Mai 8, 2013 | Documentos
Foi na doca Pier 21 em Halifax, no dia 13 de maio de 1953, que o «Saturnia» atracou, desembarcando os primeiros 218 imigrantes portugueses, com os respetivos vistos de trabalho, muitos deles provenientes dos Açores, madeirenses e alguns do continente. “(Os portugueses) … …Foram ficando em várias regiões do Canadá, para trabalhar principalmente em áreas como a agricultura e construção de caminhos de ferro”, disse à Lusa Joe Estáquio, presidente da ACAPO, entidade que reúne 43 associações portuguesas da província do Ontário, promotora das comemorações. A programação começa a 11 de maio, com uma Gala de homenagem aos pioneiros da emigração portuguesa para o país, em que já estão confirmadas as presenças do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, do ministro das Finanças do Ontário, o luso-canadiano Charles Sousa, entre outras entidades oficiais que vão estar representadas. No dia 12 de maio, decorrerá uma homenagem no «Monumento aos Pioneiros» no High Park, inaugurado em 1978, quando se comemoraram 25 anos da emigração portuguesa), e ainda nesse dia, haverá uma missa em honra dos emigrantes pioneiros, na Igreja de Santa Maria, a primeira portuguesa no Canadá. Em colaboração com o Consulado Geral de Portugal em Toronto, está também programada uma exposição de fotografias, que vai ser inaugurada a 13 de maio, na Câmara Municipal de Toronto, e estará patente durante um mês. As comemorações prolongam-se até julho e englobam as celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a 10 de junho. Apesar de a emigração ter começado há 60 anos, há registos que provam que os portugueses já passaram pelo Canadá há mais de 500 anos, e a prová-lo está o monumento em St. John’s, na Terra Nova, que homenageia os pescadores de bacalhau que por ali estiveram há meio século. O monumento foi inaugurado em 2001 pelo Presidente da República na altura, Jorge Sampaio. António Sousa trocou “a caneta” por “uma pá e picareta” António Sousa foi um dos “pioneiros” portugueses no Canadá. Sessenta anos depois de ter chegado ao país confessa que o que mais lhe custou foi ter de deixar “a caneta” para pegar “na pá e na picareta”. “Após 40 anos de ditadura de Salazar, ainda fui acusado de ser comunista por isso decidi aventurar-me”, começou por explicar à agência Lusa o empresário de 87 anos. Viajou no navio Saturnia, que chegou ao porto de Halifax a 13 de maio de 1953 e era um dos 218 emigrantes, com os respetivos vistos autorizados por ambos os governos. António Sousa deixava para trás a Nazaré natal e a vida de estudante para “meter mãos à obra”. Daí a metáfora de que trocou “a caneta e o lápis” em Portugal por “uma pá e picareta” no Canadá. Estudante do curso comercial da Escola Bordal Pinheiro das Caldas da Raínha, recorda que não foi difícil arranjar trabalho. Após ter feito o pedido de visto, com a ajuda de um amigo em Montreal, um dia após chegar ao continente americano, arranjou trabalho na província do Labrador, como “ajudante de cozinha”. Com o lema “se tens doze, não gastes dez”, nove meses depois chegou à conclusão que Toronto, a atual “capital” económica canadiana, seria o “local ideal” para se implantar. “Quando cheguei a Toronto, tinha dinheiro suficiente para comprar uma casa, mas só me vendiam se comprasse três, o que teve de ser”, recorda. Em Toronto, abriu o primeiro restaurante português, começou a importar produtos de Portugal e da Europa, fundou a primeira coletividade portuguesa, o «First Portuguese», e também criou o Rancho Folclórico da Nazaré, em 1956. “A educação é a nossa arma”, foi a mensagem que quis transmitir aos seus filhos, Júlio e Charles, que optaram por áreas diferentes em termos profissionais, o primeiro, pela educação, é professor, o segundo, pela economia, é hoje ministro das Finanças do governo do Ontário. “Eles são ótimos trabalhadores e estudantes, pois ensinei-lhes que quando se trabalha com dedicação, com o coração, com força, nunca se perde”, explicou, acrescentando que “quando não se faz algo bem, aprende-se, para que, na próxima vez, se faça de maneira diferente”. «Quem respeita é respeitado», e «nunca semeies cardos à espera de colher rosas», são filosofias de vida que diz ter passado para os seus filhos. O seu pensamento no “amanhã” está sempre presente. Com seis netos, o “pioneiro” decidiu abrir uma conta bancária para que eles possam frequentar a universidade com tranquilidade, tendo o futuro garantido. António Sousa diz que aquela geração que chegou à América em 1953 “contribuiu para o desenvolvimento da imigração dos portugueses no Canadá”. “Somos iguais a todas as outras comunidades, mas individualmente somos diferentes” considera. Na altura, os portugueses “eram muitos respeitados, quer pelas entidades oficiais, quer, por exemplo, próprios bancos”. Hoje, diz, os portugueses continuam por isso a ser respeitados, mas há exceções. Porque “nem todos são iguais”, conclui.
