“Sou testemunha de reconciliações assombrosas”

Pe João Paulo da Graça Ramos, a propósito dos 50 anos de Equipas de Nossa Senhora As Equipas de Nossa Senhora (ENS), movimento de espiritualidade conjugal, existem em Portugal há meio século. Nos próximos dias 26 e 27 de Fevereiro, comemoram-se esses cinquenta anos com um grande encontro em Fátima em que participam cerca de 2 000 casais portugueses – três dezenas da diocese de Aveiro.

O Correio do Vouga falou com o Pe. João Paulo Ramos, um dos conselheiros espirituais e responsável pela introdução do movimento na diocese há 49 anos.

Deve-se a si a vinda do movimento…

Sim, Deus serviu-se de mim para que o movimento viesse para Aveiro.

Pode contar-nos como foi?

Foi de uma maneira muito simples. Em 1956, em conversa com o professor Levi Guerra (que estudara no liceu de Aveiro e era na altura assistente de Medicina no Porto) e sua esposa, Maria Júlia, ele convidou-me para ir ao Porto a “um movimento que nós agora lá temos – dizia ele – e que se chama Equipas de Nossa Senhora de Notre Dame”.

Eu fui e fiquei encantadíssimo. Era assistente dessa equipa o Pe Manuel Vieira Pinto, que viria a ser bispo de Nampula, Moçambique. Encontrei um grupo de casais que sempre estimei muito. Alguns ficaram muito conhecidos: o Levi Guerra e a Maria Júlia, o professor Pinto Machado e a esposa, o Francisco Sá Carneiro e a Maria Armanda e mais três casais. Fiquei encantado com a espiritualidade e com a abertura de alma daquelas pessoas. Cheguei a Aveiro e não parei: “Tenho de pôr isto a funcionar”. O Levi ofereceu-se para vir cá pilotar – é o termo que se utiliza na formação das equipas – a primeira equipa de Aveiro.

O movimento respondia a uma certa inquietude pastoral…

Sim, havia muita gente casada que tinha pertencido à JUC (Juventude Universitária Católica) à JEC (Juventude Estudantil Católica) e à LIC (Liga Independente Católica), casais novos que queriam ter algum empenhamento, mas nessa altura as paróquias eram de um grande tradicionalismo. Vivia-se num ambiente tridentino ao máximo. E esta gente – muitos deles universitários – tinha inquietações grandes com a vivência conjugal e a educação dos filhos. Eu vivia esse drama.

Como apareceu a primeira equipa?

Depois de falar com o D. Domingos da Apresentação Fernandes, na altura bispo auxiliar – tinha feito toda a sua vida apostólica em Lisboa e era um homem muito aberto – , fiquei com o terreno propício para me lançar ao trabalho e comecei a agregar casais que já conhecia. Chamei o Dr Cruz Neto e a Silvina, o Jorge Corte Real e a Maria Cristina – já ambos partiram para a casa do Pai – o Dr Manuel Grangeia e a Maria da Graça, o Dr Paulo Catarino e a Dulce Souto, o Carlos Marcão (já falecido) e a Francisca, o Hermínio Moura (já falecido) e a esposa Marília, o Luís Alberto Casimiro e a Maria da Luz. Foi com estes casais que comecei.

A segunda equipa apareceu pouco depois com o Eng Henrique Marnoto e a Maria Luísa. Era conselheiro espiritual o Pe Messias.

Houve alguma dificuldade no início?

Uma delas teve a ver com os textos de que dispúnhamos. Toda a literatura estava em francês. Eram as “Cartas Verdes” por virem em papel verde. Naturalmente, só as pessoas com alguma cultura podiam compreender o francês. Isto foi um bem e um mal. Um bem, porque deu ao movimento um grau de cultura que o ajudou muito na estruturação e desenvolvimento. Um mal, porque levou alguns a concluírem que era um movimento elitista. Alguns dos nossos colegas [padres] diziam: “Isso é só para os grandes; é só para os doutores”. Ainda há algumas reminiscências. Mas hoje o secretariado nacional traduz os textos e essa crítica não se coloca.

