Zé Penicheiro, artista que adotou Aveiro

Penicheiro
Zé Penicheiro faleceu no dia 15 de março de 2014

“Esta paisagem, com todo este azul da ria e do céu, é a minha fonte de inspiração”, disse-nos, há alguns anos, o artista plástico Zé Penicheiro, junto à grande vidraça do seu atelier, no primeiro piso de uma moradia virada para a Ria de Aveiro, situada na Rua da Pega, na cidade que escolheu para viver após ter residido em diversas terras, incluindo uma primeira estadia na “cidade dos canais” em finais da década de 1960 e inícios da seguinte.

Se Aveiro foi a cidade que escolheu para residir, a Figueira da Foz é o local da sua última morada, cidade onde foi sepultado no passado dia 17 de março, tendo falecido dois dias antes, após doença prolongada que o levou a um internamento na Unidade de Cuidados Continuados da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo.
Zé Penicheiro nasceu em Candosa, no ano de 1921, onde foi batizado, sendo filho de José Maria Penicheiro e de Maria de Nazaré Simões, ambos da Figueira da Foz, que haviam migrado para aquela aldeia do concelho de Tábua. Três anos mais tarde, regressam à Figueira da Foz, cidade onde frequentou a escola primária e onde obteve o seu único diploma escolar. Em 1931, e apesar dos parcos recursos familiares, ingressou no colégio “Academia Figueirense”, tendo ficado isento do pagamento de propinas pelo facto do seu pai ter combatido em França durante a Primeira Guerra Mundial. Mesmo assim, teve de abandonar os estudos para ingressar no mundo laboral, passando então a estudar à noite, na Escola Comercial e Industrial da Figueira da Foz, não concluindo o curso porque passava as aulas a caricaturar professores e alunos.
Essa apetência pelo desenho e pela caricatura levou-o, a partir de 1939, a colaborar com a imprensa local e regional como ilustrador, tendo criado a primeira coleção de postais editada pelo Turismo da Figueira da Foz, retratando figuras tradicionais da região, passando também a colaborar coletividades locais.
Em 1942 cumpre o serviço militar em Coimbra, aproveitando os seus tempos livres para fazer caricaturas dos alunos quartanistas da universidade coimbrã, e para colaborar no jornal humorístico “O Palhinhas”.
Três anos depois, regressou à Figueira da Foz, tendo trabalhado em escritórios, conciliando o emprego com o desenho. Nesse ano, enviou alguns desenhos de humor para o jornal portuense “O Primeiro de Janeiro”, que lhe pagou 50 escudos, facto que o entusiasmou a prosseguir com a caricatura, tendo sido o primeiro cartoonista do jornal desportivo “A Bola”, publicando também trabalhos em jornais como “O Sempre Fixe”, “Os Ridículos” e a “Bomba”.
No ano de 1948 criou bonecos em madeira, inspirados em figuras populares, a que deu o nome de “caricaturas em volume”, as quais atingem grande sucesso na exposição realizada no ano seguinte, no Casino Peninsular, na Figueira da Foz. Esse sucesso levou-o a expor em Lisboa, no ano de 1950. No entanto, uma das suas caricaturas aí expostas foi apreendida pela PIDE.
Em 1951, Zé Penicheiro executou um painel para o Teatro Municipal do Funchal, tendo criado laços de amizade com os cantores Max, Amália Rodrigues e João Vilaret.
Após uma breve passagem por Lisboa, o artista foi convidado para trabalhar como publicitário numa empresa de Ovar, terra onde fixou residência no ano de 1962. Aí desenvolve uma intensa atividade cultural, dinamizando tertúlias e o cortejo carnavalesco, sendo autor de inúmeros carros alegóricos. Passou a colaborar com o jornal aveirense “Litoral” e com o suplemento literário “A Companha”. A paisagem lagunar da Ria de Aveiro foi fonte de inspiração para as suas primeiras incursões pela pintura, não abandonando, no entanto, o desenho e as “caricaturas em relevo”. Em 1957 expôs no Coliseu do Porto e, dois anos mais tarde, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa.
No ano de 1958 pintou o enorme mural que se encontra nas arruinadas instalações da empresa Vitasal, em Aveiro. Passou a residir nesta cidade no ano de 1969, tendo criado, em 1971, a Galeria Convés, primeira galeria de arte a surgir em Aveiro. Foi um dos fundadores do Grupo Aveiro Arte e promoveu a primeira exposição de rua, intitulada “Arte ao Ar Livre”. Em 1973, criou o logotipo do Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro, e executou uma série de cartoons com figuras típicas, adquiridos pela Câmara Municipal de Aveiro.
A partir de 1977 passou a dedicar-se em exclusivo à pintura, abandonando a publicidade e a decoração. Dois anos depois, regressou novamente à Figueira da Foz. Em 1983 inaugurou na sua casa na Praia de Quiaios uma minigaleria de arte.

Painel que Zé Penicheiro concebeu para a Universidade de Aveiro
Painel que Zé Penicheiro concebeu para a Universidade de Aveiro

A par da pintura, Zé Penicheiro criou algumas obras públicas, nomeadamente esculturas e, sobretudo, painéis cerâmicos, como o enorme painel de azulejos que criou para comemorar os 30 anos da Universidade de Aveiro, que se encontra instalado frente ao edifício da Reitoria.

Cardoso Ferreira

Reconhecimento público do artista

Zé Penicheiro teve o prazer de ver a a sua arte ser reconhecida pelas mais diversas entidades, nomeadamente a Figueira da Foz. Esta cidade não só lhe outorgou a Medalha de Mérito como também deu o seu nome à galeria de exposições do Centro de Artes e Espetáculos.
Também outros municípios o homenagearam, como aconteceu com Tábua e Ovar, que lhe atribuíram as respetivas medalhas de ouro, tendo também recebido a medalha da cidade de Santarém.
Foi convidado a expor em diversos países, com destaque para Alemanha, Canadá, França, Espanha e Luxemburgo. Em Portugal, expôs praticamente em todas as grandes galerias públicas e privadas, um pouco por todo o país.

O autodidata que se tornou mestre


Zé Penicheiro assumia-se como um autodidata e um verdadeiro amante da arte.
Por onde foi passando, deixou sempre um rasto de saudade e de amizade, já que não se limitava a expor o seu trabalho, mas tinha o gosto de conversas com os visitantes. A par disso, foi um cultivador de tertúlias, não só sobre pintura, mas também de poesia, literatura e música, de que foi exemplo a Galeria Convés, situada junto à Praça do Peixe, em Aveiro.
Nessa pequena galeria, que era também estúdio/ atelier, Zé Penicheiro teve alguns então jovens discípulos aveirenses e que hoje são artistas consagrados.

Aversão às notícias “com sangue”


Zé Penicheiro gostava demais da vida e detestava notícias sensacionalistas sobre crimes, mortes e acidentes, como certo dia nos confidenciou ao dizer: “Quando olho para a primeira página de um jornal e vejo grandes destaques a noticias como sangue, sejam crimes ou acidentes, o jornal vai direitinho para o cesto do lixo sem ser aberto. Nem sequer o leio”.
Há cerca de uma década, quando dessa nossa conversa, Zé Penicheiro elogiou a linha editorial do “Correio do Vouga”, especialmente por não seguir o sensacionalismo noticioso e por dar relevo à cultura e aos artistas locais.