
Carlos Gomes da Costa, 60 anos, está à frente do núcleo de Aveiro da ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores) desde 2014. Formado em Engenharia Eletrónica e Telecomunicações pela Universidade de Aveiro, é sócio fundador da empresa Optieng (www.optieng.com), dedicada a soluções de engenharia para a indústria. É casado, pai (dois filhos) e avô (um neto). Está ligado ao movimento das Equipas de Nossa Senhora. Nesta entrevista fala do sexto congresso da ACEGE, que decorreu em Lisboa, nos dias 5 e 6 de junho, e reflete sobre a identidade do empresário e gestor católico.
CORREIO DO VOUGA – Participou no recente congresso da ACEGE, que teve como tema “Uma cultura de gestão e liderança à luz do amor ao próximo”. É possível gerir e liderar com amor ao próximo?
CARLOS GOMES COSTA – Existem dois valores cristãos que devem nortear a atividade empresarial, ambos contidos no Código de Ética da ACEGE. O primeiro é que o valor social inestimável da empresa e a sua sustentabilidade constituem o bem maior a proteger pelo líder empresarial na sua ação e no processo tantas vezes complexo de tomada de decisões. Cada empresa é um bem social enorme e, precisamente por esse seu valor social tão grande, a nossa prioridade é assegurar a sua sustentabilidade. O segundo: o amor como critério de liderança e de gestão empresarial significa tratar os outros (o próximo) como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar deles, a partir da informação disponível. E por “outros” entendemos todos aqueles que o amor alcança: colaboradores, clientes, fornecedores, comunidade, concorrentes, futuras gerações.
Com foi participar no congresso? Quais as grandes ideias realçadas?
O tema do congresso não deixava ninguém indiferente: “Uma cultura de gestão e de liderança à luz do amor ao próximo”. Foi um congresso reconhecido por todos os 325 que nele participaram como de um nível altíssimo, não só pelo valor das pessoas que intervieram, do melhor que Portugal tem, como o modo como deram o seu testemunho. O congresso foi tocante, mesmo impressionante. E muito mobilizador.
Podemos resumir, muito sumariamente, o resultado do congresso como um passo “da utopia à prática”, isto porque “o amor ao próximo enquanto critério de gestão” evoluiu de uma visão idealista do presidente da ACEGE – António Pinto Leite – para o quotidiano de muitos empresários e gestores que abraçaram o desafio e o inseriram na sua gestão diária.
No congresso, divididos por quatro painéis, 16 oradores, do mundo académico, das empresas, da consultoria e da Igreja, ofereceram a sua visão, com base em testemunhos diretos e honestos. Não se furtaram a assumir os desafios e dificuldades que vão encontrando no trilhar deste caminho.
Falou-se no congresso da “empresa como comunidade de pessoas”, ideia que vem da doutrina social da Igreja. Na sua experiência de empresário, é viável esta ideia?
Uma constatação óbvia é que qualquer empresa é constituída por pessoas, ou, melhor dizendo, não existem empresas sem pessoas. O desafio que se põe é que as pessoas que constituem a empresa funcionem em comunidade de modo a que todos tenham o seu quinhão de ser feliz, ou seja os acionistas, os trabalhadores, os clientes, os fornecedores, os concorrentes, as famílias e a comunidade envolvente.
A vantagem de a empresa ser uma comunidade de pessoas e não um aglomerado de pessoas é que o resultado para todos pode ser positivo e gerador de felicidade.
Na minha experiência de 35 anos como empregado e de 10 anos como empresário, em várias empresas, constato sempre que quando a empresa, departamento ou secção trabalha como comunidade de pessoas, o nível de produtividade, de felicidade e de lucro é sempre maior. É mais fácil de atingir os objetivos traçados em conjunto.
Isto tem muito a ver com o amor, como realçou D. Manuel Clemente numa das intervenções. O cardeal-patriarca lamentou que a palavra amor, de tão usada e abusada, tenha, muitas vezes, perdido o seu significado, e definiu a vida de amor como “uma vida polarizada no outro, mas que em si mesma se realiza”. Lembrou as palavras de Jesus, “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” para sublinhar depois que “o maior lucro que uma empresa tem é a realização pessoal dos seus membros”.
Além do congresso, que é um espaço importante de reflexão, que outras iniciativas promove a ACEGE?
Uma proposta global da ACEGE é a respeitar no dia a dia das empresas o Código de Ética. Aí se diz, precisamente, em linha com o que refletíamos há pouco, que “acreditamos que a ética cristã ou nasce e se estrutura a partir do Amor, ou não é”.
