Ano educativo?

Estamos a começar o “ano educativo”, que, para alguns, é só o ano lectivo. Assim se explica que estes proclamem o sucesso retumbante da introdução da disciplina de inglês no primeiro ciclo. Sem desmerecermos algum bem da iniciativa, estamos com muitos outros, que se encontram perante uma escola sem nenhumas perspectivas de “ano educativo”.

É que há muitos factores envolventes da vida da escola, mesmo da introdução da nova disciplina, que não estão resolvidos, nem próximo disso. Desde a realidade da refeição na escola à possibilidade e qualidade de alargamento do horário; desde a participação procurada e assumida dos pais no desenvolvimento da problemática da escola à qualidade dos educadores que aí chegam, munidos porventura de alguma bagagem científica, mas sem qualquer sinal de adequado suporte pedagógico – a dedicação, o amor…

Não será fácil desencadear um processo de avaliação das escolas transparente e eficaz, sobretudo como motor de crescente melhoria das comunidades educativas. Para ser verdadeiro processo de avaliação, terá de superar a aridez da análise matemática das classificações dos alunos e tornar-se um barómetro da humanidade que repasse todos os programas, estratégias, acções da vida da escola. E isso vai entrar no âmago da forma de presença de cada agente educativo no processo escolar; vai esventrar todos os interesses que se movam na sombra da organização escolar; vai aferir os quadros de valores que a comunidade educativa tem ou não tem; vai examinar a convicção e actuação educativa – e por que valores se rege – de quantos vivem desta actividade…

Não será fácil aceitar uma reforma educativa deste teor! É mais fácil aceitar uma revisão de currículos, um arejamento de programas, uma substituição de processos didácticos, a introdução de novas tecnologias. Tudo isso passa muito por fora do coração e do espírito dos agentes educativos: exige alguma “actualização”; mas não provoca dinamismo de conversão. E, então, poderemos ter anos lectivos cada vez mais “normais”, no seu começo, no seu desenrolar. Mas continuaremos a ter “anos educativos” cada vez mais distantes, omissões de entrega cada vez mais escandalosas, como se a escola fosse um “lugar de trabalho” desumanizado, deixando para a família o “espaço dos afectos”, que a maioria não tem. Quando teremos nós um começo e desenrolar normal de um “ano educativo”?