O primeiro dia das Florinhas do Vouga

Memória – Há 65 anos “Tenho a anunciar a todos os queridos diocesanos de Aveiro, de um modo especial à cidade, que está por dias o nascimento das Florinhas. Já têm o berço que as espera para elas dormirem sem que nenhum mal as acorde; já está a migalha em cima da mesa para os passarinhos comerem; já o seio maternal da Igreja se abriu para dar agasalho aos que a fortuna enjeitou. Amanhã, 6 de Outubro, às 10 horas, abre-se a porta para as Florinhas entrarem, levadas pela mão dos seus anjos. E começa logo a vida incessante do ninho: vassouras valorosas que limpam do pó os degraus das escadas; roupa batida no tanque pelas lavadeiras, torcida no alguidar, e depois estendida ao sol, se o há, no quintal; a panela ao lume, a ferver, a cantar, a cheirar, mexida e remexida naqueles transes pela colher vigilante da cozinheira; na escola, na costura, na capela, na mesa, as avesinhas a engolir um pouco para dentro, mas depois, ao ar livre, a cantarem nos galhos não sei que harmonias e músicas, que ninguém lhes apanha; são lá notas que só elas sabem.

Não é então um jardim onde o coração da cidade poderá respirar, para sua consolação, inefáveis perfumes, eu ia a dizer, rescendências do paraíso?”

D. João Evangelista de Lima Vidal

Correio do Vouga, 5 de Outubro de 1940