http://www.mundoportugues.org/content/1/11309/comunidade-celebra-anos-emigracao-para-canada/
Jan 17, 2013 | Documentos
O direito a emigrar e a não emigrar foi debatido por cerca de 70 participantes no XIII encontro de animadores sóciopastorais das Migrações, que decorreu em Fátima entre os dias 11 e 13 de Janeiro de 2013. Das intervenções dos conferencistas e das reacções que mereceram ao longo de todo o encontro por parte dos participantes resulta um conjunto de constatações e desafios que agora se assumem: As convenções internacionais, nomeadamente da ONU, não salvaguardam o direito a emigrar e a não emigrar, apenas o direito a sair e a regressar à própria terra. No trabalho de intervenção na opinião pública, os agentes sóciopastorais das migrações têm ser portadores da certeza do Papa Bento XVI, afirmada na Mensagem para o Dia do Migrante e Refugiado: “Antes do direito a emigrar há que reafirmar o direito a não emigrar, isto é, a ter condições para permanecer na própria terra”. Após duas décadas de crescente imigração, Portugal conhece agora um novo período de grande emigração, estando muitos portugueses a procurar trabalho além-fronteiras. Diante deste como de outros fenómenos que provocam a mobilidade humana, é necessário conhecer as circunstâncias, as motivações e as causas que levam muitos concidadãos a optarem ou a se verem obrigados a abandonar a própria terra. A ausência prolongada de emprego ou a incapacidade de cumprir obrigações financeiras, entretanto assumidas, leva muitos cidadãos e emigrar. E já há quem volte e emigrar “a salto” ou sem informações seguras acerca do que encontra no país de destino. Mesmo “desamparados na sua terra” os portugueses não podem cair em situações de “desgraça em terra alheia”, o que exige mais atenção e acompanhamento, novos esforços de divulgação de passos a dar antes de sair do país de origem, numa articulação de instituições públicas e civis, tanto nos países de partida como de chegada. A emigração qualificada é uma marca dos fluxos migratórios em crescimento na actualidade, o que pode constituir uma oportunidade sobretudo para as novas gerações após a conclusão dos cursos superiores. Apesar de parecer inevitável, a fuga de cidadãos qualificados deve sobretudo dar lugar à troca de pessoas com qualificações, valorizando projetos já existentes em Portugal e criando condições para o surgimento de outros onde se possam “alojar” qualificações nacionais e de outros países, oferecendo sempre a possibilidade de permanência na própria terra a todos os cidadãos. A Europa é um continente de grande mobilidade interna e também procurada por pessoas de países extracomunitários que não são predominantemente as mais pobres, antes as mais ousadas e capazes de derrubar fortalezas burocráticas que se erguem cada vez mais no Continente. Tendo presente que as pessoas em mobilidade humana são muito mais do que as reveladas por dados estatísticos, os agentes sócio-pastorais das migrações devem trabalhar na igual defesa da dignidade humana de todos os cidadãos, independentemente do país de origem e da situação legal em que se encontrem. A crescente mobilidade humana revela com realismo as circunstâncias pessoais e sociais de cada país e exige uma reflexão desapaixonada sobre as migrações em ordem a uma ação social e pastoral de acordo com um plano que tenha em conta a realidade de cada contexto social. Os participantes no XIII Encontro de Agentes Sóciopastorais das Migrações propõem à Conferência Episcopal Portuguesa a elaboração de um documento de referência sobre o pensamento da Igreja sobre a mobilidade humana. Atenta à chegada de imigrantes a Portugal nas duas décadas da viragem de século, quando foram criadas estruturas e desenvolvidos projetos de formação de agentes de apoio à imigração, a Igreja