Maleitas e tentativas de cura do capitalismo a partir de dentro

 

CAPITALISMO POSTO Á PROVA
Philip Kotler
Presença
256 páginas

 

 

Philip Kotler é conhecido nos meios empresariais e comerciais como um dos mais importantes gurus do marketing (existe a palavra portuguesa mercadologia, mas tem menos força para significar as estratégias de vendas, o estudos do comportamento dos consumidores, os processos para determinar produtos e serviços que lhes interessam, a definição de publicidade, etc., que é disso que trata o marketing). Ora o marketing é algo de fundamental no capitalismo. Quase os poderíamos tomar por sinónimos. O sistema capitalista precisa de marketing, dá-lhe quase um estatuto de ciência. O autor afirma, no entanto, que “os economistas negligenciaram o papel e poder do marketing em moldar e influenciar os mercados”, isto, num contexto em que as pessoas querem compreender o capitalismo, criticá-lo, melhorá-lo, ou, em alguns casos, suprimi-lo.
O autor publicou este livro em 2015, já depois do tão falado “O Capital no século XXI”, do francês Thomas Piketty, mas o horizonte é sempre a “crise do capitalismo”, tema recorrente na Europa e na América desde a crise do “subprime” de 2007, que desencadeou diversas outras crises, incluindo a crise da dívida pública em Portugal (e em outros países viciados em défices). Muita gente tem falado desde então em mudança de paradigma no capitalismo, ou mesmo fim do capitalismo, não se percebendo, contudo, em que sentido poderá ir a mudança para além de mais regulação. Sensatas eram as palavras de Bento XVI, quando escrevia que “é preciso que as finanças enquanto tais — com estruturas e modalidades de funcionamento necessariamente renovadas depois da sua má utilização que prejudicou a economia real — voltem a ser um instrumento que tenha em vista a melhor produção de riqueza e o desenvolvimento.” (“Caritas in veritate”, 65). Em resumo, não menos capitalismo, mas melhor capitalismo.
Kotler não cita Bento XVI, nem consta que conheça a Doutrina Social da Igreja (ainda que cite Madre Teresa de Calcutá na página 240), mas não nos parece difícil compaginar as suas preocupações com as da DSI, porque estas procuram mais corrigir os defeitos das práticas correntes à luz de princípios como o bem comum e a dignidade humana do que propor modelos completamente novos. Kotler aborda, precisamente, as imperfeições do capitalismo e não podemos esquecer a resposta de João Paulo II quando se interrogava em 1991 sobre se o modelo capitalista poderia ser assumido por uma série de nações que se viram órfãs devido à falência do modelo comunista (soviético): “Se por «capitalismo» se indica um sistema económico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no setor da economia, a resposta é certamente positiva, embora talvez fosse mais apropriado falar de «economia de empresa», ou de «economia de mercado», ou simplesmente de «economia livre». Mas se por «capitalismo» se entende um sistema onde a liberdade no setor da economia não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloque ao serviço da liberdade humana integral e a considere como uma particular dimensão desta liberdade, cujo centro seja ético e religioso, então a resposta é sem dúvida negativa” (“Centesimus annus”, 42).
O professor de Marketing não procura uma alternativa ao capitalismo. Parafraseando Churchill, na sua célebre consideração sobre a democracia, afirma que aceita “a possibilidade de o capitalismo poder ser uma forma deficiente de gerir uma economia, talvez a pior, à exceção de todas as outras forma já experimentadas e fracassadas”. E falhas, o capitalismo tem muitas. O autor aponta 14 “imperfeições graves” e dedica a cada uma delas um capítulo de “O capitalismo posto à prova”.
J.P.F.

 

 

Catorze imperfeições do capitalismo apontadas por Philip Kotler

1. O Capitalismo propõe poucas ou nenhumas soluções para a persistência da pobreza.
2. …gera um crescente nível de desigualdade de rendimentos e riqueza.
3. …não paga um salário digno a milhares de milhões de trabalhadores.
4. …talvez não crie suficientes postos de trabalho face à crescente automatização.
5. …não cobra às empresas a totalidade dos custos sociais das suas atividades
6. …explora o meio ambiente e os recursos naturais nos casos em que estes não estão regulados
7. …cria ciclos económicos e instabilidade económica.
8. …enfatiza o individualismo e o interesse próprio à custa das comunidades e das populações.
9. …encoraja um elevado endividamento dos consumidores e conduz a uma economia cada vez mais orientada para o lucro em detrimento do lucro obtido pela produção.
10. …permite que políticos e interesses empresariais colaborem para subverter os interesses económicos da maior parte da população.
11. …favorece um planeamento orientado para o lucro de curto prazo em vez de um planeamento de investimento a longo prazo.
12. …deveria ser submetido a regulações no tocante à qualidade dos produtos, à segurança, à verdade na publicidade e ao comportamento anticoncorrencial
13. …tende a focar-se quase exclusivamente no crescimento do PIB.
14. …Precisa de introduzir valores sociais e felicidade na equação do mercado.