A importância das festas religiosas

FLAUSINO SILVA Empresário
FLAUSINO SILVA
Empresário

As festas religiosas estão profundamente enraizadas na vivência dos fiéis, que celebram com particular intensidade e devoção aos seus padroeiros. E foram, ao longo dos tempos, o principal motivo e encontro e reunião das famílias e das pessoas da comunidade.

Mesmo nas paróquias mais urbanizadas, nos bairros e lugares que o crescimento demográfico fez surgir, a profunda devoção dos crentes levou à edificação de templos dedicados principalmente a Nossa Senhora, sob multiplicas invocações, a Cristo Ressuscitado e aos Santos, constituindo autênticas comunidades locais coesas à volta dos seus patronos.
E esta ligação é tão forte que, mesmo quando as pessoas se afastam para longes terras, por motivos de emigração ou deslocação temporária, ficam de tal modo presos ao seu lugar e ao seu padroeiro que, no dia da sua festa anual, aí estão de volta, vindos até dos confins da terra.
Como exemplo expressivo e bem conhecido dos portugueses, temos a Festa do Santo Cristo em Ponta Delgada, São Miguel, nos Açores, que reúne devotos vindos de todo o mundo.
Mas nas nossas terras acontece o mesmo, com levas de emigrantes que procuram gozar as suas férias anuais na ocasião das festas das suas terras.
A ligação profunda dos emigrantes à terra natal e às suas festas manifesta-se ainda de modo expressivo através da edificação, nas comunidades onde se fixaram, de templos com idêntica arquitectura e as mesmas invocações, como aconteceu com os portugueses no Brasil (Bahia e Fortaleza, por exemplo) e nos Estados Unidos (Newark), aportuguesando o modo de viver e celebrar a fé e a alegria, em identidade com a sua origem.
Sendo os meses de maio a setembro aqueles em que se realizam mais festas religiosas de cariz popular, vale a pena lembrarmos os principais princípios e valores pelos quais os organizadores se devem nortear.
Sendo o orago, padroeiro ou padroeira, a figura de Jesus Cristo, de Nossa Senhora sua Mãe ou de um santo proclamado pela Igreja, tem de ser absolutamente assumido pelos organizadores, que eles serão o centro da festa, desenvolvendo-se o programa à sua volta, com actividades e celebrações que exaltem a Fé e os valores que eles encarnaram.
Mas sendo a festa uma oportunidade por excelência de aproximação e convívio entre os membros da comunidade, o programa deve contemplar, também, actividades que promovam os valores da família e das relações entre famílias: iniciativas de partilha e solidariedade, manifestações culturais genuínas das tradições e práticas locais, evocação histórica das pessoas e dos principais acontecimentos da vida comunitária, representações das fases e actos da vida do Padroeiro, actuação de grupos de teatro, música e folclore local, numa expressão de arte e valores genuínos da vida e tradições das comunidades.
As procissões constituem, normalmente, uma das mais expressivas manifestações das festas religiosas, com os andores das imagens expostas ao culto acompanhando o andor do padroeiro como centro de todas as atenções.
As comissões devem respeitar as orientações diocesanas sobre procissões, evitando trajectos longos em zonas despovoadas e a participação de elementos estranhos ao acontecimento (figuras amortalhadas e imitadoras de personagens históricas da Igreja).O silêncio, o respeito e a devoção devem imperar, tanto nos que acompanham, como nos que transportam os andores e insígnias, que devem vestir-se com aprumo e, sempre que possível, com as capas alusivas designadas por opas . As procissões são para se viverem por dentro, não para se olharem de fora.
Os arraiais que antecedem e se seguem à celebração da eucarística e da procissão, como momentos centrais e mais altos das festas, nos quais os cristãos mais activos e os agentes da pastoral não deixarão de participar, não podem destoar e ser a antítese dos valores cristãos afirmados nas celebrações. Mas frequentemente são-no e de modo escandaloso, por implicar gastos elevados, por má qualidade artística e moral dos grupos e artistas que atuam e pela alienação que provocam.
A vontade de fazer festa e festa rija, melhor que a do ano anterior e que a do lugar vizinho, leva as comissões a exageros que é necessário conter.
Os padrões actuais, numa parte importante das festas da nossa diocese, passa por contratar para complemento das celebrações e honra do Padroeiro, os chamados “artistas” e “ conjuntos”, muitos deles sem conteúdo nem mensagem, em detrimento das Bandas Filarmónicas, dos Grupos Folclóricos e Culturais, de iniciativas culturais que tem tudo a ver com a vida e valores das comunidades.
Parece que o importante é contratar quem faça barulho até altas horas, mesmo desrespeitando a lei, que proíbe a música e a festa para além de certas horas, conforme está regulamentado. E o barulho estende-se por todo o dia, com as instalações sonoras a debitar as mais das vezes música de muito mau gosto, difundida do cimo das próprias Igrejas.
Perante a febre de festas e convívios, de eventos culturais, musicais, desportivos e sociais, sejamos capazes de manter as festas religiosas associadas aos Padroeiros das nossas comunidades, com os condimentos que fazem delas os melhores momentos de viver e celebrar os valores da sã alegria, da coesão familiar e do convívio comunitário em torno daqueles que os nossos antepassados elegeram para nossos protectores.