Católica e os seus responsáveis deparam-se agora com a necessidade de responder às ajudas pedidas pelo número crescente de portugueses que sai de Portugal e se fixa num qualquer país de destino da emigração, sobretudo na Europa. Os agentes sócio-pastorais das migrações, afirmam que o acolhimento é o primeiro passo para evangelizar e para proporcionar dignidade de vida a quem emigra. Após a reflexão neste XIII Encontro, desejam comprometer-se pessoalmente com o apoio efectivo a quem parte e às famílias que eventualmente permanecem em Portugal, querem criar disponibilidades nas estruturas eclesiais onde trabalham para o apoio à emigração e pretendem sensibilizar os responsáveis da Igreja Católica em Portugal para enviarem sacerdotes ou líderes de comunidades para trabalharem com generosidade nas Missões Católicas das Comunidades Portuguesas. O XIII Encontro de Animadores Sóciopastorais das Migrações contou com a presença de familiares de Aristides Sousa Mendes, que apresentaram um documentário sobre a vida do cônsul de Bordéus e o seu papel no salvamento de mais de 30 mil vidas durante a II Grande Guerra. Os participantes neste encontro tomaram maior conhecimento do exemplo deste Grande Português e fazem votos de que a sua memória permaneça para as gerações vindouras, nomeadamente pela possibilidade de recuperação da sua casa na terra natal. O Ex.mo Rev.mo Senhor D. Amândio Tomás, Vogal da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, participou nos trabalhos deste Encontro e presidiu à Eucaristia do 99º Dia Mundial do Migrante e Refugiado, na Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima. No encerramento do encontro, os participantes congratularam-se com a celebração dos 50 anos da Obra Católica Portuguesa das Migrações, assinalados ao longo do último ano.
Jan 16, 2013 | Documentos
Fátima, Santarém, 11 jan 2013 (Ecclesia) – O padre Rui Pedro, especialista no trabalho com comunidades migrantes, considera que Portugal mostrou um país falso durante a década de 90, atraindo muitos imigrantes enquanto o interior estava em crescente desertificação. Ao apresentar o tema “Direito a e a não emigrar”, em debate no Encontro Agentes Sócio-pastorais das Migrações, que decorre até este domingo em Fátima, o sacerdote católico referiu que é necessário conhecer as causas das migrações, questionando não apenas o que leva muitos portugueses emigrarem, mas também as razões que motivaram a chegada a Portugal de muitos ucranianos e brasileiros, por exemplo. Para o padre Rui Pedro, com a ‘Expo 98’ Portugal mostrou-se ao mundo como um “um país em construção, a fazer autoestradas, fazer uma nova ponte, a construir estádios, um país em grande progresso e modernização”, o que não correspondia ao “país real”. O missionário scalabriniano – congregação religiosa que tem por missão a pastoral com os migrantes – sustenta que o país real está “na desertificação do interior”, no “êxodo para o litoral” e consequente concentração urbana, de onde agora partem também portugueses para a emigração. Nos períodos em que recebia muitos imigrantes, Portugal “distraiu-se” e não se apercebeu da saída contínua de muitos cidadãos para a emigração, refere. “Não esqueçamos que por cada imigrante que está em Portugal há 10 emigrantes portugueses lá fora”, recordou o padre Rui Pedro. Perante do crescimento da emigração, o religioso defende que é necessário “voltar a pensar nas questões ligadas às causas da emigração”, como acontecia nas décadas de 70 e 80 após Portugal ter conhecido um grande êxodo de trabalhadores e suas famílias. O padre Rui Pedro, diretor da Obra Católica Portuguesa das Migrações entre o ano 2000 e 2007, considera que tanto as estruturas governamentais como as da Igreja Católica devem investir no conhecimento do crescente fenómeno da