Um Papa em missão A viagem de Bento XVI à Alemanha, de 9 a 14 de Setembro, confirmou um novo estilo de pontificado, com prioridades bem definidas no que diz respeito à missão de líder e referência espiritual de mais de mil milhões de católicos em todo o mundo.
Debaixo dos holofotes da opinião pública desde a sua eleição, em Abril de 2005, o Papa Ratzinger tem sabido ultrapassar a desconfiança e antipatia que alguns sectores, dentro e fora de Igreja, sentiam em relação à sua pessoa. Mais do que debitar sentenças morais ou doutrinais, Bento XVI tem centrado a sua acção e os seus discursos numa pregação dos fundamentos mais básicos da fé cristã sobre Deus, o mundo e o ser humano, numa linguagem simples, clara e, por isso mesmo, profunda.
As principais intervenções do Papa quiseram colocar Deus no centro da vida das pessoas, em plena crise religiosa no Ocidente, “surdo” ao divino e submerso pelas ondas do relativismo, do laicismo e do secularismo. Embora seja evidente que um líder espiritual tenha de falar destes temas, as intervenções de Bento XVI suscitaram reacções fortes e muito diversas na imprensa, mais habituada a ver neste homem um “combatente”, preferindo colocá-lo “contra” alguém a reconhecer o seu esforço de síntese.
Quando desafiou os católicos a apresentarem ao mundo, de forma clara, o Deus em que acreditam, o Papa sabia que essa fé tinha de diferenciá-los de outros crentes, pelo que não se estranha que tenha falado do que separa o Catolicismo do Islão. A “aula” sobre esta matéria poderá ter surpreendido, mas esteve longe de querer “atacar” fosse quem fosse: a referência às diversas culturas religiosas do mundo entra numa linha de abrangência, não de conflito, porque o Papa conhece o mundo em que vivem os fiéis e sabe que nem todos assistem com satisfação às mudanças no Ocidente, sentindo-se mesmo ameaçados por elas.
O esforço de fundo em mostrar que é conciliável ter fé e, ao mesmo tempo, fazer uma busca racional de Deus também deve ser entendido à luz desta linha conciliadora – que incluiu um encontro com representantes do mundo da ciência. Deus está no centro, mesmo quando as respostas se procuram longe dEle.
Aos cristãos de outras confissões, Bento XVI reafirmou o seu compromisso ecuménico, mas, na terra da Reforma, foi com os ortodoxos que ficou a impressão de esse caminho de unidade estar mais próximo. A confirmar nos próximos meses.
Emoção contra dureza
A viagem à Baviera natal não poderia deixar de ter, por outro lado, um cunho pessoal e mais sentimental. Bento XVI não teve pejo em mostrar-se emocionado e evocar as pessoas que mais o marcaram na fase da sua vida em que ali viveu. Esta faceta mais privada do Papa ajuda, de certa forma, a atenuar a imagem de teólogo duro e implacável que o tem acompanhado.
Em síntese, nunca como nesta viagem foi Bento XVI, o Papa “professor”, tão igual a si mesmo, firme e determinado, consciente do que é prioritário para a sua missão e para a vida da Igreja, numa sociedade em mudança e que precisa das respostas que os católicos teimam, muitas vezes, em guardar para si.
CV / Ecclesia
O que disse o Papa Bento
Em Munique (10 de Setembro), na Eucaristia, perante 250 mil pessoas
“Não existe apenas a surdez física, que em grande parte coloca o homem fora da vida social. Há uma fraqueza do ouvido – em relação a Deus – de que sofremos especialmente neste nosso tempo. Pura e simplesmente, já não conseguimos ouvi-Lo… Aquilo que se diz dEle parece-nos pré-científico, ultrapassado. E, com a surdez em relação a Deus, perde-se – naturalmente – também a nossa capacidade de falar com Ele, a Ele. Vem assim a faltar-nos uma percepção decisiva. Correm o risco de extinguir-se os nossos sentidos interiores. Perdendo esta percepção, circunscreve-se de modo drástico e perigoso o raio da nossa relação com a realidade. Reduz-se, de modo preocupante, o horizonte da nossa vida”.
“Obviamente, há quem pense que os projectos sociais devem ser promovidos com toda a urgência, ao passo que as coisas que dizem respeito a Deus ou mesmo à fé católica seriam de menor importância”.
Na Basílica de Santa Ana (Altötting, 11 de Setembro),
na celebração de vésperas
“Quando os sacerdotes, por causa de grandes compromissos, permitem que o tempo para estar com o Senhor se reduza cada vez mais, perdem a força interior que os sustenta, apesar da sua actividade heróica. Aquilo que fazem torna-se um activismo vazio”.
“Só quem está com o Senhor pode conhecê-lo”.
Em Ratisbona (12 de Setembro), na Eucaristia,
perante 300 mil pessoas
“Hoje, que conhecemos as patologias e doenças mortais da religião e da razão e as destruições da imagem de Deus por causa do ódio e do fanatismo, é importante dizer com clareza em que Deus acreditamos e professar com convicção o rosto humano de Deus”.
“A fé é sempre esperança, é certeza de que nós temos um futuro e não cairemos no vazio. E a fé é amor, porque o amor de Deus quer contagiar-nos”.
“Quem acredita nunca está só”.
Na Universidade de Ratisbona, onde foi professor
A sociedade ocidental cultiva “uma razão que é surda diante do divino e remete a religião para o âmbito da subcultura”.
O resultado desta atitude é uma razão “incapaz de inserir-se no diálogo das culturas”.
“A difusão da fé através da violência é irracional”.
Na oração com católicos, protestantes e ortodoxos,
na Catedral de Regensburg
“Apesar de o tema do perdão recíproco se mostrar, de novo, em toda a sua urgência, por causa dos dramáticos acontecimentos do nosso tempo, tem-se pouca consciência da necessidade do perdão por parte de Deus, da justificação por meio dele”.
Na Catedral de Santa Maria (Freising, 14 de Setembro),
onde foi ordenado há 55 anos
“Jesus não nos chama servos, mas irmãos. (…) A messe é grande, mas poucos são os trabalhadores. Todas as gerações esperam mais operários para a messe, e em todas as gerações surgem novos operários. Eu tenho o sonho dos homens, de ter mais operários” (…). O trabalho “é fatigante mas muito bom, porque busca o essencial, que é Deus”.
No Aeroporto de Munique, antes de regressar a Roma
“Imagino o trabalho fatigante de todos quantos voluntariamente ajudaram a esta viagem. Obrigado a todos”.
