Admirável na comunicação

O que mais aprecio na vida de João Paulo II é, sem dúvida, o seu poder de comunicação integral. Dir-se-ia que a vida o fez desenvolver esta capacidade sublime. Ficando órfão e sem irmãos, vence o isolamento solitário, recorrendo a outras dimensões de comunhão humana e cristã. Vigiado e pressionado pelo regime comunista, lança uma rede capilar de comunicação entre os jovens, as famílias, os colegas de trabalho, os alunos da faculdade, onde durante anos veio a ser professor, e os cristãos da sua diocese. Mais tarde, feito Papa, sente a urgência de evangelizar e faz-se peregrino do mundo inteiro, usando com notável mestria os diversos meios que a tecnologia moderna proporciona. A sua preocupação é chegar a “tocar” o coração de cada pessoa, a cultura de cada povo, o centro de decisões de cada organização… e dialogar com elas sem medos nem inibições.

A sabedoria da comunicação está presente na sua vida de Papa em todas as circunstâncias. Todo ele é comunicação: olhar penetrante, postura do rosto, tom de voz, estilo acessível, humor pastoral, linguagem total. Recorre a cada forma conforme o interlocutor. Mas é sobretudo no contacto com os jovens e com as populações de outras culturas que João Paulo II exibe esta forma superior de se fazer presente, de entrar em sintonia, de passar e receber mensagens.

A doença e a própria morte constituem momentos privilegiados nesta sua arte de relação com a Igreja e com a sociedade mundial. Limitado na mobilidade, recorre a meios auxiliares de locomoção. Impossibilitado de falar, serve-se da escrita e do gesto de saudação e de bênção. Impedido de aparecer em público, comunica pelo som gutural da respiração. Reduzido ao silêncio total, vê “a sua voz” erguer-se de modo significativo e tocar o coração de tantos que o admiravam, muitos em segredo, e de alguns dos seus críticos mais destacados.

A força comunicativa de João Paulo II nasce de uma fé sólida “capaz de mover montanhas”, de uma oração intensa e prolongada que lhe aviva a paixão de Jesus Cristo pela humanidade, de uma esperança inabalável na construção da fraternidade universal que provém do Espírito Santo e se manifesta na crescente solidariedade entre todos os povos.

Georgino Rocha