A arte é expressão da busca de sentido

Foi inaugurada, no sábado passado, a exposição “O Sentido da vida: Que horizontes”, que reúne 40 obras de artistas aveirenses. A iniciativa é da Comissão Diocesana da Cultura, em parceria com a AveiroArte e a Câmara Municipal de Aveiro. A exposição pode ser vista no edifício da antiga Capitania, de terça a domingo, das 14 às 20 horas, até 23 de Abril.

As obras expostas foram escolhidas pelo casal Gaspar e Claudete Albino, da associação AveiroArte. “Acho que a exposição está muito boa, muito equilibrada. Os artistas entenderam o tema e transmitiram-no plenamente”, afirma Claudette Albino ao Correio do Vouga. “O convite da associação AveiroArte foi feito em Dezembro aos seus associados, à Associação de Artistas da Bairrada e à Galeria Sacramanento e os artistas responderam muito bem”, disse. “Foram excelentes. Mas os artistas são sempre excelentes, quando se trata de colaborar”, conclui Claudette Albino.

“Viajantes do infinito”

Antes da visita à exposição orientada por Gaspar Albino, o Pe António Rego, numa breve comunicação, defendeu que “a cultura e a fé não se distinguem muito; convergem nos porquês e para quês”. “A beleza passa por Deus e a revelação de Deus passa pela beleza”, disse. O jornalista da TVI e responsável pelo Secretariado das Comunicações Sociais da Igreja apelidou os artistas de “viajantes do infinito”, porque, com a sua “vocação de liberdade criativa”, revelam a “dimensão do incomensurável”. No entanto, “não lhes peçam que façam um discurso teológico. As suas súmulas são expressas pela arte”.

A arte não aponta necessariamente um sentido para a vida, mas é uma “resposta instintiva”, numa época em que ficamos “perdidos nas rotundas da vida sem sabermos como encontrar o sentido de tudo isto”, disse o Pe António Rego. “Há um excesso de informação” que confunde. Daí que o ser humano, na sociedade actual, precise de um GPS [Global Positioning System – sistema de navegação por satélite, usado na aviação e cada vez mais vulgar nos automóveis], que oriente “nas neblinas das alturas”, nas “incertezas do espaço”, no “intrincado da floresta” e nos “socalcos das ondas”, porque “ninguém é livre de querer ser feliz”. A arte pode não ser a resposta, mas é certamente uma expressão da “nostalgia do Éden”.

D. António Marcelino, que presidiu à sessão, em breves palavras referiu que, “pela escada da beleza, podemos purificar aquilo que a inteligência não percebe”. Antes, o Pe Georgino Rocha, presidente da Comissão Diocesana da Cultura, referindo-se às obras expostas realçara a “beleza intuída, sonhada e plasmada em formas tão admiráveis”.

No auditório da Capitania, no dia 20 de Abril, às 21h30, D. Manuel Clemente, Bispo Auxiliar de Lisboa, fala sobre “O sentido da vida à luz da arte cristã”.

A palavra dos artistas

Os artistas criam. Não têm que saber explicar as suas obras. A interpretação e a avaliação pertencem aos críticos. Mas há sentidos que eles próprios atribuem ao que sai das suas mãos. O Correio do Vouga ouviu as explicações de três artistas presentes na inauguração.

Susana Rino, da Associação dos Artistas da Bairrada: “Pinto frequentemente esta paisagem. Por vezes, tiro-lhe fotografias e quando chego a casa reparo que são iguais a outras que já tirei”. No quadro, uma paisagem desfocada, vê-se uma casa. “É a casa de uma família de 9 pessoas que perdeu a vida no IP5, há cinco ou seis anos”, revela a autora. “Salvou-se a filha mais nova, que vive agora com a avó”. A pintura chama-se “Horizontes perdidos”. O sentido está explicado.

José Augusto, mais conhecido pelas suas cerâmicas, expõe dois quadros. Chamam-se “O homem agiganta-se na luta pela vida” e “Caminhada para a vida”. “Mostram a vida de todos nós, o esforço do trabalho. É um reflexo do quotidiano dos homens de Aveiro, embora os trabalhos agora sejam mais suaves e menos agressivos”, diz o autor.

Maria Aurora Peres expõe três aguarelas. As obras dividem-se horizontalmente em duas metades: “Uma é a base, outra o horizonte. Da base nasce a vida e todas as possibilidades, incluindo a da fé”, explica a autora, quase a fazer 80 anos. A antiga professora de Matemática da Escola José Estêvão reformou-se aos 70 anos e começou a pintar aos 73. As suas pinturas em exposição, segundo um mesmo modelo, mostram “o que há de bom e de não tão favorável na vida”.