“Ajudemo-los com a nossa consciência”

Opinião – Novo clima político 1 – As eleições estão feitas. Ninguém tem dúvidas de que se inaugurou um novo clima político: os resultados foram históricos – uma maioria absoluta do PS e uma subida geral da esquerda; as derrotas foram assumidas sem rodeios, embora nem todas com igual coragem consequente; a abstenção baixou – não tanto! – e isso poderá não significar mais elevado nível de cidadania activa dos portugueses.

O discurso da vitória, embora não tenha sido arrogante, pareceu algo narcisista – “amigos, camaradas!”… Ficam dúvidas se o compromisso de governar por todos e para todos os portugueses é sincero. Por todos, dispensamos; para todos, pode sempre ser contrariado pela sede de voltar aos episódios dos “jobs for the boys”. Resta, pois, a dúvida se a maioria absoluta foi um cheque em branco ou se o futuro primeiro ministro conta mesmo com todos os portugueses para vencer o pessimismo.

2 – A responsabilidade do partido vencedor é pesada. A crise, que já vem de longe e que nos ultrapassa, não se supera magicamente; a conjuntura europeia também não é favorável. Muitos irão esperar um paraíso, para o qual não temos condições. Há sempre uma multidão a engrossar a exigência de que haja mais Estado, reclamando as benesses de uma recompensa pela sua quota parte na mudança ou teimando em se aquietar na inércia, confiando num providencialismo esta-tal sem limites. Parece-me, pois, utópico falar propriamente de projectos novos para Portugal.

Com mentalidades novas – que as há, pessoas com outro sentido do bem comum, do serviço à causa pública, os portugueses a arregaçarem as mangas, em vez de esperarem messianismos alienantes,… então, sim, haverá futuro. Se bem que uma maioria, um governo, um presidente poderão ceder à tentação de fazer o que os portugueses não escolheram, dando-lhes aquilo de que eles não precisam, em vez de os comprometer, a todos, na construção desse futuro.

3 – “A democracia é o quadro político da liberdade, mas também da responsabilidade. E esta só se exprimirá na busca generosa do bem comum. Não deixemos o futuro do nosso País só nas mãos dos ‘políticos profissionais’. Ajudemo-los com a nossa consciência crítica”… – Estas palavras dos nossos Bispos, que antecederam o acto eleitoral, são plenas de actualidade no futuro desenhado pelos resultados de domingo passado.

Se, ao votar, o Povo responsabiliza e se responsabiliza, que ninguém aliene a sua responsabilidade, mas que também ninguém se assuma por nós: motive o Povo a ser protagonista e deixe que seja ele a responsabilizar aqueles que elege, uma vez que há processos ao seu alcance. Estão criadas, é certo, condições de um novo ciclo político, que não resultará automaticamente da nova composição parlamentar; só se construirá com a dedicação e o suor de todos – uma cultura nova, nem fácil de aprender, nem com ambiente de acolhimento favorável; mas possível! O clima é novo!

Querubim Silva