Ano Paulino, uma proposta pastoral

Segunda parte da Nota Pastoral dos bispos portugueses sobre o Ano Paulino

[Parágrafo 1]

Toda a vida de Paulo se situa depois deste encontro [na estrada de Damasco], vive dele, em plena alegria (cf. Fil. 1,21; Gal. 2,20), o mais é lixo (cf. Fil. 3,8); “Ai de mim se não anunciar o Evangelho!” (1Cor. 9,16) – e dá testemunho dos efeitos desse encontro: “O Reino de Deus (…) é justiça e paz e alegria no Espírito Santo” (Rom. 14,17); por isso, Paulo esquece o que fica para trás e atira-se para as coisas que estão à sua frente (cf. Fil. 3,13). Não admira que inicie as suas Cartas com a saudação nova da graça e da paz de Deus, Nosso Pai, e do Senhor Nosso, Jesus Cristo, e as termine sempre com a graça do Senhor Nosso, Jesus Cristo…(1) E o autor do Livro dos Actos dos Apóstolos fecha o Livro deixando Paulo em Roma (2)“a anunciar o Reino de Deus e a ensinar o que diz respeito ao Senhor Jesus Cristo” (Act. 28,31).

Esta fidelidade de Paulo a Jesus Cristo sugerir-nos-á caminhos de conversão para todos os evangelizadores, também eles chamados a deixarem-se possuir por Jesus Cristo para poderem anunciar o Seu Evangelho.

4. O alargamento do anúncio do Evangelho aos descrentes e aos que abandonaram a vida cristã supõe evangelizadores com as características exigidas pela nova evangelização. No dizer de João Paulo II, esses evangelizadores têm de ser possuídos de um novo ardor, porque o seu testemunho é um primeiro anúncio de natureza querigmática (3). As Igrejas de Portugal necessitam de repensar estes dois elementos da nova evangelização (4). É preciso identificar, preparar e enviar esses evangelizadores. Na pedagogia e nas atitudes, a primeira evangelização é diferente da catequese. E muitas crianças, jovens e adultos, que inserimos nas nossas catequeses organizadas, precisavam desse anúncio querigmático. A generalidade da juventude, as famílias, os leigos chamados a evangelizar o meio em que estão inseridos, urgem o reforço de uma pastoral querigmática.

O Ano Paulino pode ajudar-nos a sistematizar essa pastoral (5) específica, porque Paulo foi o maior evangelizador de todos os tempos. Ele continua a ser exemplo inspirador do ardor da evangelização e da natureza específica do anúncio querigmático.

[Parágrafo 5]

Um novo ardor!

Evangelizar não é uma estratégia e não se reduz a um programa: é uma paixão de amor por Jesus Cristo e pelos nossos irmãos e irmãs. Com Paulo, o ardor da evangelização brota da sua paixão por Jesus Cristo. O encontro com Cristo na estrada de Damasco mudou a sua vida. Aos Filipenses (6)confessa ter sido completamente apanhado por Jesus Cristo: “para o conhecer na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos, conformando-me com Ele na morte, para ver se atinjo a ressurreição de entre os mortos” (Fil 3,10-11). A sua vida reduz-se à identificação com Cristo: “Para mim viver é Cristo” (Fil 1,21; cf. Gal 2,20); tudo o mais é lixo (cf. Fil 3,8). Esta identificação é com a Páscoa de Jesus, na Sua morte e ressurreição: “Nós pregamos um Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios”, mas para os que são chamados […], Ele é poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Co 1,23-24).

Esta paixão por Jesus Cristo e a certeza de que na Sua Cruz se decidiu o novo destino humano geram em Paulo a urgência da evangelização, em que ele se sente como cooperador de Deus (cf. 1Co 3,9). “Ai de mim, se eu não evangelizar!” (1Co 9,16). A evangelização é o seu futuro, o sentido do tempo que lhe resta para viver, o que o leva a relativizar o seu passado (cf. Fil 3,13).

