As entrelinhas

Querubim Silva Padre. Diretor
Querubim Silva
Padre. Diretor

“O País, por este caminho, não vai longe” – dizia por estes dias um comentador num painel radiofónico. E dizia as razões da sua afirmação. Um País cujo governo não olha a realidade nua e crua da sua situação, para empreender discussões, projetos e programas que promovam o investimento, a produção de riqueza, a criação de trabalho… bem pode alardear benesses, “devolução de regalias”, que rapidamente mostrará a alienação a que conduz o seu povo.
É que as discussões e votações no órgão legislativo da nação vão direitinhas à satisfação de clientelas particulares, de setores privilegiados, sob pressão de corporativismos anacrónicos, ignorando o verdadeiro nível de vida possível para a generalidade do povo português no presente e no futuro.
Os sinais começam a ser preocupantes. As promessas eleitorais aumentam a dívida, as receitas não crescem, é o consumo que manifesta pequenos índices positivos, divisam-se os riscos de decréscimo de exportações face à competitividade dos mercados… E os “boatos” de regresso de “promessas” a níveis de 2009 já andam por aí a circular.
Mas o mais preocupante é o ênfase legislativo a que são promovidos temas fracturantes – aborto, barrigas de aluguer, eutanásia… – também assuntos para responder à necessidade de contentar minorias radicais, que possam sustentar o governo.
Esta trajetória ideológica de desvalorização da vida integral, de fragmentação de uma clara antropologia que coloque no centro das decisões políticas a pessoa humana – ser material e espiritual, indivíduo e ser em relação, masculino e feminino, dotado de autonomia que conjuga liberdade com sociabilidade… – é a estratégia que facilmente conduz a uma situação de “terra queimada”, isto é, sem referências nem valores, que abre caminho a uma subtil imposição de qualquer forma de totalitarismo.
Nas entrelinhas das decisões parlamentares passam pequenos sinais que não podemos ignorar. Quando se recusa criminalizar o abandono dos Idosos e se pretende aprimorar a defesa dos direitos dos animais, não poderemos esperar que a vida, em todos os seus estádios, seja escrupulosamente respeitada e promovida. Será que não vem aí o objetivo de entregar ao poder instalado a decisão sobre a vida de quem já não é útil ou daqueles que, à partida, não têm condições de vir a ser úteis?
Prestemos atenção às entrelinhas, que dizem muito, para ver se não acordamos demasiado tarde.