“A ecologia integral é uma exigência da justiça”, defende D. António Moiteiro

Da esquerda para a direita: Óscar Gaspar, Rocha Andrade, D. António Moiteiro, Isabel Miranda, Manuel Oliveira de Sousa
Da esquerda para a direita: Óscar Gaspar, Rocha Andrade, D. António Moiteiro, Isabel Miranda, Manuel Oliveira de Sousa

 

Comissão Diocesana Justiça e Paz promoveu apresentação da encíclica sobre a “casa comum”.

 

“A ecologia integral é uma exigência da justiça”, realçou D. António Moiteiro na apresentação da “Laudato si”. O bispo de Aveiro, encerrando uma sessão com intervenções que abordaram o documento do Papa Francisco sob o ponto de vista ambiental, político e económico, convidou à leitura da encíclica a partir de uma antropologia que considere o ser humano no mundo como inferior a Deus, igual para com o outro ser humano e superior à restante criação. Tal superioridade, contudo, não lhe dá o direito de destruir a criação, mas antes o dever de “colaborar no seu aperfeiçoamento”. A justiça para com os outros seres humanos, para com a criação e para com o Criador exige, portanto, “um novo estilo de vida”, com mais “simplicidade” e com a “alegria de quem se sabe amado por Deus”, disse o Bispo de Aveiro.
A apresentação do documento sobre o “cuidado da casa comum” decorreu na noite de 29 de junho, na Igreja de São Francisco, Aveiro, promovida pela Comissão Diocesana Justiça e Paz (CNJP). A escolha do local, que foi pequeno para as duas centenas de pessoas que quiseram participar, deveu-se a “razões óbvias”, como disse Manuel Oliveira de Sousa, presidente da CNJP, referindo-se à inspiração do santo italiano, a começar pelo título da encíclica, “Louvado sejas”, tirado do “Cântico das Criaturas”.
Isabel Miranda, professora universitária de Ambiente em Aveiro, apresentou dados científicos que apoiam as afirmações do Papa Francisco, como o aumento das temperaturas globais e o seu impacto na produção agrícola, e sublinhou e expressão papal “tomar dolorosa consciência”. Segundo a professora universitária, o Papa deseja que todos tomem “dolorosa consciência” e que ousem “transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo”. Será este um princípio de mudança.
Fernando Rocha Andrade, político ligado ao PS e professor de Direito na Universidade de Coimbra, realçou que o Papa considera consensual que a intervenção humana está a causar alterações climáticas, o que vai contra setores influentes dos Estados Unidos, alguns deles ligados a confissões cristãs. Não sendo crente, o político congratulou-se por a encíclica defender não uma “ecologia dos interesses”, mas uma “ecologia franciscana”, em que a natureza tem “dignidade própria”.
Óscar Gaspar, falando como economista, citou o Papa para realçar que “a política não se deve submeter à economia, e esta não se deve submeter aos ditâmes e ao paradigma eficientista da tecnocracia”. Ecoou ainda as palavras de Francisco ao frisar que a “maximização do lucro é uma distorção concetual da economia”. Neste sentido, e porque “comprar é sempre um ato moral”, com “implicações éticas”, disse que fazer boicote a determinado produto é um legítimo mecanismo de pressão para que a empresa mude de práticas. O economista que também é político, ligado ao PS, considerou que o “texto profético” de Francisco não separa as crises. “A crise é ambiental e social ao mesmo tempo”, defendeu, pelo que a “conversão ecológica” está necessariamente ligada à “mudança de mentalidades”, à “conversão social”.