emigração, como aconteceu com a sensibilização para o acolhimento dos imigrantes nos últimos 15 anos. Neste âmbito, lamentou o facto de não existir um “documento de referência” com o “pensamento da Conferência Episcopal Portuguesa sobre as migrações”, referindo também que a Igreja Católica em Portugal sempre foi “mais prática do que reflexiva” neste setor, como o mostram muitas estruturas de apoio aos migrantes. O responsável defendeu a necessidade de ser feito um “plano pastoral das migrações”, ultrapassando algumas resistências a um tema “fraturante e muito difícil” porque as organizações e os emigrantes “querem saber qual o pensamento da Igreja” sobre esta problemática. O Encontro de Agentes Sócio-pastorais das Migrações, promovido pela Obra Católica Portuguesa de Migrações em parceria com a Cáritas Portuguesa e a Agência ECCLESIA, comemora em Portugal o 99.º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que a Igreja Católica assinala este domingo. Na mensagem que escreveu para este dia, Bento XVI afirma que “antes do direito a emigrar há que reafirmar o direito a não emigrar, isto é, a ter condições para permanecer na própria terra”. PR/OC
Jan 8, 2013 | Documentos
Queridos irmãos e irmãs!
Na Constituição pastoral Gaudium et spes, o Concílio Ecuménico Vaticano II recordou que «a Igreja caminha juntamente com toda a humanidade» (n. 40), pelo que «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração» (ibid., 1). Na linha destas afirmações, o Servo de Deus Paulo VI designou a Igreja como sendo «perita em humanidade» (Enc. Populorum progressio, 13), e o Beato João Paulo II escreveu que a pessoa humana é «o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer na realização da sua missão (…), caminho traçado pelo próprio Cristo» (Enc. Centesimus annus, 53). Na esteira dos meus Predecessores, quis especificar –na Encíclica Caritas in veritate – que «a Igreja inteira, em todo o seu ser e agir, quando anuncia, celebra e atua na caridade, tende a promover o desenvolvimento integral do homem» (n. 11), referindo-me também aos milhões de homens e mulheres que, por diversas razões, vivem a experiência da emigração. Na verdade, os fluxos migratórios são «um fenómeno impressionante pela quantidade de pessoas envolvidas, pelas problemáticas sociais, económicas, políticas, culturais e religiosas que levanta, pelos desafios dramáticos que coloca à comunidade nacional e internacional» (ibid., 62), porque «todo o migrante é uma pessoa humana e, enquanto tal, possui direitos fundamentais inalienáveis que hão-de ser respeitados por todos em qualquer situação» (ibidem).
Neste contexto, em concomitância com as celebrações do cinquentenário da abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II e do sexagésimo aniversário da promulgação da Constituição apostólica Exsul familia e quando toda a Igreja está comprometida na vivência do Ano da Fé abraçando com entusiasmo o desafio da nova evangelização, quis dedicar a Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado de 2013 ao tema «Migrações: peregrinação de fé e de esperança». Na realidade, fé e esperança formam um binómio indivisível no coração de muitos migrantes, dado que neles existe o desejo de uma vida melhor, frequentemente unido ao intento de ultrapassar o «desespero» de um futuro impossível de construir. Ao mesmo tempo, muitos encetam a viagem animados por uma profunda confiança de que Deus não abandona as suas criaturas e de que tal conforto torna mais suportáveis as feridas do desenraizamento e da separação, talvez com a recôndita esperança de um futuro regresso à terra de origem. Por isso, fé e esperança enchem muitas vezes a bagagem daqueles que emigram, cientes de que, com elas, «podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho» (Enc. Spe salvi, 1).
