nas relações humanas, na propaganda e nos conceitos sobre a sua dignidade. É que, tantas vezes, a mulher é amesquinhada e, ao falar-se dela, apresentam-se pretensos valores que são contravalores, que aviltam as consciências, que significam pretextos para indignos abusos e que não levam à autêntica felicidade.

Vou relembrar uma experiência, ocorrida há cerca de dois meses. Procurou-me uma mulher que tinha necessidade de desabafar com alguém. Trata-se de uma mãe solteira, cuja filhinha passa os dias num centro social. Desde a primeira hora do seu infortúnio, foi abandonada pelo companheiro e pressionada pelos familiares e pelos amigos e amigas a abortar. Perante a sua consciência baseada em nobres princípios, não cedeu, apesar do sacrifício e da perca da sua boa fama.

Fora catequista na sua paróquia; mas agora não se sentia bem acolhida na comunidade e era julgada com a crueza de palavras duras; fora-lhe mesmo negado o batismo da menina. Embora sem a conhecer, dispus-me a ouvi-la. Assim aconteceu durante uma manhã. Deixei-a falar, desabafar e chorar, sem fazer quaisquer juízos, pois tinha uma pessoa perante mim, a qual me merecia todo o respeito. Admirei a sua valentia em não interromper o percurso de uma vida humana. Lutou e luta sozinha… mas quer vencer.

Perante a conversa, eu fui pensando que não deveria ser um simples padre de laboratório mas um humilde instrumento de compaixão em favor de uma mulher ferida; e surgiram-me, num acaso indefinível, as palavras que finalmente lhe disse: – «Você foi e é uma mulher valente… uma heroína!» Ela, olhando mais para a seu íntimo do que para mim, respondeu com gratidão: – «Era isso que eu queria ouvir de si; nas suas palavras vejo o perdão de Deus.» Repeti-lhe o conselho de Jesus a uma certa mulher: – «Continue a ter coragem; não volte a pecar!»

Fiquei a saber que uma família lhe havia facultado o emprego de colaboradora doméstica, para obter uma retribuição justa pelo seu trabalho. Também me lembrei de lhe dizer que, para a ajudar nos seus problemas, era útil encontrar alguém com quem desabafasse e dialogasse. E indiquei-lhe uma senhora, mãe de diversos filhos, que, embora viúva, educa no ensino escolar, forma na catequese paroquial e vive a alegria na saudade do marido que falecera há anos. Tomei a liberdade de lhe indicar o endereço e o nome: – Dália Aisele da Cidade. Conheci o seu avô Noé, homem que confortava abnegadamente os tristes; e ela, por seu turno, deixara-se entusiasmar pela padroeira de Aveiro, para quem amar a Deus era servir, e pelo monge de Cister, que escreveu: – «Amo para poder amar mais.» Tornaram-se amigas e… a vida continua.