Direitos Humanos Por estes dias em Porto Alegre, capital do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, tem lugar, pela quinta vez, o Fórum Social Mundial.
Quando falo aos meus amigos acerca do referido evento alguns estranham a alegria e esperança que coloco neste acontecimento. Não os censuro. O Fórum Social Mundial, por se tratar de um fórum alternativo, ainda por cima realizado em áreas do (chamado) “3º mundo”, não merece tantos destaques, nem faz tantas primeiras páginas, como o Fórum Económico Mundial que acontece, simultaneamente, em Davos, na Suíça.
Na verdade, o que se discute em ambos os locais é algo de diametralmente oposto. Em Davos, ocupando as manchetes dos jornais impressos ou televisionados, procura encontrar-se um futuro risonho para o sistema económico dominante no mundo. Para ser equacionada e reforçada a ideia de que o sistema neoliberal é o único sistema que, uma vez aperfeiçoado, permite o desenvolvimento do planeta, convidam-se as maiores cabeças pensantes do mundo. Aos grandes vultos do mundo financeiro – de que é exemplo máximo o magnata norte-americano Bill Gates – juntem-se algumas vozes mais ou menos dissonantes – como a do Presidente brasileiro Lula da Silva – que permitam alguma credibilidade democrática e acrescente-se vedetismo q.b. – este ano até o vocalista dos U2 – e teremos a receita do sucesso mediático amplamente garantida. Em Porto Alegre (ou no IV Fórum Social Mundial, em Mumbay – Índia), sem o alarido mediático do fórum suíço, o congresso das alternativas procura fazer acontecer uma nova história. Os milhares de cidadãos, muitos deles anónimos, que estão presentes, fazem-no com intenção de gritar ao mundo que “um outro mundo é possível”.
A este propósito li, uma vez, um texto do bispo brasileiro, Dom Pedro Casaldáliga, que caracterizava o Fórum Social Mundial como o paradigma da vitória da “altermundialidade” sobre a ideologia da “inevitabilidade”.
Pegando nas palavras desse profeta dos tempos modernos que é o “companheiro Pedro”, entendo também que o que se trata em Porto Alegre é de gritar a plenos pulmões que temos obrigação de construir um mundo mais justo. (E desculpem o sublinhar do verbo gritar, mas a verdade é que perante a má vontade dos “media”, não resta outra alternativa!) O sistema vigente – que não se pode resumir a uma noção meramente económica – já deu mostras de que não é solução para os problemas da humanidade. Pelo contrário, a visão capitalista do desenvolvimento, é a grande culpada de mil milhões de pobres que não têm sequer o equivalente a €1 por dia para (sobre)viver ou dos 2,7 mil milhões que, acrescen-tados aos anteriores, não têm condições básicas para viverem dignamente. Ainda mais quando, a par com os “valores económicos”, se tenta impor ao mundo um conjunto de contra-valores, camuflados como se de valores se tratas-sem. Só assim se pode entender que alguns achem “justas” as guerras para “prevenir” outras guerras e se responda ao terrorismo com um outro tipo de terrorismo – o das estru-turas económico-ideológicas que se querem impor a todos os seres humanos, sem levar em conta a sua diversidade e a sua opinião sobre as coisas.
Por constituir um desafio ao “velho império” já seria importante um Fórum Social Mundial. Por respeitar as diferenças – culturais, ideológicas, religiosas… – e valorizá-las, para que se transformem em fermento de um novo mundo, torna-se urgente conhecer o que se pretende com lugares de reflexão como Porto Alegre.
Para os cristãos trata-se de um estímulo à esperança e de um desafio a uma nova atitude: para que em breve possamos ter “novos Céus e uma nova Terra”.
