Vamos à matemática!

1 – Habituei-me, desde miúdo e com gosto, ao raciocínio matemático, que mais tarde vim a perceber que era o primeiro grau de abstracção, passo indispensável para saber raciocinar, para criar pensamento, estruturar conhecimentos, deduzir conclusões, sonhar projectos, desenvolver estratégias. A minha paixão pelo caderno de exercícios, dom sem mérito próprio, foi estimulada pelos professores que tive e cultivada com insistente trabalho, mesmo não prescrito.

2 – É evidente que a comunicação, hoje, é fundamental. E uma língua que proporcione o intercâmbio de cultura, ciência, tecnologia, arte, afeição… é muito importante. Todavia, o testemunho de milhares de emigrantes, a minha própria experiência de correr mundo e participar em encontros de línguas e raças muito distintas, demonstram claramente que a necessidade espevita as linguagens que geram a aproximação. Portanto, fora de questão a conveniência de manter o inglês nos currículos escolares. Discutível será a oportunidade de o introduzir nos currículos dos primeiros anos do ensino básico.

3 – Somos um país deficitário em resultados na matemática. Não será essa uma das razões do colapso do pensamento português, da anarquia de informação que se não torna conhecimento ordenado e crítico, da incapacidade das avaliações, da falta de projectos sonhados com rigor, da tacanhez de estratégias?… salvas as honrosas excepções de cidadãos capazes, na ciência como na gestão, na arte como na política, mas que ficam habitualmente de fora da generalizada confusão da miopia nacional. Como se entende que não se invista do mesmo modo na iniciação à matemática? Até porque há gente capacitada para o ensino dessa disciplina, quando a “ensinam” outros que pouco têm a ver com a ela.

4 – Aqueles que promoveram a civilização da sensação, que teimam em construir a sociedade da facilidade de vida, em vez da qualidade de vida, do espectáculo em vez do trabalho, das questões colaterais em vez dos problemas essenciais, da artimanha em vez da verdade, da alucinação em vez do realismo, do palavreado em vez das acções concertadas… remendam, remendam sem resultado, retalhos de pano novo em tecidos sociais velhos e podres. Afinal, o défice da matemática, que vem de longe, produz nefastos efeitos a longo prazo, porque nos priva de cultivar o pensamento.

5 – Vamos concertar-nos a dar prioridade ao árduo trabalho da matemática? É que os efeitos benéficos compensarão o esforço. E não tardará a florescer uma nova geração, que pense, que construa conhecimento, que seja capaz de trabalho, que estime a honestidade, que programe com consistência… Não que sejamos todos inúteis! Mas, na realidade, há muitos “responsáveis” que precisam de ser mudados, muitos “buracos” que precisam ser colmatados!