
Segunda parte da entrevista a D. António Manuel Moiteiro Ramos, que no próximo domingo inicia o seu múnus pastoral na Diocese de Aveiro (primeira parte da entrevista na edição de 4 de setembro).
Correio do Vouga – O Sr. Bispo é um especialista em catequese ou pastoral catequética. Esta área vai merecer-lhe especial atenção?
D. António Moiteiro – A catequese é talvez a área da pastoral onde temos mais leigos empenhados na transmissão da fé. Se é verdade que a liturgia é o cume da vida cristã, não é menos verdade que a prioridade deve ser a formação cristã a todos os níveis. Dentro do ministério profético os catequistas são os agentes de pastoral mais numerosos na vida de uma diocese. A atenção à catequese e à formação de catequistas é uma das principais obrigações do bispo diocesano. Ao falarmos de catequese devemos ter em conta que a principal forma de catequese é a dos adultos e esta é a disciplina ainda não aprovada do pós concílio.
Aveiro é uma diocese pobre em termos materiais. Esta realidade pode dificultar a ação pastoral?
Se tivermos em conta as principais personagens da Sagrada Escritura, particularmente o papel de Nossa Senhora na história da salvação, damo-nos conta que Deus escolhe os mais pequenos e pobres para fazer maravilhas. O Evangelho passa sempre pelos simples e pequenos. Se esta é a condição da nossa Diocese, bendito seja Deus!
Canta-se na nossa diocese que “O bispo é Cristo na Igreja, é Cristo em terras de Aveiro”. Sendo a diocese de Aveiro relativamente pequena, pelo menos em termos geográficos, costuma ter grande proximidade com o seu bispo, o que tem muitas vantagens, mas terá certamente algumas desvantagens, como – deixe passar a palavra – a bispodependência e o cansaço do próprio bispo. Nos contactos que teve com a diocese confirmou esta ideia ou trata-se de uma apreciação errada?
De facto, a diocese é pequena em termos territoriais, mas em população está acima da média das outras dioceses. O bispo deve estar muito atento às pessoas e como foi afirmado, citando o Papa Francisco, deve ir à frente do rebanho para indicar o caminho (Cf. EG 31). O bispo deve saber unir o tríplice ministério que lhe diz respeito: a missão de ensinar, a de presidir à liturgia e o governo na caridade. É na conjugação deste tríplice ministério que devemos ver a missão do bispo. Procurarei que na diocese de Aveiro estes três serviços estejam em harmonia.
Escolheu como lema episcopal “É preciso que Deus reine” (1 Cor 15,25). E o que é preciso fazer para que reine em Aveiro?
Esta frase de S. Paulo tem servido de lema, ao longo dos tempos, para muitas obras da Igreja e para muitos bispos. Para mim, está unida ao lema do último bispo a ser ordenado na catedral da Guarda, antes de mim, e cujo processo de beatificação está numa fase muito adiantada e que marcou a Diocese na primeira metade do século passado. A sua influência ainda continua no modelo de santidade que foi para todos nós e na obra por ele fundada – a Liga dos Servos de Jesus. Ele incarnou a renovação da diocese da Guarda em tempos difíceis e, tal como o Beato Bartolomeu dos Mártires marcou a arquidiocese de Braga, também o Venerável D. João de Oliveira Matos pode ser modelo para os bispos do nosso tempo.
Os gostos do novo bispo
D. António Moiteiro é filho de Manuel António Ramos e Emília da Conceição Moiteiro. “Ainda são vivos e estarão, se Deus quiser, no dia 14 na Sé de Aveiro”, disse ao Correio do Vouga, quando interrogado sobre os seus pais. O novo bispo de Aveiro tem uma irmã, casada, e dois sobrinhos, um rapaz (casado) e uma rapariga (solteira), e partilhou connosco sobre alguns dos seus gostos.
O que gosta de ler?
Livros de teologia relacionados com a missão do pastor, de espiritualidade, sobretudo dos grandes místicos e alguma poesia que me ajude a sonhar com um mundo melhor.
E cinema?
O último filme que vi no cinema foi o «Mordomo», mas gostaria de ter mais tempo para ir ao cinema.
Música preferida…
Musica coral e sinfónica (Bach, Mozart, Beethoven…). O fado continua a ser algo que identifica a alma portuguesa.
Tem clube de futebol?
O da maioria dos portugueses e a partir de agora o Beira-Mar.
No tempo livre, se o tiver, o que gosta de fazer?
Passear com os amigos.
As datas de D. Antóno Manuel Moiteiro Ramos
14 de maio de 1956 – Nasce António Manuel Moiteiro Ramos, na Aldeia de João Pires, concelho de Penamacor, distrito de Castelo Branco e diocese da Guarda, filho de Manuel António Ramos e de Emília da Conceição Moiteiro
4 de julho de 1981 – É ordenado diácono
8 de abril de 1982 – Ordenação de padre, na Sé da Guarda, por D. António dos Santos. Inicia o serviço pastoral nas paróquias de S. Vicente e S. Miguel da Guarda
1984-1986 – Faz a licenciatura em teologia, com especialidade em catequética, no Instituto Superior de Teologia de San Dâmaso, em Madrid
1987 – É professor de catequética no Seminário Maior da Guarda e de teologia pastoral no Instituto Superior de Teologia Beiras e Douro, com sede em Viseu. É nomeado pároco, como membro de uma equipa sacerdotal, das paróquias de S. Miguel da Guarda, Alvendre, Avelãs de Ambom, Rocamondo e Vila Franca do Deão
1991 – Membro da equipa que elaborou os catecismos do programa nacional de catequese “Jesus gosta de Mim” (1.º ano) e “Estou com Jesus” (2.º ano).
1994-1997 – Frequenta o Instituto Superior de Pastoral, em Madrid, e conclui o doutoramento em teologia pastoral com a tese «Os catecismos portugueses da infância e adolescência de 1953-1993»
1996 – É nomeado diretor espiritual do Seminário Maior da Guarda, acumulando com a assistência pastoral às paróquias de João Antão, Santa Ana d’Azinha e Panoias
2003 – Publica um livro sobre a história da catequese na diocese da Guarda
2005 – É nomeado assistente geral da Liga dos Servos de Jesus, uma associação pública de fiéis fundada em 1924 pelo bispo-auxiliar da Diocese da Guarda, D. João de Oliveira Matos
2006 – Como membro de uma equipa sacerdotal, é nomeado pároco da Sé e de S. Vicente. É nomeado vice-postulador no processo de beatificação e canonização de D. João de Oliveira Matos. Publica os livros “Procuramos o rosto de Deus” e “Celebramos o encontro com Cristo” (edições Salesianas).
8 de junho de 2012 – É nomeado por Bento XVI bispo auxiliar da arquidiocese de Braga
12 de agosto de 2012 – É ordenado bispo na Sé da Guarda. Preside à ordenação o cardeal D. José Saraiva Martins
2014 – É vogal da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé e da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização
25 de junho de 2014 – Encontro com o Papa Francisco, em Roma
4 de julho de 2014 – É nomeado pelo Papa Francisco para Bispo de Aveiro
13 de setembro de 2014 – Tomada de posse perante o Colégio de Consultores
14 de setembro de 2014 – Entrada solene na Diocese de Aveiro