No vasto campo das migrações, a solicitude materna da Igreja estende-se em diversas direções. Por um lado a sua solicitude contempla as migrações sob o perfil dominante da pobreza e do sofrimento que muitas vezes produz dramas e tragédias, intervindo lá com ações concretas de socorro que visam resolver as numerosas emergências, graças à generosa dedicação de indivíduos e de grupos, associações de voluntariado e movimentos, organismos paroquiais e diocesanos, em colaboração com todas as pessoas de boa vontade. E, por outro, a Igreja não deixa de evidenciar também os aspetos positivos, as potencialidades de bem e os recursos de que as migrações são portadoras; e, nesta direção, ganham corpo as intervenções de acolhimento que favorecem e acompanham uma inserção integral dos migrantes, requerentes de asilo e refugiados no novo contexto sociocultural, sem descuidar a dimensão religiosa, essencial para a vida de cada pessoa. Ora a Igreja, pela própria missão que lhe foi confiada por Cristo, é chamada a prestar particular atenção e solicitude precisamente a esta dimensão: ela constitui o seu dever mais importante e específico. Visto que os fiéis cristãos provêm das várias partes do mundo, a solicitude pela dimensão religiosa engloba também o diálogo ecuménico e a atenção às novas comunidades; ao passo que, para os fiéis católicos, se traduz, entre outras coisas, na criação de novas estruturas pastorais e na valorização dos diversos ritos, até se chegar à plena participação na vida da comunidade eclesial local. Entretanto, a promoção humana caminha lado a lado com a comunhão espiritual, que abre os caminhos «a uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo» (Carta ap. Porta fidei, 6). É sempre um dom precioso tudo aquilo que a Igreja proporciona visando conduzir ao encontro de Cristo, que abre para uma esperança sólida e credível. A Igreja e as diversas realidades que nela se inspiram são chamadas a evitar o risco do mero assistencialismo na sua relação com os migrantes e refugiados, procurando favorecer a autêntica integração numa sociedade onde todos sejam membros ativos e responsáveis pelo bem-estar do outro, prestando generosamente as suas contribuições originais, com pleno direito de cidadania e participação nos mesmos direitos e deveres.
Aqueles que emigram trazem consigo sentimentos de confiança e de esperança que animam e alentam a procura de melhores oportunidades de vida; mas eles não procuram apenas a melhoria da sua condição económica, social ou política. É verdade que a viagem migratória muitas vezes inicia com o medo, sobretudo quando perseguições e violências obrigam a fugir, com o trauma de abandonar os familiares e os bens que, em certa medida, asseguravam a sobrevivência; e, todavia, o sofrimento, as enormes perdas e às vezes um sentido de alienação diante do futuro incerto não destroem o sonho de reconstruir, com esperança e coragem, a vida num país estrangeiro. Na verdade, aqueles que emigram nutrem a confiança de encontrar acolhimento, obter ajuda solidária e entrar em contacto com pessoas que, compreendendo as contrariedades e a tragédia dos seus semelhantes e também reconhecendo os valores e recursos de que eles são portadores, estejam dispostas a compartilhar humanidade e bens materiais com quem é necessitado e desfavorecido. Na realidade, é preciso reafirmar que «a solidariedade universal é para nós um facto e um benefício, mas também um dever» (Enc. Caritas in veritate, 43). E assim, a par das dificuldades, os migrantes e refugiados podem experimentar também relações novas e hospitaleiras que os encorajem a contribuir para o bem-estar dos países de chegada com suas competências profissionais, o seu património sociocultural e também com o seu testemunho de fé, que muitas vezes dá impulso às comunidades de antiga tradição cristã, encoraja a encontrar Cristo e convida a conhecer a Igreja. É verdade que cada Estado tem o direito de regular os fluxos migratórios e implementar políticas ditadas pelas exigências gerais do bem comum, mas assegurando sempre o respeito pela dignidade de cada pessoa. O direito que a pessoa tem de emigrar – como recorda o número 65 da Constituição conciliar Gaudium et spes – conta-se entre os direitos humanos fundamentais, com faculdade de cada um se estabelecer onde crê mais oportuno para uma melhor realização das suas capacidades e aspirações e dos seus projetos.
