Vida em sociedade a desasgregar-se vertiginosamente

Em Portugal foi-se criando o clima, perante problemas e dificuldades que envolvem esforço pessoal e respeito por princípios sérios, de resolver as coisas nivelando por baixo. Os que sobrevivem sabem, de sobra, quanto lhes custa remar em sentido contrário e denunciar que o desfiladeiro mortal está próximo.

Este modo de agir vai destruindo tudo pelo caminho e tem manifestações graves de ordem social que não se podem ignorar ou deixar que fiquem ao nível de informações que incomodam agora e se esquecem logo.

Parece que neste país só os problemas económicos, aos quais ninguém nega a importância até pela sua repercussão social, são problemas capazes de movimentar grupos e associações numa procura reivindicativa de direitos, que quase sempre silencia os correspondentes deveres.

Vamos recordar alguns dados oficiais recentes dos últimos dias de que a comunicação social falou, a abrir caminho a uma reflexão consequente.

“Mais de meio milhão de portugueses vivem sozinhos.” O número cresceu 175 mil nos últimos dez anos. Do total, 67,5 por cento são mulheres, 8 por cento têm menos de 30 anos, 14 por cento têm mais de oitenta anos, 54,4 por cento têm mais de 65 anos, 19,8 por cento com idades compreendidas entre os 50 e os 64 anos e 36,7 por cento na faixa etária dos 65 aos 78 anos. Uma realidade com muitas leituras.

Outra notícia, cujos dados se entrecruzam para a reflexão: “730 crianças abandonadas só em 2003.” Isto quer dizer apenas que, diariamente, para duas crianças, a casa passa a ser a rua. A multidão dos novos “expostos”!

Quem dá as notícias vai aventado explicações e congeminando causas para esta realidade triste. As pessoas e as situações são diferentes, a sua história é apenas a sua e, por isso, está aberta a porta à reflexão que, para todos nós, se deve considerar como um dever.

Fácil é verificar, porém, que, por detrás de tudo isto, estão famílias destruídas, inexistentes, deterioradas, às quais falta o essencial para que haja família: amor, estabilidade, responsabilidade. A solidão destrutiva de muitos idosos e a destruição dos horizontes normais para muitas crianças denunciam onde chegou e para onde caminha, entre nós, a instituição familiar. União de facto, a nova opção social; divórcio à menor dificuldade; aborto, um direito em que ninguém deve interferir; crianças, um novo brinquedo para adultos; natalidade, um peso indesejável; felicidade individual, o tema que não admite discussão. E, porque ninguém quer contrariar ninguém, para tudo vai havendo leis a nivelar por baixo, sem sentido de lei, pois não são um serviço ao bem comum. Quem respeita princípios e não dispensa referências válidas para crescer e agir socialmente não pode desistir de lutar. Só perder o sono, lamentar-se ou irritar-se não chega.