Programas eleitorais Os programas dos partidos constituem a sua carta de credibilidade e o instrumento da sua acção política junto do eleitorado, a fim de o mobilizar para a ida às urnas, de lhe merecer a confiança e de conquistar o seu voto. São normalmente fruto de um projecto de sociedade, inspirado numa ideologia que lhes serve de matriz, e visam resolver os maiores problemas da comunidade nacional ou dar passos significativos nessa direcção. Manifestam, entre outras coisas, os objectivos a alcançar, as prioridades a atender e suas estratégias, os recursos a prover, os responsáveis a agir.
Assim sendo, vale a pena lançar “uma vista de olhos” sobre elementos emblemáticos que os partidos já deram a conhecer, sem esquecer as atitudes públicas que alguns dos seus responsáveis assumem, ainda que ocasionalmente.
“O senhor não tem o direito de falar nesta matéria” – repetiu várias vezes no final do debate televisivo um dirigente partidário ao seu adversário político. A matéria em causa era o direito à vida e a protecção da mulher grávida, defendida por este, perante a liberalização do aborto preconizada pelo primeiro. E argumentava: “Eu tenho uma filha, sei o que isso é”.
Destaco este facto pelo seu simbolismo: a recusa do direito de expressão, a redução da problemática em torno à gravidez, a apropriação da verdade identificada com a posição do partido, a insinuação perversa sobre a vida íntima do adversário, a irredutibilidade de posições, sem qualquer ponto de convergência perante um problema que deve preocupar todas as pessoas sérias. E como esta, a saúde, a justiça, a educação/ensino, etc.
Sem definição clara de áreas de convergência em prol do interesse nacional e correspondente mobilização de esforços humanos e materiais, sem apaziguamento dos espíritos na relação dialogante entre os protagonistas, sem recuperação da confiança da sociedade civil, sem uma verdadeira paixão por Portugal, enquanto País viável hoje, como o foi ao longo da sua história multi-secular, não se descortina solução digna da nossa condição humana, nem se reanima a esperança.
A divulgação dos núcleos centrais dos programas e do nome dos autores da sua elaboração e de membros responsáveis da sua execução, em caso de vitória eleitoral, é igualmente reveladora do cuidado e do engenho com que os partidos pretendem credibilizar as suas propostas. Este facto revela também a necessidade de superar o fosso crescente entre os eleitores e os eleitos, os cidadãos e os governantes. Daí, a importância acrescida dos candidatos fazerem uma campanha em que a pedagogia cívica se manifeste eficazmente, incluindo as eventuais picardias.
O realismo de propostas que não se ficam pelas promessas, mas prevêem os sacrifícios correspondentes da parte de todos, sobretudo dos que mais podem, deixa prever o exercício responsável de uma das funções do Estado, que não pode abdicar de intervir em matérias de justiça social – novo nome do bem comum, na feliz expressão de João Paulo II. Assim, a economia prestará um serviço apreciável e ajudará a vencer “o profundo abismo entre as aspirações da população e as capacidades para as satisfazer” – na acertada observação de um sociólogo e analista português.
Georgino Rocha