No contexto sociopolítico atual, porém, ainda antes do direito a emigrar há que reafirmar o direito a não emigrar, isto é, a ter condições para permanecer na própria terra, podendo repetir, com o Beato João Paulo II, que «o direito primeiro do homem é viver na própria pátria. Este direito, entretanto, só se torna efetivo se se têm sob controle os fatores que impelem à emigração (Discurso ao IV Congresso Mundial das Migrações, 9 de Outubro de 1998). De facto, hoje vemos que muitas migrações são consequência da precariedade económica, da carência dos bens essenciais, de calamidades naturais, de guerras e desordens sociais. Então emigrar, em vez de uma peregrinação animada pela confiança, pela fé e a esperança, torna-se um «calvário» de sobrevivência, onde homens e mulheres resultam mais vítimas do que autores e responsáveis das suas vicissitudes de migrante. Assim, enquanto há migrantes que alcançam uma boa posição e vivem com dignidade e adequada integração num ambiente de acolhimento, existem muitos outros que vivem em condições de marginalidade e, por vezes, de exploração e privação dos direitos humanos fundamentais, ou atéassumem comportamentos danosos para a sociedade onde vivem. O caminho da integração compreende direitos e deveres, solicitude e cuidado pelos migrantes para que levem uma vida decorosa, mas supõe também a atenção dos migrantes aos valores que lhes proporciona a sociedade onde se inserem. A este respeito, não podemos esquecer a questão da imigração ilegal, que se torna ainda mais impelente nos casos em que esta se configura como tráfico e exploração de pessoas, com maior risco para as mulheres e crianças. Tais delitos hão-de ser decididamente condenados e punidos, ao mesmo tempo que uma gestão regulamentada dos fluxos migratórios – que não se reduza ao encerramento hermético das fronteiras, ao agravamento das sanções contra os ilegais e à adoção de medidas que desencorajem novos ingressos – poderia pelo menos limitar o perigo de muitos migrantes acabarem vítimas dos referidos tráficos. Na verdade, hoje mais do que nunca são oportunas intervenções orgânicas e multilaterais para o desenvolvimento dos países de origem, medidas eficazes para erradicar o tráfico de pessoas, programas orgânicos dos fluxos de entrada legal, maior disponibilidade para considerar os casos individuais que requerem intervenções de proteção humanitária bem como de asilo político. As normativas adequadas devem estar associadas com uma paciente e constante ação de formação da mentalidade e das consciências. Em tudo isto, é importante reforçar e desenvolver as relações de bom entendimento e cooperação entre realidades eclesiais e institucionais que estão ao serviço do desenvolvimento integral da pessoa humana. Na perspetiva cristã, o compromisso social e humanitário recebe força da fidelidade ao Evangelho, com a consciência de que «aquele que segue Cristo, o homem perfeito, torna-se mais homem» (Gaudium et spes, 41).
Queridos irmãos e irmãs migrantes, oxalá esta Jornada Mundial vos ajude a renovar a confiança e a esperança no Senhor, que está sempre junto de vós! Não percais ocasião de encontrá-Lo e reconhecer o seu rosto nos gestos de bondade que recebeis ao longo da vossa peregrinação de migrantes. Alegrai-vos porque o Senhor está ao vosso lado e, com Ele, podereis superar obstáculos e dificuldades, valorizando os testemunhos de abertura e acolhimento que muitos vos oferecem. Na verdade, «a vida é como uma viagem no mar da história, com frequência enevoada e tempestuosa, uma viagem na qual perscrutamos os astros que nos indicam a rota. As verdadeiras estrelas da nossa vida são as pessoas que souberam viver com retidão. Elas são luzes de esperança. Certamente, Jesus Cristo é a luz por antonomásia, o sol erguido sobre todas as trevas da história. Mas, para chegar até Ele, precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que dão luz recebida da luz d’Ele e oferecem, assim, orientação para a nossa travessia» (Enc. Spe salvi, 49). Confio cada um de vós à Bem-aventurada Virgem Maria, sinal de consolação e segura esperança, «estrela do caminho», que nos acompanha com a sua materna presença em cada momento da vida, e, com afeto, a todos concedo a Bênção Apostólica.
Vaticano, 12 de Outubro de 2012.
