Esgrimiram-se argumentos de toda a ordem: informações sensatas, conclusões científicas, pesados problemas sociais, caminhos de solução…, a par de algumas hipocrisias político-partidárias, um ou outro fundamentalismo moralista, manipulação de dados sociais, falsas soluções para os problemas de fundo…
Foi claro: quem não quer ver não vê! quem tem miopia sobre a vida dificilmente a enxerga com nitidez! quem pretende “raciocinar” o mistério afunda-se nas contradições e oculta as conclusões definitivas, com receio da penalização.
A vida existe desde a concepção, com uma identidade irrepetível e num processo de desenvolvimento cuja interrupção é irreversível. Claramente, em caso de conflito de interesses, há dois em “litígio”; e não pode ser nunca um só deles a decidir sobre o outro, que, para maior gravidade, é o mais débil.
As circunstâncias “justificáveis” (?) de aborto estão contempladas na lei. Conferir a alguém o direito de dirimir o conflito de interesses – entre a mãe e o feto – sem qualquer defensor do nascituro, sem qualquer processo de aconselhamento esclarecedor, que sugira outras vias de solução, sem apelo à ponderação e ao humanismo…, é deixar cair a defesa da vida na rua, é entregar ao capricho a nobre missão de gerar e fazer crescer, é entrar no relativismo absoluto sobre a questão fundamental da pessoa humana: a sua existência e o sentido da mesma.
A liberdade, evocada como argumento fundamental e garante da democracia, perdeu sentido e conteúdo, quando foi reduzida simplesmente à possibilidade de livre arbítrio, já que nunca o é em estado puro, uma vez que, para o ser de verdade, tem de se equacionar com a teia das liberdades de todos e com a institucionalização dessa teia nas regras e leis sociais.
Foi nítida a escassez da manta para cobrir as deficiências dos defensores do “sim”, o que levou a não poucas atitudes de falta de respeito para com pessoas e posições – hábito corrente no costume do comício politiqueiro. Foi clara a serenidade de muitos que pretenderam esclarecer as consciências, deixar aberto o caminho de uma decisão pensada e fundamentada. Esse foi o grande valor desta campanha.
Os portugueses não podem deixar agora ao acaso tanto esforço sério, que não chegou a ser maculado por nódoas dos “políticos de segunda”. É preciso que vença a vida: pelo voto, já que a ele fomos chamados; pelo redobrado esforço de continuar a redescobrir e ajudar a redescobrir a dignidade da pessoa humana, como núcleo da evangelização para os nossos dias. E que, como Igreja, assumamos, por uma vez, que “a glória de Deus é o bem do Homem”; e, por isso, ele é continuamente a via da mesma Igreja.