O anúncio querigmático

Paulo distingue a pregação querigmática, em que faz o anúncio de Jesus Cristo, da catequese (7) às Igrejas, para o aprofundamento da identificação com Cristo.

O primeiro anúncio é de Jesus Cristo salvador, morto e ressuscita-do, mas com a particularidade de se adaptar aos destinatários. Aos judeus (8) ele anuncia Jesus como o Messias esperado e a plena realização de todas as Escrituras (cf. Act 9,20.22; 13,16ss). Aos gentios (9)anuncia Jesus ressuscitado com desafio à conversão “dos ídolos a Deus, para servir o Deus vivo e verdadeiro” (1Tes 1,9). Este anúncio aos gentios é o grande desafio das suas viagens apostólicas, embora nunca descurando o anúncio aos judeus. Ousou mesmo, sem recusar o diálogo, enfrentar o mundo da cultura helenista (10), marcada por várias sabedorias e pelo sincretismo (11) filosófico e religioso. Foi talvez a sua pregação no Areópago (12) de Atenas que o le-vou a convencer-se mais de que só com as sabedorias humanas não se chega à sabedoria da Cruz (cf. Act 17,16ss).

Neste Ano Paulino, temos de pressentir por que caminhos nos conduziria Paulo, se partilhasse hoje, connosco, a missão evangelizadora da Igreja.

[Parágrafo 10]

A exigência do percurso catequético

5. Paulo tem a consciência viva de que o anúncio de Jesus Cristo, que leva à fé, introduz no caminho da salvação ou da justificação (13), conceito que valoriza, pois sente que a salvação humana repõe o justo relacionamento com Deus, em Cristo, que é justiça de Deus (cf. 1Co 1,30; 2Co 5,21). Trata-se da coerência da fé, ou da “obediência da fé”, como gosta de lhe chamar (Rom 1,5). Compromete a vida toda, durante toda a vida, exprime-se na “obra da fé” (1 Tes 1,3), toca o seu auge na vivência da caridade (cf. Gal 5,6), projecta-nos, na esperança, para a plenitude da vida eterna (cf Rom 5,1-11; 8,18-39). Não é só compreensão, é, sobretudo, entrega e coerência de vida, é identificação com Cristo, na Sua morte e ressurreição.

A fé é o grande acontecimento da vida do cristão. É que, no Evangelho, “é revelada a justiça de Deus, que vem da fé e conduz à fé, conforme está escrito: «o justo viverá da fé» (Rom 1,17). A fé reaviva-se com a escuta permanente da Palavra de Deus, o Evangelho de Jesus Cristo. Ela é “Palavra de vida” (Fil 2,16), o crescimento da Igreja identifica-se com a vitalidade da Palavra (cf. Act 19,20).

O caminho catequético leva, sobretudo, à identificação com Cristo. O baptismo (14), sacramento pelo qual os que acreditaram em Jesus Cristo, através da Palavra, entram na comunidade dos discípulos, para caminharem em Igreja, consiste em morrer com Cristo, para com Ele ressuscitar (cf. Rom 6,3-11). Este morrer com Cristo, o sepultar o homem velho, mostra bem a convicção de Paulo de que o cristão é chamado a uma vida nova, em que se manifesta a epifania da graça, na força do Espírito (cf. Rom 8,5-17; Col 3,5-17).

Na sua catequese, Paulo não separa a vida pessoal do cristão da vida da Igreja: o cristão caminha em Igreja e não é apenas o indivíduo que se identifica com Cristo, mas toda a Igreja se identifica com Cristo. Ela é o corpo de Cristo (cf. Rom 12,15; 1Co 12, 12-30; Ef 1,22s; 4,4-6; Col 2,19), é a sua esposa (cf. Ef 5,25-32), retomando a velha imagem do amor esponsal de Deus pelo Seu Povo.

