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O Acolhimento nasce de um olhar

O Acolhimento nasce de um olhar

PRAZER DE ACOLHER

Cada um de nós, eterno itinerante sedento de vida, já fez a maravilhosa experiência de ser bem acolhido por alguém – a pessoa amada, o amigo, um estranho – ou por um grupo ou instituição – a família, a igreja, uma repartição do Estado, o bairro.
Ha, de facto, pessoas simples que nos surpreendem muito, mesmo muito, com o seu genuíno e nobre modo de acolher nas suas vidas, na própria casa. Assim, não ha mais motivo para alguém se sentir estrangeiro! A comunicação torna-se natural: um porque acolhe e o outro porque é acolhido, ambos porque confiam!

 

DEVER DE ACOLHER

Os bispos portugueses, à luz da missão libertadora da Igreja numa “sociedade em crise de civilização”, decidiram finalmente, em palavra colegial, intervir no urgente debate público sobre a imigração, com a Nota de 13 de Junho de 2001. Apelam à boa pratica do acolhimento para com os imigrantes como caminho de integração e testemunho de caridade.
Na Nota Pastoral, os bispos além de elogiar e enaltecer a acção daquela minoria de gente que, desde a primeira hora tem estado ao lado dos imigrantes, e acolher algumas medidas positivos da recente legislação do Governo, passam a apresentar as suas reais preocupações quanto as dificuldades que os imigrantes estão a atravessar relativamente ao “estatuto de permanência”, ao “reagrupamento familiar” e a falta de condições para exercer os direitos proclamados e outros impedimentos que tem a ver com a regularização da situação laboral, causada pela corrupção vigente no sector da economia portuguesa.
Os bispos querem, com a sua palavra e acção, num Portugal e numa Europa em “processo de aceleração migratória”, incentivar as comunidades cristãs a trabalharem na “libertação” de imigrantes injustiçados pela “dependência esclavagista”, ilegalidade forçada e xenofobia através do acolhimento concreto, com estruturas idóneas e eficazes de favoreçam a inserção.
Seguem alguns pressupostos para bem acolher na comunidade.

 

ASSUMIR AS TENSÕES DA SITUAÇÃO

Acolher os imigrantes com as tensões e diversidade que habita a mobilidade humana.
A migração é um mundo muito complexo, às vezes demasiado intolerante, que exige conhecimento e estudo. E mundo cheio de histórias, muitas delas difíceis de narrar e outras mal contadas porque repletas de sofrimento familiar, indignidade e ilegalidade. Um fenómeno que exige distinto tratamento e diversidade no próprio acolher: os africanos que partilham connosco a língua, as feridas da colonização, e que estão melhor organizados em associações, e testemunham um processo de integração que já vai na segunda geração; as “minorias” asiáticas – chinesa, indiana, paquistanesa entre outras – que parecem quase invisíveis e das quais conhecemos bem pouco, e de algumas apenas a gastronomia; os brasileiros e sul-americanos, por quem nutrimos uma grande simpatia, que multiplicam a sua presença entre nós e são preferidos para a hotelaria e restauração; e os muito falados europeus de leste – da Ucrânia, Moldavos, Roménia, Rússia e Bulgária – , recém-chegados desconhecem a língua, ludibriados por redes e agências de recrutamento querem emancipar-se, e que alimentam as prementes necessidades de trabalho nas obras, desde o norte as ilhas do pais.
É preciso investir no conhecimento da diversidade de situações, mas a mesma meta: a convivência pacífica, integração no trabalho, na sociedade e na igreja, prevenção da xenofobia e racismo, corresponsabilizaçao nos deveres e direitos.
A IMIGRAÇÃO COMO DOM E UMA BÊNÇÃO

Acolher os imigrantes como excelente dom para a universalidade e bem de renovação da fraternidade
São dom que tem de ser acolhido com justiça e gratidão. Porém, em todos, há preconceitos a abater. Em nós: não ver no imigrante apenas o pobre a acolher ou a desfrutar, braços de trabalho a usar para proveito nacional, mas o cidadão embaixador a estimar, que é portador de uma nova cultura, língua, valores, dignidade e uma religiosidade à escala ecuménica que vem renovar e enriquecer o nosso modelo de estar no mundo. Uma pessoa que deixou a terra, porque anseia o mesmo que eu. São almas fortes, romances de amor, famílias que querem dar o melhor aos filhos, são o sonho de uma casa própria, a trágica luta contra a doença, o direito “roubado” de estudar e de um trabalho e salário justo. Urge criar na sociedade portuguesa uma consciência nova em relação à migração, no seu duplo movimento, entre as “duas rotas”.
ACOLHER PORQUE SOMOS ACOLHIDOS

Acolher os imigrantes aqui, com maior humanismo e justiça do que fomos e somos acolhidos no estrangeiro.
Todos dizem que temos uma grande experiência de povo emigrante, mas ao olhar para o modo como nos estamos movendo política e eclesialmente com os imigrantes fico com a impressão de que a secular experiência tarda a tornar-se política, sabedoria, pastoral, mentalidade?
É preciso implementar um maior diálogo com as igrejas de origem para reciproca informação, colaboração, acompanhamento espiritual, formação por forma a combater as causas da imigração e os intermediários sem escrúpulos. É preciso formar nas comunidades cristãs, sacerdotes e leigos preparados, para acolher bem através de um leque de iniciativas próprias em defesa da família, da saúde, da cultura, da língua, da legalidade e das vítimas do tráfico de pessoas.
Que nunca faltem aos imigrantes os capelães, os meios adequados, os espaços e horários dignos para que possam reunir-se livremente, celebrar o Deus da Paz, entre-ajudarem-se na formação da Fé e da cidadania.
Assim, fazendo descobriremos quanto os pobres nos podem evangelizar, quanto o Evangelho é fermento de fraternidade e, ao sentirmo-nos acolhidos por quem “peregrina”, nas suas histórias, nos seus apartamentos, nas suas terras um dia, compreenderemos a beleza do acolher bem, em nome de Jesus Cristo!

Rui Pedro
Milano, 8 de Julho de 2001