Que saber deveremos cultivar?

A propósito do Dia Internacional da Ciência e da Cultura e Dia Mundial da Filosofia «A ciência sem a religião é coxa, a religião sem a ciência é cega.»

Albert Einstein – Como vejo a ciência, a religião e o mundo.

«A Fé e a Razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade.»

João Paulo II – Fides et Ratio

A comemoração do Dia Internacional da Ciência e Cultura (11 de Novembro) e do Dia Mundial da Filosofia (15 de Novembro) é uma oportunidade extraordinária para se reflectir sobre o lugar e significado de Ciência e Cultura.

Vejamos o sentido que a raiz histórica de ambas as palavras nos reserva.

Na sua etimologia, isto é, olhando para a história das palavras, ciência é, antes de mais, referida à condição daquele que «sabe, conhece», do latim “scio”, num sentido que abrange toda a busca de compreensão do mundo e do que somos, antes de se referir à sua modificação e transformação. Este segundo sentido, instrumental, transformador, é uma derivação que começa a surgir a partir do século XVI, altura em que o homem renascentista não se basta em compreender, saber o que é o mundo, mas procura saber para modificar. É o que muitos designam como o espírito da «razão instru-mental», isto é, a atitude do homem que procura conhecer para instrumentalizar e transformar.

Pois bem, tal visão conduziu a uma quase identificação entre ciência e tecnologia que não é originária, nem historicamente, nem quanto à natureza da mesma ciência. Ainda que, hoje, se encontre muito difundida tal ideia – da referida identidade entre ciência e tecnologia – importa continuar a perceber que ambas não deveriam fundir-se, uma vez que desta fusão resultam consequências que teremos de compreender. Na verdade, a ciência foi, é e sempre deverá ser uma busca da verdade, não devendo visar a modificação, manipulação e instrumentalização do mundo. Ao reduzir-se a esta condição, a ciência perde e o próprio homem sofre. A ciência perde porque é, por natureza, uma busca de ir mais além, precisando de não depender de resultados mensuráveis para progredir. A redução da ciência à mensurabilidade, à verificação, afunilou o saber humano àquilo que podemos constatar e contabilizar. Pois bem, o mundo e a realidade humana são muito mais do que o pode ser medido e pesado. Aliás, as realidades mais significativas são, normalmente, avessas a esta mensurabilidade. Pense-se no que seria «pesar o amor»… Reduzindo a ciência à sua eficácia tecnológica redundaria num tremendo prejuízo para o próprio homem… Ora, esta redução da ciência à tecnologia, à produção, ao verificável, atingiu o seu auge numa corrente do século XIX – o positivismo – que pretendeu que todo o conhecimento verdadeiro se reduzisse ao que se pode verificar e medir. Fora desta condição de verificação e mensurabilidade, só havia erro, ignorância e obscurantismo.

Felizmente, tal visão foi sendo ultrapassada, logo a partir do interior dos positivistas, que se viram em becos sem saída, pois a sua presunção impedia-os de dizerem o que quer que fosse que não se submetesse a tal critério.

Foi esta uma das principais causas para que, no decurso do século XIX e XX, muitos cientistas, dependentes de tal compreensão, considerassem que o mundo do religioso estivesse excluído do mundo da ciência. Bem certo que, também da parte do mundo religioso, houve comportamentos e abordagens que favoreceram que se chegasse a tal conclusão, mas a história confirmou que entre ciência e religião não deveria haver conflito, antes enriquecedora complementaridade, na medida em que se constatou que a ciência precisava de regressar à sua liberdade do tecnologizante, sempre na busca da verdade, procurando decifrar “como” se processam os fenómenos naturais, e que a religião deveria continuar a responder à insaciável questão do “porquê” e “para quê” do homem e do mundo, questões a que a ciência, por si mesma, não está capaz de responder.

Ora, regressando à nossa tentativa inicial de compreender os termos da comemoração – ciência e cultura – interessa perceber que, ao falarmos da ciência e da busca do sentido, estamos, efectivamente, no âmago daquilo que, talvez sem nos apercebermos, designamos com o termo cultura. Na sua etimologia, esta palavra é um particípio futuro do verbo latino «Colo, is, ere», que quer dizer «cultivar, cuidar, ocupar-se de». Atendendo a este sentido íntimo da palavra de que tanto nos socorremos, ao falar de cultura estamos a referir-nos ao futuro do que hoje cultivamos, ou, ainda, àquilo de que nos ocuparemos no devir. A Cultura refere-se, assim, à permanência futura daquilo que, já hoje, estamos a construir, o que contraria uma ideia passadista do termo, como se se tratasse de uma mera preservação de memória. Muito mais do que isso, a cultura refere-se ao arco do tempo que se projecta no horizonte vindouro, o que, no estreito espaço deste texto, se une ao que anteriormente dizíamos, ao falar de ciência, pois esse horizonte sempre aberto é, para o saber humano, a verdade, hoje tão subsumida num relativismo que a pretende considerar como extinta, mas que aqui queremos vincar como condição de possibilidade quer da ciência, quer da cultura, como permanência diante da efemeridade do hoje.

Terminemos com uma última constatação: cultura e culto são os dois pés do arco do tempo, observado a partir do hoje, como muito bem se pode constatar da análise das duas palavras. Ambas são particípios do verbo «colo», a que acima nos referíamos: «culto» é particípio passado, «cultura» particípio futuro. Só o cultivado, o que foi cuidado, pode colher-se no futuro. Culto (religião) e cultura (expressa, de forma particular, na busca de compreensão do mundo, a que chamamos ciência) não podem andar de costas voltadas, sob pena de se provocar uma cisão no tempo e no interior do próprio homem.