Encontro dos Jovens do Mediterrâneo Decorreu, em Setembro de 2005, a quinta edição do Ágora dos Jovens do Mediterrâneo. Nesse encontro de jovens de 24 nações (sul da Europa, Balcãs, Norte de África e Médio Oriente) participaram dois jovens de Aveiro, a Carla Silva e o Pedro Martins. O encontro passou despercebido, mas a página dos “Jovens” do Correio do Vouga recupera-o, dando a palavra aos representantes portugueses.
Correio do Vouga: O que é o Ágora?
Pedro Martins: Ágora é uma palavra de origem grega que significa praça. É o equivalente ao Fórum dos romanos. Portanto, este encontro é um fórum onde se reúnem, durante uma semana, Jovens Católicos, animadores de Pastoral Juvenil e Pastoral Missionária dos Países do Mediterrâneo, que debatem temáticas actuais tais como Fé, Ética, Economia e Política. Decorre em Loreto, Itália, no Centro João Paulo II.
Como começaram esses encontros?
Corria o ano de 2001, quando o Centro João Paulo II organizou o primeiro Encontro Internacional de Jovens do Mar Adriático. Tratou-se de uma iniciativa que não visava apenas a solidariedade com os Países de Leste, mas o aprofundar do património comum de Fé em Jesus Cristo.
Esta experiência deu vida ao Ágora dos Jovens do Mediterrâneo. A partir do ano seguinte, a Conferência Episcopal Italiana, através do Serviço Nacional de Pastoral Juvenil e do Departamento de Cooperação Missionária, passa a apoiar o encontro e alarga-se, também, a participação aos diversos países do Mediterrâneo, aumentando desta forma a sua importância. As Conferências Episcopais de Portugal, Espanha e França, passam a ser co-organizadoras do encontro.
Decidiu-se adoptar como tema de reflexão as “Bem Aventuranças”, de modo a poderem-se confrontar assuntos actuais à luz da palavra de Cristo.
O que fizeram durante essa semana?
O mote deste encontro, inspirado na “adaptada” bem-aventurança “Bem aventurados os que desejam ardentemente o que Deus quer; Deus cumprirá os seus desejos”, era a Justiça. Desta forma, falou-se e reflectiu-se muito sobre a organização política e jurídica de cada país. Por exemplo, como eram os sistemas prisionais (população, condições, penas de prisão, etc.) ou o funcionamento dos tribunais. Também tivemos a oportunidade de conhecer um pouco das juventudes do Mediterrâneo.
Todos os dias tínhamos Eucaristia, animada por todos. Verdadeiras festas de Deus!
Também nos coube a dinamização da Oração da Manhã do último dia. Foi das experiências que mais nos marcaram! Ainda hoje, nos mail’s que vamos recebendo, falam da oração da manhã dos portugueses!
A que conclusões chegaram no tema em debate?
A maior conclusão é que vivemos perto do paraíso! Os jovens da “velha Europa” podem-se sentir uns felizardos, comparando com jovens do Médio Oriente ou da antiga Jugoslávia! Mal ou bem, temos uma Justiça que vai funcionando sem grandes arbitrariedades, temos um sistema político que me permite dizer bem ou mal do partido A ou B. Quando me deito, tenho a certeza que, em condições normais, acordo, e não tenho nenhuma bomba ou bala perdida a entrar no meu quarto, ao contrário do Ziyad da Palestina, por exemplo. Posso falar e expressar a minha Fé católica, sem medo de ser morto só porque não sou muçulmano.
O encontro passou despercebido na imprensa portuguesa, mesmo católica. Não corre o risco de ser inconsequente?
Se calhar. É como em tudo. As coisas da Igreja, se não forem polémicas, não são notícia! Vê-se nos jornais, nas televisões… quantos acontecimentos sem importância e só para encher minutos de antena, não foram noticia? Em Itália, este encontro faz parte dos Media. Por exemplo, no primeiro em que participei, fui entrevistado pela RAI e por uma rádio. Estavam lá dezenas de fotógrafos, cadeias de televisão… Este ano, diversos jornais publicaram notícias. Por cá, só o Correio do Vouga teve interesse! (risos) Como membro co-organizador, a CEP, através do DNPJ, está motivada para este assunto: no entanto, também reconheço a dificuldade de divulgação do encontro e das suas conclusões.
O que mais te impressionou nas pessoas com quem contactaste? Podes contar algum caso?
Não foi com jovens, mas há uma história que me marcou. O senhor era padre. Contava ele que, dias depois de ser ordenado, o bispo mandou-o para os “confins do mundo”. Quando lá chegou, constatou que não tinham escola primária. A primeira luta estava para começar. Papel para aqui, papel para ali, recusas, indeferimentos; ele resolve construir, mesmo sem licenças. Parede construída hoje, destruída amanhã. Mas ele não desiste e leva a dele avante; e, depois de muitos sacrifícios, lá conseguiu construir a escola.
Hoje está a acabar a construção de uma universidade! O extraordinário disto não são as construções, mas o local, Belém. Os israelitas deitavam abaixo, os palestinianos construíam. Ele nunca desistiu!
Pensei muitas vezes… e eu o que faria? E os nossos párocos como vão reagindo às adversidades? Quantas “escolas” deixaram de construir? Quantas paredes deixaram que deitassem abaixo, sem nada mais fazerem?
São importantes os contactos com jovens de outros países?
Sempre! Pelas razões que já fui elencando. Penso que não se notam muitas diferenças entre os jovens de França, Portugal, Espanha e Itália! Notam-se sim, diferenças nos jovens de Leste e Médio Oriente. Para os primeiros, o começar a caminhar na Democracia e na Liberdade; para os segundos, os climas de tensão, de guerra… Não só os da Terra Santa, mas também os outros de que não se fala por cá, como são os casos da Síria, da Líbia, do Líbano, por exemplo. Aquela zona está sempre em ebulição!
Estas reuniões às vezes valem mais pela partilha de experiência do que pelos conhecimentos adquiridos. Foi o caso?
Um pouco dos dois e juntando, ainda, os “programas B”. Isto é, tudo o que vivemos fora do programa do encontro. As anedotas, as conversas, os desabafos, os silêncios…
Existe uma juventude europeia? Ou uma juventude mediterrânica? É toda igual?
No início da nossa conversa, falava de juventudes. Penso que assim é mais correcto. Nós somos diferentes uns dos outros. Quer pelas nossas experiências, quer pelas nossas “liberdades”. Mas é esta diversidade que cria a unidade! Todos juntos sentíamos a presença de Deus! Parecia um novo Pentecostes!
Os jovens são diferentes, mesmo a forma de vermos Cristo é diferente. Uma das minhas grandes discussões foi com um jordano que dizia que temos de aceitar tudo o que vem de Deus. Por exemplo, numa queda. Segundo ele, devíamos ficar caídos, porque Deus fez com que caíssemos. De certeza que Deus não quer que fiquemos prostrados! Temos de nos levantar e continuar a caminhar! Mais tarde, ele veio a concordar comigo. Esta situação é sintomática da cultura que eles vivem!