Mas são várias as obras que a ACEGE desenvolve, em defesa do bem comum. Em primeiro lugar, a nossa obra social, o Fundo Bem Comum, o qual apoia, em regime de capital de risco, projetos empresariais para desempregados com mais de 40 anos. Em segundo lugar, o Programa AconteSer – Liderar com Responsabilidade, em aliança com a CIP, o IAPMEI, a APIFARMA e a CGD. Trata-se de um programa com apoio da União Europeia de promoção de boas práticas de liderança nas PME, envolvendo associações empresariais sectoriais e regionais e câmaras municipais. Este programa assenta na convicção de que a gestão com virtude é aquela que torna as empresas mais competitivas. Num só ano, realizámos mais de 100 reuniões, por todo o país, envolvendo cerca de 2.000 líderes empresariais. Em terceiro lugar, a nossa luta pelo equilíbrio da vida pessoal e familiar dos trabalhadores com a sua vida profissional. Estabelecemos, este ano, uma parceria com a prestigiada fundação espanhola, a Fundación “Más Família” (Fundação “Mais Família”), e a ACEGE é hoje a entidade co-emissora em Portugal do certificado de empresa familiarmente responsável.
O António Pinto Leite lançou um desafio concreto a todos os empresários e gestores: contactem a ACEGE no sentido de candidatarem as respetivas empresas à certificação de empresa familiarmente responsável. Lanço aqui o mesmo desafio.
Por último, a luta contra o flagelo dos pagamentos não pontuais entre empresas. Segundo o estudo encomendado pela ACEGE, perdem-se em Portugal, por ano, 14.000 postos de trabalho por este fator. Não se trata de um desastre económico apenas, trata-se de um desastre humanitário também. Em parceria com a CIP, o IAPMEI, a APIFARMA e a CGD, prosseguimos uma luta que se iniciou há cinco anos.
Há resultados desta campanha de pagamentos a horas, que tem tido muito destaque pelo menos em algumas rádios nacionais?
Sim. Existem resultados animadores e esperançosos. Aderiram ao Compromisso Pagamento Pontual, já em 2015, 400 empresas e até uma câmara municipal, a de Arganil. A ACEGE também lança a todos os líderes empresariais, católicos ou não, um desafio: leve a sua empresa a aderir ao Compromisso Pagamento Pontual, a comprometer-se, com autenticidade, a não contribuir para o sofrimento social que este flagelo provoca.
Como está a ACEGE em Aveiro?
A Acege tem cerca de 1.000 associados ao nível nacional e mais ou menos 10 associados no Núcleo de Aveiro. Digo “mais ou menos”, porque nem todos são ativos devido à multiplicidade de afazeres profissionais. A ACEGE em Aveiro está num período de relançamento das atividades e de mobilização de novos sócios também para dinamizar o trabalho de reflexão e intervenção através dos grupos de “Cristo nas Empresas”. O objetivo do Núcleo de Aveiro é, a curto prazo, consolidar um grupo de associados interventivos e mobilizadores de outros de forma a que a mensagem de Cristo seja uma prática diária da gestão das empresas.
Visto de fora, parece que os empresários e gestores de Aveiro são pouco dados a uma associação cristã. Está correta esta ideia?
Ser empresário e gestor cristão em Aveiro é o mesmo que em qualquer outra região. Existem muitos empresários e gestores que nas suas empresas e organizações dão o exemplo da gestão com amor ao próximo, sem alardes ou publicidade “enganosa”.
O IAPMEI atribuiu o estatuto de “PME Excelência 2014” a 240 empresas do Distrito de Aveiro, o que representa um aumento de 52 por cento, por comparação com o ano passado, quando foram distinguidas 157 firmas.
É isto um sinal de resiliência, de mérito e também de Gestão com Amor ao Próximo, sublinho eu, sobre a performance das pequenas e médias empresas galardoadas.
O aveirense é por natureza mais fazedor do que teorizador.
Seria importante que mais empresas fizessem parte da ACEGE, mas como se costuma dizer “o caminho faz-se caminhando”, todos os dias, iluminados por Cristo Jesus.
Para terminar, o gestor ou empresário cristão é diferente daquele que não se reposta a Jesus Cristo?
Um empresário não é melhor do que os outros apenas porque é cristão. Será diferente da generalidade, isso sim, se viver com verdade o cristianismo. Porque o amor será o seu critério de discernimento ético e o seu critério de gestão. E isto não é comum e faz toda a diferença. O amor como critério de gestão não significa dar a empresa aos pobres ou não competir com os nossos concorrentes. Pelo contrário, trata-se do critério de gestão mais exigente, no plano pessoal e empresarial, para nós mesmos e para os outros que integram a nossa empresa ou interagem com ela. Para mim, pessoalmente, ser cristão é uma mais-valia na liderança empresarial.
