A ética e a política são indissociáveis da esperança

O que diz… Marcelo Rebelo de Sousa encerrou as “Tertúlias à Quarta” 2010/11, do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA), no dia 8 de Junho, falando de ética e política. Segundo o professor e comentador político, todos somos políticos porque exercemos alguma forma de poder. Se o fizermos com ética personalista, melhor. No final apontou alguns políticos que admira. Ideias principais recolhidas por Jorge Pires Ferreira.

Origem da política

A política existe porque existem bens raros, conflitos de interesses, problemas latentes. Surge como meio de definir as regras e resolver os conflitos de interesses nas organizações, sejam países, fundações, autarquias ou quaisquer outras. Política é o exercício de poder.

Todos somos políticos

Todos os membros de uma comunidade são políticos porque exercem o poder e porque têm algo a dizer sobre ele quando escolhem e julgam os titulares do poder. Todos somos políticos. Não há “os políticos e nós”. Alguns exercem formas de poder específicas em certos momentos e circunstâncias.

Ética individualista e comunitária

A ética é um conjunto de princípios que concretizam escolhas morais. É algo mais próximo da vivência social. Deve a política obedecer a uma ética? No séc. XIX, com o segundo racionalismo e a afirmação do indivíduo contra o clero e a aristocracia, dá-se a privatização da ética. O indivíduo está no centro e pensa-se que o melhor para o indivíduo é o melhor para o todo. Individualismo. Cada um com os seus princípios. Passa-se da ética comunitária à ética individual.

Na realidade, não é possível separar ética individual de ética comunitária. Cada um de nós, sabendo ou não, condiciona e é condicionado pelos outros. Não posso dizer que a minha ética não tem nada a ver com a ética comunitária. Há tanto a fazer na comunidade pela comunidade que é imperativo colaborarmos.

Ética personalista

Há um aparente consenso em torno da ideia de que quando se fala de ética fala-se de ética personalista, a que está na base dos Direitos Humanos e da Constituição Portuguesa, fundamentando-se na dignidade da pessoa humana.

Não há grandes dúvidas de que se deve obedecer à ética e visão personalista. A questão é que, quando o direito de A colide com o de B – o que acontece muitas vezes – não é possível escolher o bem maior, sendo necessário optar pelo mal menor. Há ética na política. A violação é sinal de que ela existe.

É difícil ser político

Ser político hoje é mais complicado do que alguma vez foi. Somos membros de várias sociedades. Há sobreposição de informação. Impera o relativismo, que diz que a verdade não é de todo discernível. Ao mesmo tempo exige-se a perfeição à força, mesmo com comportamentos estereotipados. Para se ser político é preciso ter três qualidades – e não é líquido que qualquer delas tenha carácter ético: imagem, resistência física, resistência psíquica.

Esperança

A ética e a política são indissociáveis da esperança, embora hoje a política não pense muito no futuro. A ética é intergeracional. Por exemplo, na ecologia, junta-se ética e esperança no futuro.

Política e cristianismo

Como cristão, vejo a relação política / ética na linha da “Gaudium et Spes” [documento sobre a Igreja na sociedade contemporânea], do II Concílio do Vaticano: recusa da ética individualista, porque o caminho da salvação só é possível com os outros e não à margem dos outros; obrigação de testemunho permanente nos espaços públicos num tempo de secularização (o tempo deixou de estar marcado pelo ritmo religioso) e de laicização (separação de poderes do Estado e da Igreja).Vejo a actividade política na linha de Pio XI, que falava em “caridade política”. A ética personalista persegue o programa ético radical das Bem-Aventuranças.

Europa sem esperança

A Europa está velha. Velha não é ter muita idade, é não ser fecunda, tornando-se fechada, sem paciência para os outros. A democracia perde muito se perde o sentido do serviço. Não é possível haver democracias fortes se não forem solidárias. Egoísmo é envelhecer. A Europa foi rica e inspiradora quando foi generosa. Partidos intolerantes são sinal de fraqueza da Europa. Além disso, hoje a Europa é comandada por políticos pouco europeístas.

Instâncias educadoras

Estamos a assistir a mudanças simultâneas brutais. As instituições que influenciaram a minha educação foram, por esta ordem: Família, Igreja, Escola, TV. Hoje, são: TV (ou, em alguns casos, Internet), Escola, Família e Igreja – quando aparece. Para mais, estamos a assistir a uma descida do nível cultural da televisão.

Ética dos eleitores

A política é vista como lepra social. Há uma falta de pedagogia para os valores da comunidade. Mas também há conivência com os políticos sem ética: “O homem faz. Interessa lá como ele faz. Eu beneficio, tu beneficias…” Estes comportamentos não devem ser premiados. Só lá estão porque os pusemos lá. Só lá ficam porque os deixamos lá.

Políticos admirados

Na Europa, os chamados “pais da Europa” comunitária: Konrad Adenauer, Robert Schumann, Alcide de Gasperi, Jean Monnet. Agiram por idealismo e não por calculismo, num cenário difícil e contra as opiniões públicas. Ser estadista é, por vezes, estar contra a opinião pública em momentos-chave.

Na História de Portugal, é fácil: D. João II e P.e António Vieira.

No passado recente, os “pais da pátria”, as figuras senatoriais como Adriano Moreira, que tem a capacidade de olhar para a história e para o futuro, distinguindo o essencial do acessório. Ramalho Eanes, que fez a transição militar e, após deixar funções, um doutoramento para compreender a sociedade. Mário Soares, europeísta convicto, defende a lusofonia à sua maneira. Jorge Sampaio e as preocupações sociais, ainda que por vezes muito teórico. Adelino Amaro da Costa, o melhor orador do parlamento democrático, de uma criatividade incontida. Ernâni Lopes e o personalismo social cristão. Maria de Lourdes Pintasilgo, com o seu olhar de longo fôlego, a óptica utopista. Sousa Franco, que de certa forma era um “conjunturalista” ingénuo, teorizador da liberdade de ensino e da Doutrina Social da Igreja na Educação e nos assuntos sociais.

Esquerda católica

Falta uma esquerda social católica. Identifica-se a Igreja Católica apenas com certos quadrantes políticos e ideológicos. Há muitos católicos de esquerda, mas sem rótulo. Faz falta que se afirmem e estejam presentes nos debates da igreja, que é plural.