A propósito de uma leitura

Direitos humanos Vem a reflexão desta semana a propósito de uma leitura que fiz. Trata-se de um texto do séc. IV da autoria de São Gregório Nazianzeno. A dada altura o pensamento do santo seguia este rumo: “Sendo homens, devemos pagar o tributo da bondade aos homens, seja qual for a causa pela qual estes padecem: por orfandade, desterro, crueldade alheia, temeridade dos senhores, inclemência dos patrões, ferocidade de bandidos, insaciabilidade de ladrões, confisco ou naufrágio…”

Fiquei impressionado com a visão vanguardista deste homem do séc. IV e com a profunda actualidade das suas palavras. É que no referido texto estão mencionadas diversas situações que poderemos considerar análogas às violações mais actuais aos direitos humanos. A sensibilidade à temática dos direitos da pessoa humana não pode ser, por isso, encarada como uma novidade dentro da Igreja. Se prestarmos atenção à história do cristianismo verificaremos que, mesmo com as devidas diferenciações de modos de vida e de padrões comportamentais, muitos foram os seguidores de Jesus comprometidos com o que durante os primórdios se convencionou chamar “caridade”. Até mesmo durante os anos sombrios da idade média muitas vozes apregoaram que a fidelidade ao Evangelho implica uma acção solidária a favor dos mais desfavorecidos. Disso foram exemplo tantos sábios e sábias da Igreja: Santa Catarina de Sena quando nos aponta o caminho da partilha ou Santa Rosa de Lima que nos mostra como se pode ser solidário no dia-a-dia. Caridade e solidariedade estão, nesse sentido, na génese da defesa cristã dos direitos humanos enquanto imperativo de Fé.

Recentemente as referências explícitas aos “direitos do ser humano” nas encíclicas e em muitos outros documentos da Igreja – sem medo de utilizar o vocábulo “direitos” que, em boa hora, a Assembleia Constituinte Francesa destacou, em 1789, na célebre declaração dos direitos do homem e do cidadão – apelam ao que deverá ser a prática da defesa dos direitos humanos.

Sei que, em Igreja, as opiniões são muito diversas. Esta é a realidade de uma Igreja criada à luz dos “diferentes dons e carismas” que Deus doou a cada um. Acontece que me choca a dificuldade que têm alguns irmãos nossos para utilizar a expressão “direitos humanos”, numa atitude quase “puritana” que os impede de falar abertamente nos “direitos”, receosos de serem confundidos com o “jacobinismo” da Revolução Francesa.

Há que falar, e sem medo, nos direitos humanos, destacar as suas implicações morais e éticas para nós cristãos e sair em sua defesa como se dos mais importantes ensinamentos evangélicos se tratasse. Porque o são essencialmente.