Papa afirma Igreja como «realidade humana e ao mesmo tempo divina»

Constituição dogmática Lumen Gentium no centro da reflexão de Leão XIV.

O Papa voltou hoje à tradicionais catequeses das quartas-feiras, depois dos exercícios espirituais da quaresma e afirmou que a igreja é  “uma realidade complexa”, pois resulta de “uma união ordenada de diferentes aspetos ou dimensões, no seio de uma única realidade”.

“A Igreja é um organismo bem articulado, no qual coexistem a dimensão humana e a dimensão divina, sem separação nem confusão”, disse.

Aos fiéis o Papa reiterou a ideia de que “a Igreja é uma comunidade de homens e mulheres que partilham a alegria e o esforço de ser cristãos, com as suas qualidades e os seus defeitos, anunciando o Evangelho e tornando-se sinal da presença de Cristo”, mas que “esta dimensão visível não é suficiente para explicar plenamente a sua natureza”.

“A Igreja possui também uma dimensão divina”, disse, acrescentando que esta não se traduz numa perfeição ideal dos seus membros, mas no facto de “ser gerada pelo desígnio de amor de Deus para a humanidade, realizado em Cristo”.

Por isso, continuou o Papa, a Igreja deve ser compreendida simultaneamente como “comunidade terrena e ao mesmo tempo corpo místico de Cristo, assembleia visível e mistério espiritual, realidade presente na história e povo peregrino rumo ao céu”.

O pontífice explicou que estas duas dimensões “integram-se harmoniosamente, sem que uma se sobreponha à outra”, razão pela qual “a Igreja vive neste paradoxo: é uma realidade humana e ao mesmo tempo divina que acolhe o homem pecador, conduzindo-o a Deus”.

Para ajudar a compreender esta realidade, o Papa recorreu à própria vida de Jesus. Quem encontrava Cristo, recordou, experimentava a sua humanidade concreta — “os seus olhos, as suas mãos, o som da sua voz” — mas, ao mesmo tempo, através dessa humanidade tornava-se possível o encontro com Deus. “A carne de Cristo, o seu rosto, os seus gestos e as suas palavras manifestam de modo visível o Deus invisível”, afirmou.

À luz desta experiência, acrescentou Leão XIV, também a Igreja manifesta esta dinâmica. “Quando olhamos de perto para ela, descobrimos uma dimensão humana feita de pessoas concretas, que às vezes manifestam a beleza do Evangelho, e outras esforçam-se e erram como todos”, disse, sublinhando, contudo, que “precisamente através dos seus membros e dos seus limitados aspetos terrenos manifestam-se a presença de Cristo e a sua ação salvífica”.

Citando Bento XVI, o Papa recordou que “não há oposição entre Evangelho e instituição”, uma vez que as estruturas da Igreja servem para “a realização e a concretização do Evangelho no nosso tempo”.

Neste sentido, afirmou que “não existe uma Igreja ideal e pura, separada da terra, mas apenas a única Igreja de Cristo, encarnada na história”.

Segundo o pontífice, é precisamente nesta realidade que reside a santidade da Igreja: “Cristo habita nela e continua a doar-se através da pequenez e fragilidade dos seus membros”.

Leão XIV acrescentou que esta realidade revela também o modo de agir de Deus. “Contemplando este milagre perene, compreendemos o método de Deus: Ele torna-se visível através da debilidade das criaturas, continuando a manifestar-se e a agir.”

Recordando a exortação apostólica Evangelii Gaudium, de Papa Francisco, o pontífice apelou ainda a uma atitude de respeito e humildade nas relações humanas. “Todos aprendam a tirar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro”, citou.

Por fim, o Papa destacou que a edificação da Igreja passa sobretudo pela caridade e pela comunhão entre os fiéis. Citando Santo Agostinho, concluiu: “Queira o céu que todos prestem atenção unicamente à caridade: sim, só ela vence tudo”.

Educris|05.03.202

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