Vida de S. Tiago retratada na igreja paroquial da Moita

Painéis de Francisco da Cunha Francisco Cunha, um pintor artístico de painéis de azulejos, aveirense, é o autor e executor dos dois painéis, cada um deles com oito metros quadrados (quatro por dois metros), colocados recentemente nas paredes laterais da capela-mor da Igreja Matriz da Moita, próximo de Anadia.

“Em cada painel fiz quatro episódios da vida de S. Tiago”, começou por explicar o artista, que prosseguiu, dizendo que “o primeiro painel é sobre a vida de S. Tiago no tempo de Cristo, onde retratei quatro episódios da vida de S. Tiago na Palestina. O segundo painel é sobre a vida de S. Tiago na Península Ibérica”.

Para idealizar as quatro cenas do painel sobre a vida de S. Tiago na Galiza, o artista esteve em Santiago de Compostela e zona envolvente, onde visitou e fotografou os locais que lhe serviram de inspiração. Por isso, realça que este trabalho foi “muito interessante, porque não foi baseado em reproduções mas foram composições. Eu estive nos locais a estudar as vivências e a tomar conhecimento da história, para depois poder resumir a vida de S. Tiago na Península Ibérica em quatro episódios”.

Na concepção desses dois painéis, Francisco Cunha teve o cuidado de os enquadrar no que já existia dentro da igreja, em termos de obras de arte e de motivos decorativos, uma vez que esse templo é bastante rico em património e história.

“Como a igreja tem uma traça arquitectónica muito interessante, eu tentei adaptar os painéis, de forma a não agredir o que já estava na igreja e a toda a sua história. Tentei fazer com que os painéis sejam uma forma complementar ao que já existia, de modo a enriquecer um pouco mais o património da própria igreja”, sublinha o artista.

Com esse objectivo em mente, Francisco Cunha concebeu os painéis de forma a se situarem na corrente artística do classicismo, como explica, ao dizer que “pelas figuras, pelo volume das figuras e dos anjos, e pelas cercaduras, os painéis estão mais dentro do estilo clássico, do classicismo”, que também se verifica no azul e branco destes painéis.

Na realização deste trabalho, Francisco Cunha teve total liberdade para conceber e compor as imagens sobre S. Tiago, facto que ainda motivou mais o artista.

A Igreja Matriz da Moita já tinha outros painéis assinados por Francisco Cunha, obras de menores dimensões e colocados em paredes exteriores.

Igreja é anterior à fundação de Portugal

S. Cucufate foi padroeiro antes de S. Tiago

A primitiva Igreja Matriz da Moita foi construída na época anterior à da fundação de Portugal e teve como primeiro patrono S. Cucufate, refere A. Nogueira Gonçalves no livro “Inventário Artístico de Portugal / Distrito de Aveiro / Zona – Sul”, editado em 1959.

Segundo esse investigador, no ano 943 o “presbítero Pedro Bahalul vendeu a igreja própria de S. Cucufate, em Arcos, ao presbítero Daniel, sob condição de a deixar ao mosteiro de Lorvão”.

Para A. Nogueira Gonçalves, a igreja referida naquele documento do ano 943 só poderia ser a do actual lugar da Moita, a qual tinha por patrono S. Cucufate, um mártir de Barcelona. O livro transcreve uma lápide, do século XII, existente na actual Igreja da Moita, que informa que esse templo fora construído em honra de S. Cucufate, na era de 1233 (que corresponde ao ano de 1195).

Quando da visita que A. Nogueira Gonçalves fez à Moita, durante a inventariação e elaboração do livro, constatou que da primitiva igreja medieval pouco ou nada restava, considerando que o actual corpo principal da igreja data do século XVII, ainda que haja vestígios de épocas anteriores. A torre e a fachada principal remontam ao século XIX.

No interior, há algumas sepulturas e um túmulo em pedra trabalhada, construído no século XV, que investigadores locais apontam como sendo o de Luís de Camões.

Concelho medieval com “cabeça” em Ferreiros

Moita doada em conjunto com Ílhavo e Verdemilho

A região da Moita formou um concelho medieval, cuja “cabeça” era o lugar de Ferreiros, povoação já referenciada na primeira reconquista. O rei D. Sancho I, em Maio de 1210, deu carta de foro e de couto à vila de Ferreiros. No entanto, em 1514, quando do foral manuelino, a cabeça do concelho era o lugar de Carvalhais, lugar muito próximo da actual Igreja Matriz da Moita.

As terras de Carvalhais, Ferreiros, Ílhavo, Verdemilho (lugar junto à cidade de Aveiro) e Avelãs de Cima “andaram unidas nas doações que os reis delas fizeram, as quais acabaram por ficar de juro e herdade nos Borges”, escreveu A. Nogueira Gonçalves, no volume do Inventário Artístico de Portugal dedicado à zona sul do Distrito de Aveiro.

O rei D. Afonso V deu essas terras a Rui Borges e, por morte deste, ao filho Gonçalo Borges. O “último senhor a gozar das terras da coroa foi o 13º, José Maria de Almeida Castro de Noronha da Silveira Lobo (nascido em 1779 e falecido em 1854), o primeiro e único Conde de Carvalhais”.

D. Antónia de Mendonça, filha da 9ª donatária da Casa de Carvalhais, D. Maria Antónia de Almada, foi a primeira esposa do Marquês de Pombal.

Luís de Camões está sepultado na Moita?

Alguns investigadores defendem que Luís de Camões, o grande poeta épico, autor de “Os Lusíadas”, possa estar sepultado na Igreja Matriz da Moita, numa arca tumular datada do século XV, em pedra trabalhada, que actualmente serve de “mesa” de um dos altares laterais.

Segundo essa tese, o poeta, por altura da sua morte, teria por namorada uma filha dos referidos Borges, proprietários do Paço de Carvalhais, edifício solarengo e brasonado que se ergue no final da “Rua Luís de Camões”.

No entanto, A. Nogueira Gonçalves, no já citado volume do Inventário Artístico de Portugal, é de opinião que a artística arca tumular da Igreja da Moita guarde os restos mortais de Rui Borges ou de Gonçalo Borges, respectivamente, 1º e 2º senhores da Casa de Carvalhais.

Pedro de Mariz, o autor da mais antiga biografia de Luís de Camões, impressa em 1613, na edição de “Os Lusíadas”, comentados por Manuel Correa, e reimpressa na edição das “Rimas”, de 1616, com alterações”, contradiz a “hipótese Moita”.

Nessa biografia, publicada cerca de 30 anos após a morte do poeta, Pedro de Mariz escreve sobre Luís de Camões: “Morto ele em tanta miséria que o enterraram na Igreja de Sant’Ana desta cidade (Lisboa), de modo que custou muito trabalho atinarem com o lugar de sua sepultura, quando um fidalgo português, que só neste reino deu o primeiro balanço, lhe mandou fazer sepultura própria (mas tão rasa como as do mais povo) mas com este epitáfio nela esculpido:

Aqui jaz Luís de Camões. Príncipe dos Poetas de seu tempo.

Viveu pobre e miseravelmente, e assim morreu, ano de 1579.

Esta campa lhe mandou pôr Dom Gonçalo Coutinho

Na qual não se enterrará pessoa alguma”.