A Esperança

Opinião Num romance que li, ainda estudante, recordo a história de um jovem parisiense que foi condenado ao degredo numa das ilhas francesas da América Central por um crime que não cometeu. E numa das celas onde tinha por companhia a água quando a maré enchia e os caranguejos que trepavam pelas paredes, havia uma porta e nela um pequeno buraco na fechadura por onde o sol se esgueirava trazendo-lhe, em cada dia, a esperança que o fazia recriar-se em Paris em cada final de tarde. Mas esta esperança terminou numa qualquer cidade ao fim de qualquer tarde.

Foi essa esperança humana que os judeus sentiram e aclamaram quando viram Jesus entrar na cidade santa de Jerusalém acolhido com palmas de triunfo e capas de um rei, que destruiria os romanos e ocuparia a cadeira real rodeado de amigos, exércitos e vassalos… mas tudo se desvaneceu quando a cadeira ficou ocupada como estava, os amigos dispersaram e este Rei é entronizado com uma coroa de espinhos e como troféu recebe uma cruz. Aí estava a sua esperança!

Mas uma centelha, qual estrela vinda do Oriente, desceu sobre a cidade e voltou a iluminar toda a história de amor quando Deus veio ao nosso encontro, partilhou da nossa humanidade, calcorreou os nossos caminhos, encontrou-se com os nossos doentes, abençoou as nossas crianças e para todos tinha uma palavra, um gesto, um carinho, um sinal de esperança. Mas os sábios e importantes do tempo, os instalados na vida e os homens do poder não podiam conceber um Rei que descesse tão perto, que fosse tão igual a ponto de se fazer servo, e servo de todos e, por isso, o seu destino seria igual ao de tantos outros: a morte como remédio e cura da esperança acalentada por uns tantos. E rapidamente, aliciados uns pelos outros, gritaram: à morte!

“Tudo está consumado…!”, disse ele quase a terminar esta vida que escolheu e esta morte que aceitou: “Ninguém me tira a vida, sou Eu que a dou, livremente, para resgate da multidão!”

A partir dali faltava olhar de novo pelo buraco da fechadura, agora transformada em túmulo, e descobrir entre as palmas de aceno e as cruzes de cada dia um caminho novo, por onde corre a Esperança em todas as cidades e de todos os mundos em cada Domingo de Ramos.