«Amoris Laetitia», o primeiro ano

Volvido um ano desde a publicação da Exortação Apostólica «Amoris Laetitia» (doravante referida AL), constata-se que a discussão, dentro e fora da Igreja (p.e., meios de comunicação social, Internet) se focalizou na nota de rodapé 351 do ponto 305 da AL, uma das poucas frases que não pertence a nenhum documento, mas que sai da letra do próprio Papa: «Em certos casos, poderia haver também a ajuda dos sacramentos».
Fica-se com a sensação de que a verdadeira mensagem da AL ficou ofuscada: “que a todas as famílias, independentemente da sua natureza (separados, recasados, a viver em união de facto ou casados civilmente) não se pode negar o encontro com Deus e que Deus acolhe todos, na sua infinita misericórdia, todos podem fazer um caminho ao Seu encontro”. Uns irão mais depressa, outros poderão andar para trás ou até abandonar este caminho (os que se afastam da Igreja), mas TODOS – mesmo aqueles que estão numa situação objetiva de pecado, mas que subjetivamente não tenham culpa – podem atingir a Graça e a Misericórdia de Deus (AL 305). Com este fim, o Papa Francisco aconselha-nos a abandonar a lógica binária do preto e branco para abarcar as áreas acinzentadas, pois, para um corpo que proclama Cristo, não basta afirmar e fazer valer rigidamente o que é verdadeiro de um modo geral: devemos também estar atentos às circunstâncias particulares.
Também neste tempo foi evidente uma forte reação de alguns setores da Igreja que têm invadido os meios de comunicação social e a Internet com acusações ao Papa, desmentindo qualquer novidade desta exortação apostólica relativamente à «Familiaris Consortio» de São João Paulo II, publicada em 1981. Argumentam que este Papa não pode desmentir ou contradizer o ensinamento de São João Paulo II – de que só os divorciados recasados que vivam continência sexual podem receber o sacramento da Eucaristia- e questionam ou ignoram o percurso de discernimento sugerido pelo Papa, quando tal proposta resultou do relatório final do Sínodo Ordinário dos Bispos aprovado pelos padres sinodais por larga maioria em 24 de outubro de 2015, que nos seus pontos 84 a 86 o incentiva.
E agora, passada a polémica inicial, há que perceber o que de bom foi feito. A «Amoris Laetitia» é um monumento à família, tal como esta é vista na perspetiva da Igreja. E o seu alcance é tal que ainda nos encontramos numa fase de aprendizagem, com a organização de palestras para a divulgar. Cremos que os bispos ainda estão a estudá-la para implementar as recomendações do Papa, não só do capítulo VIII, mas também dos restantes capítulos, como sejam as manifestadas por exemplo no capítulo VI, em que é incentivada a criação de «centros de escuta especializados que se devem estabelecer nas dioceses» (AL 242) ou de um «serviço de informação, aconselhamento e mediação, ligado à pastoral familiar» (AL 244).
Mesmo no capítulo VIII, o discernimento não pode ser separado da integração dos casais irregulares na Igreja. No relatório final do último Sínodo, o ponto 84 referia que esta integração se pode atingir pela «participação em diferentes serviços eclesiais: por isso, é necessário discernir quais das diversas formas de exclusão atualmente praticadas nos âmbitos litúrgico, pastoral, educativo e institucional, podem ser superadas». Na AL, o Papa volta a tocar neste assunto nos números 297 e 299 ao incentivar a participação destas pessoas na comunidade eclesial, «quer em tarefas sociais, quer em reuniões de oração, quer na forma que lhe possa sugerir a sua própria iniciativa discernida juntamente com o pastor». Concretizando: em que circunstâncias podem ser padrinhos? Salmistas? Leitores? Poderão participar em movimentos da Igreja até agora interditos?
Na nossa página do Facebook temos encontrado alguns testemunhos de pessoas solteiras que, por terem casado com outra divorciada, também deixaram de poder ter acesso aos sacramentos. De facto, no último ano de estatísticas publicadas pelo INE (2013), em mais de metade dos segundos casamentos (58%) o outro é solteiro. Não seria desejável que os sacerdotes e os bispos também tivessem em atenção estas pessoas, já que a sua situação não é referida em nenhum ponto da AL?
Esperemos que a conferência episcopal portuguesa publique a breve prazo orientações de como praticar a «Amoris Laetitia» ou que, no mínimo, seja conhecida a reflexão dos bispos das dioceses do centro, que para o efeito se reuniram na casa diocesana de Albergaria no passado dia 30 de janeiro.

Grupo de leigos
da Diocese de Aveiro
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