Esta descoberta da vida nova em Cristo é uma autêntica iniciação à vida, é a iniciação cristã, chamar-se-lhe-á mais tarde. É uma descoberta, de surpresa em surpresa, até à alegria do estar para sempre com o Senhor. É uma caminhada catecumenal (15), porque aprofunda continuamente a alegria do seu início: a fé em Jesus Cristo e o mergulhar n’Ele, no Baptismo.

[Parágrafo 15]

O Ano Paulino oferece-nos estímulo para aperfeiçoar a nossa catequese e conceber a acção pastoral como um meio de aprofundar um processo contínuo de iniciação cristã.

(Continua na próxima semana)

NOTAS

1. Saudação similar à utilizada pelo ministro no início da Eucaristia.

2. Roma. Capital do Império. Na época do Novo Testamento deveria ter cerca de um milhão de habitantes, incluindo 50 mil judeus. Rom 1,8 dá a entender que a comunidade cristã romana é relativamente antiga, mas não se sabe quem a fundou. Segundo a tradição, Pedro sofreu o martírio em Roma, no ano 64. Paulo foi como prisioneiro para Roma em 61 e lá permaneceu dois anos em “liberdade vigiada”, numa casa que alugou (Act 28,16.30). Seria decapitado em 64 (ou 68, segundo Eusébio de Cesareia), em Tre Fontane (sul Roma), e enterrado na via Ostiense, onde se ergue a basílica de São Paulo Fora dos Muros.

3. Natureza querigmática. Querigma – palavra de origem grega que significa “proclamação”. Trata-se do anúncio primeiro e essencial de que Jesus é o Cristo, o Salvador.

4. Nova evangelização. Foi João Paulo II quem primeiro utilizou a expressão, em 1982, acrescentando que a nova evangelização devia ter novo rigor, novos métodos e nova expressão.

5. Pastoral. Deriva de pastor (“Bom Pastor”) e significa a acção que a Igreja desenvolve enquanto seguidora do Bom Pastor. Pastoral juvenil é a acção da Igreja no campo da juventude. Pastoral da saúde é a acção da Igreja com os doentes, nos hospitais…

6. Filipenses. Habitantes de Filipos, cidade da Trácia, no norte da actual Grécia. Muito ligados a Paulo, prestam-lhe ajuda financeira (Fl 4,15-18).

7. Catequese. Ensino dirigido à transmissão da fé cristã. Na sua raiz grega significa “instrução oral”, “instrução de viva voz”.

8. Judeus. Paulo dirige-se aos judeus que viviam fora da Palestina, ou seja, espalhados pelo Império Romano devido às várias diásporas. Falavam grego.

9. Gentios (ou pagãos), no contexto do Novo Testamento, são, simplesmente, os “não judeus”. Paulo é o apóstolo dos gentios por oposição aos outros apóstolos, que se dirigem “aos circuncisos” (Gl 2,9¸Act 9,15).

10. Cultura helenista, ou seja, cultura de matriz grega.

11. Sincretismo. Mistura de vários elementos de diferentes religiões, filosofias ou culturas. Os sincretismos tendem a ser pouco críticos e contraditórios.

12. Areópago. Praça de Atenas que tinha duas funções: era o local do mercado dos oleiros e onde se reuniam os areopagitas, um conselho que tinha poderes de vigilância e de administração dos ensinamentos sobre os atenienses.

13. Justificação significa a proclamação da justiça por parte de Deus. O homem culpável é declarado, por vontade de Deus, justo. Justificação é o mesmo que salvação.

14. “Baptismo” palavra derivada do verbo grego “baptizein”, que significa “submergir”. No baptismo cristão, o fiel submerge com Cristo na morte e emerge para a vida nova da ressurreição.

15. Catecumenal. Referente a catecumenado (ou catecumenato), que é o processo de instrução das pessoas que pedem para ser admitidas à Igreja (catecúmenos). O processo conclui-se com a recepção dos sacramentos do Baptismo, Confirmação e Eucaristia na noite de Páscoa. Existiu nos primeiros séculos. Desapareceu quando o cristianismo se tornou religião oficial do império romano. E foi restaurado no séc. XX para os adultos que querem ser baptizados.