Outra teve a ver com uma certa ingenuidade. Nunca se deve pôr numa mesma equipa dois advogados. Parece a Assembleia da República em horas de entusiasmo doido! São amicíssimos, mas por vezes as discussões duravam até às 2 da manhã, o que era terrível quando o Levi Guerra ainda tinha de regressar ao Porto.

Volvidos todos estes anos dá-me muita consolação verificar que valeu muito a pena.

Ao longo destes 50 anos, houve altos e baixos…

Inicialmente houve uma fase radiante. Depois veio um período de algum enfraquecimento, a seguir ao Concílio. A Igreja foi sacudida de tal forma que houve uma certa dis-persão. Com o D. António Marcelino, houve um incremento maior devido ao seu estilo dinâmico e ao facto de ele próprio ter sido conselheiro do movimento. Já em Aveiro, durante algum tempo, ele ainda assistiu uma equipa de Lisboa.

Qual é a espiritualidade das ENS?

É esta: na vida normal, quotidiana, do casal, viver a espiritualidade que resulta do próprio sacramento do matrimónio, que é a de levar uma vida de comunhão com Cristo presente no meio deles. A força motriz deste movimento está em que o casal viva a graça actual do seu próprio estado de vida, que é um caminho de santidade, pela entrega recíproca para a unidade do casal, sob o influxo de Deus, à luz da verdade da mensagem cristã.

Como comenta esta frase de alguém ligado às ENS: “Este movimento é o que há de melhor contra a dissolução do casal”?

Concordo. [Nas reuniões] há um tempo a que nós chamamos o “Pôr em Comum”, em que os casais dizem se cumpriram o “Dever de Sentar” no espaço entre reuniões. Tudo isto se passa em regime de segredo absoluto. O “Dever de Sentar” é o espaço que os casais têm periodicamente para parar e namorar. Em horas de crise, é muito difícil. Se algum casal falta ao “Dever de Sentar”, os outros casais sentem-se defraudados, porque houve um compromisso. E dado que muitos passaram pelo mesmo, ajudam e comprometem-se a rezar pelo casal. Tudo isto cria um clima tal que, passado o primeiro embate, dá-se uma reconciliação assombrosa. Sou testemunha de muitas coisas dessas! Vi casais que julgava já em ruptura total a saírem dali com uma união tanto ou mais profunda que na primeira hora do casamento!

ENS em Aveiro

O movimento está presente em Aveiro (com dois sectores, A e B, que congregam várias equipas de casais de Aveiro e das zonas limítrofes como Gafanha da Nazaré, Ílhavo, Cacia…) e em Águeda (sector Águeda). No total há trinta ENS, correspondendo a cerca de duas centenas de casais. O casal responsável pela região é Duarte e São Matias. Há ainda uma equipa de Jovens de Nossa Senhora, que está a dar os primeiros passos.

A Origem

Nascido em França em 1938, o Movimento das ENS teve no Padre Henri Caffarel o seu fundador e primeiro Conselheiro Espiritual. A primeira equipa era constituída por quatro casais. O Padre Henri Caffarel deixou o movimento em 1973, para que este seguisse o seu próprio caminho.

ENS no Mundo

Há no mundo cerca de 10 000 equipas (de cinco a oito casais) que congregam 53 000 casais, em 67 países. Os países com mais equipas são: Brasil (2 389), França (2 138), Espanha (924), Portugal (893), Itália (627) e Estados Unidos (506).

Retiro para Casais

As ENS promovem um retiro quaresmal para casais. Será na Casa Diocesana, Albergaria-a-Velha, nos dias 12 e 13 de Março. O retiro, orientado por D. António Marcelino, é promovido pelas ENS, mas destina-se a todos os casais que o desejarem.