Excertos das homilias de D. António Francisco, Bispo de Aveiro, nas celebrações da Missa Crismal e do Tríduo Pascal, na Sé de Aveiro.
Missa Crismal, manhã
de Quinta-feira Santa (21 de Abril)
A Igreja pede-nos a nós, sacerdotes, que renovemos as nossas promessas sacerdotais, que nos recordam o dia em que fomos constituídos pastores da Igreja ao serviço dos nossos irmãos. Somos convidados a ter presente aquela bela exortação de Paulo ao discípulo Timóteo: «Reaviva o dom de Deus que recebeste» (2 Tim 1, 6). É este dom que dá sentido às nossas vidas. (…)
Aprendemos a ser pastores no exercício do próprio ministério, mas também e muito a partir da nossa fraternidade presbiteral. A fraternidade presbiteral é uma exigência da caridade pastoral. E a caridade pastoral alimenta-se do nosso encontro com Cristo, da nossa entrega ao ministério, porque é um amor cujo destinatário imediato é a comunidade eclesial. Por seu lado, a comunidade que servimos constitui outro elemento fundamental da nossa espiritualidade. Sabemo-nos discípulos e missionários para que as nossas comunidades tenham vida.
Ceia do Senhor, noite
de Quinta-feira Santa (21 de Abril)
Lavando os pés aos discípulos, Jesus despoja-se de si mesmo em atitude de serviço, por amor do Reino. Este é um gesto de hospitalidade a que os discípulos não estavam habituados. (…)
Estes gestos desgostam, incomodam e desconcertam os que apenas pensam em si mesmos, nos seus desejos e aspirações e se esquecem facilmente dos outros, dos seus direitos e valores. Mas estes gestos encantam, seduzem e fazem discípulos também hoje, em tantos voluntários e servidores da fraternidade, da dignidade e da vida. E não faltam, felizmente, exemplos destes na história e na vida da nossa cidade e diocese de Aveiro. Na Igreja, a autoridade só pode ter um nome: serviço e só pode ser exercida assim: servindo. E o modo de exercer a autoridade será sempre expressão desta profecia da atenção àqueles que ninguém atende; de escuta daqueles que ninguém ouve; de consolação e afecto àqueles a quem ninguém dá valor; de acolhimento fraterno daqueles que são excluídos e rejeitados. (…)
Esta é também a hora mais nobre da gratidão ao Senhor que se nos dá na Eucaristia e no Sacerdócio e em tantos que fazem do mandamento novo a sua maior lei e do gesto do Lava-Pés a sua melhor escola. E por isso eu rezo em nome de todos:
Senhor Jesus, que nos alimentas com o Teu Corpo e nos redimes com o Teu Sangue, és Tu Senhor que dizes a cada um e a nós todos: «Compreendestes o que vos fiz: Fazei vós também». Sabemos, Senhor, que só o ousaremos fazer se o fizermos por amor. Como discípulos na escola da loucura da cruz; como aprendizes da sabedoria de Deus. Senhor Jesus, ensina-nos a compreender, a crer, a amar, a perdoar e a servir como tu nos amaste, perdoaste e serviste! Faz-nos profetas do gesto do Lava-Pés para celebrarmos sempre a partir deste memorial da Ceia pascal a alegria de viver, de servir e de acreditar.
Celebração da Paixão, noite
de Sexta-feira Santa (22 de Abril)
A cruz é simultaneamente o grande mistério e o lugar onde o sonho de Deus sobre a humanidade se cumpre e realiza e a grande utopia de um Reino novo, onde o pecado será vencido e a morte será destruída para sempre.
É a partir deste mistério redentor da cruz que culmina na Páscoa que a humanidade será salva. É através deste mistério redentor que a Igreja se sente enviada a proclamar a salvação a todos os povos e a libertação aos oprimidos e aos que sofrem e a viver em permanente atitude profética, decidida a percorrer o seu caminho na pobreza e na humildade, no despojamento e na entrega, capaz de dar espaço alargado e ânimo consistente aos que se sentem pequenos e pecadores.
Sempre me interroguei porque gostam tanto os jovens deste símbolo redentor da Cruz e dele fazem sinal marcante das suas caminhadas e do seu rumo no horizonte das Jornadas Mundiais. Para os jovens, a cruz não é um ornamento. A cruz revela – lhes o mistério da nossa redenção mas aponta – lhes, também, o caminho da Igreja que eles amam e que eles sonham, decidida a viver esta radicalidade do Mestre e esta procura insaciável da justiça e da paz, da dignidade humana e da igualdade entre todos.
A cruz é o estandarte da liberdade; é um hino à liberdade; é a voz dos inocentes que finalmente são ouvidos. Do alto da cruz desponta esta contínua e libertadora Boa Nova que é a Boa Nova de vida, de liberdade e de comunhão feliz entre irmãos; Boa Nova do perdão, da misericórdia e da ternura de Deus. A cruz é para muitos que sofrem o único «trono da graça», onde encontram serenidade e paz, conforto e esperança. A cruz é para tantos dos nossos irmãos a síntese mais legível do Evangelho.
Vigília Pascal, noite
de Sábado (23 de Abril)
A hora que vivemos, marcada por acrescidas dificuldades para Portugal, exige de todos nós cristãos, à luz da Páscoa, um compromisso maior e uma disponibilidade efectiva para firmarmos os nossos passos no que é verdadeiramente essencial. (…)
O encontro com a pessoa de Jesus é fundamental gerando um modo novo de ser humano, de estar na sociedade e de servir o bem comum. A vida não acaba, transforma-se; a cruz do condenado converte-se em cruz florida da Páscoa; o futuro pertence a quem ama e não a quem apenas pensa em si; o caos cede lugar à harmonia e o medo abre caminho à esperança. Todos sentimos que neste tempo confuso e fragmentado por tantas e desnecessárias divisões, diminuem as esperanças de prosperidade e aumentam as inquietações perante o futuro e isso gera ansiedade nas famílias a braços com acrescidas dificuldades e provoca perplexidade sobretudo nos jovens para quem o futuro é mais inseguro. Esta ansiedade pode conduzir-nos a sobressaltos e conflitos sociais que coloquem em questão um pacífico e sereno viver comum. Precisamos neste momento da sabedoria, da lucidez e da determinação de todos para que dêem ao diálogo a chave da harmonia e da concertação entre todos os cidadãos e para que um futuro de consenso, de justiça e de progresso seja possível.
Os cristãos não se podem contentar em ser simples servidores de causas generosas. Somos defensores de uma autêntica concepção da vida e da dignidade humana em todas as suas dimensões; devemos participar nos esforços comuns para que haja equidade e justiça na nossa sociedade e para que o ser impere sobre o ter; temos responsabilidades na consciência colectiva a criar para que se eduquem as novas gerações para uma vida sóbria, para uma partilha solidária, para uma responsabilidade universal na construção de um mundo melhor.
