João Paulo II Vivi a singular oportunidade de saudar pessoalmente o Santo Padre João Paulo II, variadas vezes e em circunstâncias diversas, desde Novembro de 1978 – um escasso mês após a sua eleição – até ao início de Maio de 2003. Nesta hora de serena despedida, com sentida veneração e gratidão, recordo alguns desses encontros.
Aquando de uma reunião dos Assistentes Internacionais de Movimentos e Obras, Após a audiência formal, Sua Santidade quis cumprimentar cada um dos quarenta e oito sacerdotes, detendo-se momentaneamente a perguntar de onde vinha, que Movimento assistia e deixando a sua palavra de conselho e encorajamento. Terão sido dois minutos de um diálogo olhos nos olhos, que penetrou profundamente a minha inexperiência – e mesmo irreverência – de nove anos de ministério. Marcou-me a já então notória capacidade do Papa para comunicar: quem ia na minha frente falou-lhe em inglês; de seguida, apresentei-me em francês; e o Papa não teve dificuldade em “mudar o programa”.
Em Maio de 1983, estudante em Roma, foi o Colégio Português convidado para concelebrar na Capela pessoal do Santo Padre. Aí rumou, antes das seis da manhã, toda a “comitiva” portuguesa residente na Via Nicolò V, n.º3. Uma experiência espiritual inesquecível! O recolhimento e o longuíssimo silêncio de acção de graças do Papa deixou impressionados todos os presentes. Descobre-se, nestas situações, donde lhe vinha tão robusta força interior.
Ainda em Outubro desse ano, colaborei nos serviços de secretaria da Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre “Reconciliação e Penitência”. De entre as falas com Karol Woitilla, ficou-me gravado aquele fim de manhã, em que, portador de uma estatueta de Santa Joana, oferecida pelo Município de Aveiro, a recordar a passagem de Sua Santidade na nossa querida cidade, em trânsito, de combóio, de Coimbra para o Porto, fui convidado pelo secretário a fazer-lhe pessoalmente a entrega. Inteligente, pediu-me que abrisse a caixa. Mostrei a estatueta e expliquei. Agradeceu atentamente, recebeu-a em mão e entregou-a depois ao mesmo secretário.
Em Outubro de 1997, recebeu os participantes no Congresso Catequístico Internacional. Um audiência muito bem disposta. Após os discursos habituais, percorreu por seu pé os corredores da sala, cumprimentando a maioria das pessoas. Mesmo numa das coxias, coube-me a sua mão esquerda – a direita foi a uma religiosa russa. A um e outro saudou na língua de cada qual. Já se sentia que aquela mão não estava bem! Mas, no final, ao sair da sala, voltando-se para trás, disse com graça: “Espero que, se o Papa precisar de Catequese, haja aqui quem o possa ensinar!”
A última vez, em Maio de 2003, no final da Assembleia Europeia de Responsáveis Nacionais de Educação Cristã, permitiu entender como se debilitava progressivamente a saúde do Santo Padre. Entrou na sala no estrado rolante. Ainda se mudou para a cadeira, sentando-se a custo. Mas não dispensou saudar cada um dos presentes pessoalmente. Aproximámo-nos de Sua Santidade: cada um o saudou ajoelhando, dizendo-lhe a proveniência e beijando-lhe a mão; e recebendo a palavra e a lembrança de agradecimento.
Sempre e em todas as circunstâncias, antes mesmo das palavras, o seu olhar penetrante e frontal, a sua presença firme, estabelecia uma comunicação imediata e libertadora. Sentíamos perfeitamente que éra-mos acolhidos e que o seu carinho de Pastor irradiava. O dom das línguas – verdadeiro milagre do seu esforço e do Espírito! – apenas coroava a comunicação que da sua pessoa fluía naturalmente! E, com esta simpatia e empatia, misturava-se a comunicação de uma atmosfera de interioridade, de inexplicável santidade!
Querubim Silva
