Memória CV – Há 50 anos Na década de 1950, o Correio do Vouga publicava um suplemento mensal intitulado “Serão de Letras e Artes”, dirigido pelo Pe Allyrio de Mello, então pároco de Vagos.
Um suplemento deveras interessante: quatro páginas de pequenas notícias culturais, uma ou outra desenvolvida com mais pormenores, uma ou outra nota história e, de vez em quando, uma anedota “intelectual”, como esta:
«- Ando a organizar uma liga contra a invasão de palavras inglesas na nossa língua. Quer fazer parte dela?
– Com todo o gosto!
– Nesse caso, cá o inscrevo.
– All right!»
Na edição de 29 de Setembro de 1956, dá-se destaque à pretensão de nobreza do escritor francês Vítor Hugo, celebrado autor de “Os Miseráveis” e de “Nossa Senhora de Paris”.
Tinha sido encontrado nos arquivos da companhia de seguros “La Nationale” um contrato em que o escritor assinava “Vicomte Hugo”. Escreve o Pe Allyrio: “De resto, o poeta blasonou de nobreza de sangue, como descendente que afirmava ser dum certo Hugo do tempo das Cruzadas, quando afinal, por seus pais, era neto dum marceneiro e bisneto dum sapateiro…”. A seguir, acrescenta: “Aliás, isto não constitui motivo de desonra: o que é sumamente vergonhoso é ele recorrer a toda a sorte de falsificações dos seus próprios escritos para pôr um pouco de unidade nas suas convicções e vangloriar-se duma ascendência que não era a sua”.
A crónica do Pe Allyrio é complementada por um comentário sobre as pretensões de nobreza por parte dos escritores portugueses. Este tipo de comentários revela o homem de vastos conhecimentos que era e – é de crer – habitualmente tornava muito apetecíveis os seus textos:
«Convirá recordar que há um pouco de ridículo no ‘viscondado’ de Garrett, autor do célebre epigrama: – “Foge, cão, que te fazem barão!” – “Mas p’ra onde, se me fazem visconde?” E mais ridículo há em Castilho, pouco antes da concessão do título, a dar todas as explicações a Camilo, como que pedindo-lhe desculpa de “ter de ser” o “Sr. Visconde de Castilho”. E muitíssimo mais ridículo há em Camilo, a bater-se anos e anos por que o fizessem “Visconde”, depois de ter batido em todos os viscondes deste mundo e do outro…»
