Um outro olhar pelo Desporto “Deus vale mais que 10 milhões de dólares…”, frase banal, se vista à luz de uma piedade popular, desencarnada no tempo, para quem falar de Deus significa algo trans-cendente que, mais que cotação no mercado, provoca(va) temor . É um deus teórico a quem se invoca quando tudo corre bem, que se chama quando as coisas estão do nosso lado, a quem se desfiam muitas palavras, mas poucas orações. Deus, deste ponto de vista teórico, é algo criador mas invisível, próximo mas distante, que pouco tem a ver com os nossos “negócios” ou jogos de transacção. Ele aparece, assim, em gestos religiosos mas de pouca fé, onde o entrar em campo com o pé esquerdo equivale ao arremedo de uma bênção, a cruz se mistura com outros amuletos ou o seu nome se cozinha com o Sentimento, o Alguém ou qualquer força cósmica. É um deus sem cotação, que se invoca por hábito ou presságio e que, de Deus, apenas usa o nome.
Não é esse Deus que está em causa ou foi trocado por 10 milhões de dólares. Este é o Deus dos cristãos, Aquele que criou o Homem e aguentou a aposta da liberdade; Aquele que, ao cair das tardes no paraíso se encontrava com o Homem e tinha dele a paga da felicidade; Aquele que, por entre as árvores, entreviu alguns gestos de ternura e assistiu àquele momento fatal em que uma ordem Sua é trocada por uma qualquer maçã do paraíso, mesmo que agradável à vista.
Apesar do transtorno que esta árvore causou ao projecto inicial, não deixou de proliferar ao longo dos tempos; e hoje é conhecida por “árvore das patacas”. É ela que continua a comandar tantas vidas, a exportar tantas ideias e a controlar grandes espaços da inteligência humana e da vontade dos homens. Em seu nome, ergueram-se bezerros de ouro, inauguraram-se estátuas, inventaram-se rituais e sacrificaram-se vidas. Até o tempo, o que de melhor nos resta, lhe foi vendido.
Foi neste espaço, que mora dentro de cada homem e que conjuga a fé com o tempo, que um guarda redes de futebol, em nome dessa mesma fé, e por causa do tempo que a vida lhe oferecia, que ele não trocou o seu Deus por essa quantia de dinheiro. A história foi-me trazida por alguém e veio relatada, esta se-mana, num dos nossos diários. “Carlos Roa, o “Letchuga”, guarda-redes internacional da Selecção da Argentina, por não poder jogar ao sábado, dia consagrado ao repouso pelo seu grupo religioso protestante, deixou as Ilhas Baleares, onde jogava, e nem o convite do Manchester o desmanchou: “Deus vale mais que 10 milhões de dólares…”, terá dito numa conferência de Imprensa.
Esta atitude ficou, para mim, como uma pedrada no charco da sociedade em que vivemos, onde os valores materiais se alcandoram em patamares de divindade e o futebol funciona como trampolim; esta sociedade que “perdeu o sentido lúdico e humanizante, para se tornar uma competição de artistas pagos a peso de ouro, que oferecem um espectáculo de alto valor comercial mas, muitas vezes, despido de alma e de sentimentos” (in: “O Desporto ao serviço da pessoa e do encontro dos povos”).
Nesta nova forma de ver, Deus assume uma cotação que não se equivale a dólares ou euros ou qualquer outra moeda ou material precioso, a esta ou àquela situação concreta da vida, por mais positiva ou negativa que seja, porque Ele é o totalmente outro, tão próximo do homem que vive dentro dele e, por isso, pode levar a sacrifícios como dizer não a este ou àquele caminho, a esta ou àquela proposta, nem que sejam as 30 moedas ou os 10 milhões de dólares. Deus é o Outro e não tem cotação na nossa moeda, porque Ele se mede em espirais de vida.
Parabéns “Letchuga”, por esta “baixa” nos mercados, onde Deus fica de fora.