BENEDICTUS PP. XVI
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Nov 6, 2012 | Documentos
Fátima, Santarém, 05 nov 2012 (Ecclesia) – A Igreja Católica e o Governo português querem potenciar ao máximo a integração dos emigrantes nacionais no estrangeiro, considerados como fundamentais para a revitalização financeira do país. Esta decisão foi anunciada no final de um encontro de agentes socioculturais que trabalham nas comunidades portuguesas, dentro e fora da Europa, e que decorreu entre sexta-feira e domingo, em Fátima. A Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, a Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM) e a Cáritas, organizadoras do evento, consideram que “a diáspora deveria ser mais utilizada na promoção de Portugal do ponto de vista económico”, uma vez que pode “abrir portas a um investimento em novos mercados”. No entanto, acrescentam, para que isso aconteça é preciso assegurar primeiro a adequada “integração” dos emigrantes lusos, sobretudo através da colaboração com as comunidades portuguesas que já estão radicadas há mais tempo nos países de destino. O “trabalho local desenvolvido pelas associações culturais deve ser privilegiado”, pela capacidade que têm de “responder às necessidades dos emigrantes portugueses”, sublinha o documento conclusivo do evento. Os promotores do encontro recordam que desde “o final do ano passado” saíram de Portugal “cerca de 150 mil portugueses”, muitos deles com “falta de conhecimentos” e de “preparação” para enfrentarem os obstáculos que encontraram nos países de destino, quer em termos da busca de “oportunidades de trabalho” quer na “adaptação” a uma nova língua e a diferentes “culturas e hábitos sociais”. Neste contexto, o “movimento associativo” pode funcionar como primeira “rede de integração”, desde que lhe seja dado “um novo enquadramento que melhore o seu funcionamento” e permita “ultrapassar dificuldades não apenas financeiras mas também legais e de articulação com as estruturas e governos locais”. Para favorecer esse desenvolvimento, as organizações da Igreja e do Estado que lidam mais de perto com a questão da emigração propõem a construção de uma “plataforma de promotores socioculturais das comunidades portuguesas”. Uma entidade que teria como missão “abrir portas para novas formas de cooperação” dentro desta área e que, numa primeira fase, seria coordenada por responsáveis portugueses radicados na “Argentina, Brasil, Estados Unidos da América, Holanda, Suíça e Venezuela”, em conjunto com a Associação Mulher Migrante e a OCPM. Sugerem ainda o lançamento de uma “rede de partilha de informação e de experiências entre as comunidades emigrantes” através da internet e das redes sociais, a partir “da criação de um blogue e da dinamização de um grupo fechado no facebook”. A mensagem final do encontro de Fátima, que contou ainda com a participação de representantes portugueses da “África do Sul, Alemanha, Andorra, Bélgica, Canadá, França, Inglaterra, Luxemburgo e Macau”, chama também a atenção para “o isolamento e a solidão” a que estão sujeitos os emigrantes mais velhos. JCP
Out 30, 2012 | Documentos
"Antes mesmo do direito de emigrar, é necessário reafirmar o direito a não emigrar, isto é, o de ficar na sua própria terra", sublinhou Bento XVI na mensagem para preparar a Jornada dos migrantes e refugiados, que será celebrada em janeiro. O Papa recordou que "o direito da pessoa a emigrar está inscrito nos direitos humanos fundamentais" mas sublinhou a importância de ter "sob controlo os fatores que empurram para a emigração". Em vez de uma "peregrinação animada pela confiança, pela fé e pela esperança", "numerosas migrações são consequência da precariedade económica, da falta de bens essenciais, de catástrofes naturais, de guerras e de desordens sociais". "Migrar torna-se então um calvário para sobreviver, onde homens e mulheres aparecem mais como vítimas do que como atores e responsáveis da sua aventura migratória", observa o Papa. O Papa denuncia ainda as consequências de tais situações para alguns, afirmando que "muitos vivem condições de marginalização e, talvez, de exploração e de privação dos seus direitos humanos fundamentais, ou ainda adotam comportamentos prejudiciais para a sociedade no seio da qual vivem". Das suas deslocações, do Líbano ao México e a África, o Papa recorda a questão da emigração, considerando que destrói as famílias e enfraquece o tecido social. Foi assim que Bento XVI lançou em meados de setembro no Líbano um apelo aos cristãos do Médio Oriente para permanecerem, apesar dos conflitos e das dificuldades económicas.
Lusa