Bento Barros Pereira
Nasceu no 9 de Maio de 1979. Frequentou o Seminário Menor de Dili a partir de 1995 e o Seminário Maior de 2000 a 2007. Depois de dois anos de estágio pastoral, foi ordenado padre no dia 6 de Agosto de 2009. É vigário paroquial em Santa Maria Ainaro.
Sebastião Eugénio da Cruz Correia
Nasceu no dia 17 de Novembro de 1975. Entrou no Seminário Menor em 1993. Fez o curso filosófico-teológico entre 2000 e 2007. Estagiou nas paróquias de Vale Maior e Ribeira de Fráguas (Albergaria-a-Velha). Foi ordenado padre no dia 15 de Setembro de 2008.
Bento Pereira e Sebastião Correia são padres timorenses. Estão em Portugal até meados de Outubro, de férias mas também para agradecer à Diocese de Aveiro, que em dois períodos distintos permitiu que o P.e Francisco Melo ensinasse no Seminário Maior de Dili, e às paróquias de Vale Maior e Ribeira de Fráguas. As perguntas desta entrevista foram dirigidas aos dois em simultâneo. Com maior à vontade com a língua portuguesa, o P.e Bento respondeu mais, mas respondeu pelos dois
CORREIO DO VOUGA – Contem-nos como é o vosso trabalho de padres em Timor.
Bento Pereira (BP) – Sou vigário paroquial em Santa Maria Ainaro, no terceiro distrito de Timor, numa zona de montanha. Trabalho com o padre Evaristo Fernandes. A nossa paróquia tem cerca de 150 km de comprimento e sete comunidades que, no total, têm cerca de 40 mil habitantes.
Sebastião Correia (SC) – Eu trabalho em Becora, Dili, na paróquia do Sagrado Coração de Jesus, com o padre Guilherme da Silva. Sou vigário cooperador. A paróquia ter cerca de 20 mil habitantes. Nela situa-se a estação missionária, com franciscanos, carmelitas e outras congregações.
Nas vossas paróquias, a Igreja tem uma grande missão educativa.
BP – Sim. Temos a Escola Católica e o Pré-Seminário. A Escola Católica da minha paróquia tem quatrocentos alunos, do jardim-de-infância ao secundário.
SC – A minha escola, dos mais novos aos mais velhos, é frequentada por 1200 alunos.
Com que dificuldades se debate o ensino em Timor?
BP – Nós precisamos de levantar as qualidades da educação e dos edifícios. As nossas escolas precisam de bons professores, mas também de bibliotecas, de instalações sanitárias e de materiais para os alunos. O dinheiro não chega para tudo. A escola funciona em instalações deixadas pelos portugueses. Temos professores permanentes que são pagos pelo governo e professores contratados que são pagos pela paróquia.
SC – Temos também algumas professores portugueses que não ensinam a alunos, mas sim a professores timorenses.
BP – No Pré-Seminário, a principal dificuldade tem a ver com as instalações. Temos muita gente a querer entrar, mas não temos espaços para todos. Não há quartos suficientes. E falta-nos construir uma capela.
Na paróquia da Gafanha da Nazaré [de que agora é pároco o P.e Francisco Melo], o ofertório foi para ajudar a restauração de uma das vossas igrejas. Quer dizer que, em termos de edifícios, não são só as escolas que precisam de obras…
BP – Também precisamos de reabilitar a igreja antiga, que foi construída pelos portugueses, à maneira dos portugueses. Temos neste momento 5 mil dólares, mas precisamos de 250 mil. Foi construída em 1950/60, é património da Igreja e da nação.
Deixando a realidade eclesial, e numa altura em que passam 10 anos sobre o referendo, algumas notícias, cá em Portugal, diziam há pouco tempo que Timor corria o risco de ser um Estado falhado, ou de não ter viabilidade. Como é que vêem o futuro do vosso país?
BP – Vemos com optimismo. Tivemos a restauração da independência em 2002. No início foi difícil. O Governo tinha acabado de nascer e havia imensos problemas. Agora há programa político e notamos que está a haver mudanças. Há um melhor relacionamento com os estrangeiros. Há obras como hospitais e estradas que estão a avançar. Notamos que o orçamento está a chegar aos distritos e subdistritos. Dá para notar a mudança.
Falando de outro tipo de mudanças, como reage a sociedade timorense, alicerçada em valores tradicionais, à mudança cultural?
BP – Timor era uma sociedade muito fechada. Agora há mais liberdade, mais informação, novas mentalidades. As mudanças são fortes e não as vemos como negativas. Geralmente até as acha-mos boas, desde que saibamos manter os nossos valores culturais e religiosos e os nossos costumes.
Timor adoptou o português como uma das línguas oficiais. Como está a ser a implantação da língua portuguesa?
BP – As pessoas da nossa idade, que não tiveram aulas em português – nós, como andámos no seminário, tivemos –, acham que a língua é difícil e preferem o indonésio e o inglês. Já os mais velhos gostam do português, que representa uma ligação a Portugal. Os mais novos aprendem português na escola, porque as aulas são dadas em português. A dificuldade é que não falam quando não estão na escola.
O padre Sebastião tem uma promessa a cumprir na Diocese de Aveiro…
SC – Eu estagiei nas paróquias de Vale Maior e Ribeira de Fráguas (onde o P.e Francisco Melo foi pároco) e na altura fiz uma promessa: “Se eu for ordenado padre, venho aqui rezar uma Missa”. Estou cá para cumprir a promessa. E quero também agradecer o dinheiro que estas paróquias deram para a formação de seminaristas. Uma bolsa de estudo custava 15 dólares por mês. Tenho de agradecer a grande ajuda de Ribeira de Fráguas e Vale Maior.
Entrevista conduzida por
Jorge Pires Ferreira
