Título: Final do ano lectivo*
Local: uma Escola
Com: Ana; Bárbara; Gonçalo; Teresa e Tiago
Participação especial: Mariana e mães da Ana e da Bárbara
Género: Acção
Classificação: M/6
Cena 1 – Biblioteca da Escola – Painel sobre profissões relacionadas com acção social – Mariana conta a sua experiência e a professora Teresa impacienta-se na cadeira. “Ela é muito nova, pensa, só tem mais uns seis anos que os alunos para quem fala. Eles vão levar à letra o que ela diz: “O importante não é terem boas notas; quando olho para os CV e faço entrevistas para um emprego, interessa-me sobretudo se os candidatos têm experiência na área das relações humanas: campos de férias; grupos de jovens; escuteiros; voluntariado. As notas não são importantes.”
Uma semana depois, um grupo de alunos entre os 15 e os 18 anos discute a intervenção cívica de cada pessoa. Teresa intervém e reproduz a opinião da Mariana, a mesma que a impacientara. O Gonçalo compreende perfeitamente a ideia e afirma que treina miúdos num clube de futebol dos arredores. Objectivo: formar bons homens. Teresa emociona-se. Não sabe se o Gonçalo terá boas notas na pauta do final do ano lectivo. Sabe que o que ele diz tem todo o sentido – tem 17 anos e espera que ele se torne num grande homem, coerente e consciente de que um cidadão responsável pode mudar o rumo de muita gente.
Cena 2 – Pauta do final do ano lectivo – Tiago, 12º ano, vê as suas óptimas notas. Comenta “Se soubesse o que sei hoje, tinha começado a trabalhar no 10º ano. – Diz isso aos alunos que terminam agora o 9º ano, sugere-lhe um professor. – Oh! O meu pai e a minha irmã já mo diziam e eu não liguei.” Mas agora precisava de ter melhores notas.
Cena 3 – Entrega das notas do final do ano pelo Director de Turma a Encarregados de Educação – “Eu não lhe exijo muito, diz a mãe da Bárbara. – Mas tem de exigir, porque ela é capaz de fazer muito melhor!” Ah! Bárbara, ficaste tão corada: contente com o elogio e porque sabes que é verdade!
“Eu não gostava que nivelassem a turma por baixo, e acho que deviam exigir mais da minha Ana. Ela cansa-se de ouvir as mesmas coisas explicadas vezes sem conta, de várias ma-neiras, e desmotiva-se. Apesar de ter esta média excelente, não fez esforço durante o ano. Como é que lhe vou ensinar que os bons resultados advêm de esforço e trabalho?”
Cena 4 – Átrio da Escola – Ana, Bárbara, Gonçalo e Tiago encontram-se. Alguns pais – muitos aliás – também por ali andam, misturam-se com os professores e funcionários, que acompanham os alunos ansiosos por confirmarem a transição e a admissão a exames. O Tiago lamenta a injustiça de determinada nota e vai interpor recurso; a Ana nem acredita que teve três cincos, pois reconhece que se esforçou pouco. A Bárbara gostava de ter tido melhores notas e, secretamente, compromete-se a exigir de si no próximo ano, mesmo que a mãe não o faça. Teresa cruza-se com Gonçalo, no meio dos colegas, não sabe as suas notas, mas apenas que ele teve boa nota como cidadão. E pensa que não é apenas nas aulas tradicionais e nos testes que os alunos se revelam. É sobretudo nos trabalhos que apresentam no final de cada ano lectivo: um espectáculo de dança, uma encenação, uma performance, exposições, debates e palestras são resultados de um processo muitas vezes difícil, mas que demonstra que valeu a pena insistir e “implicar” com aquele aluno que nunca chegava a horas, porque os pais entravam mais tarde do que ele e, por isso, não se preocupavam com o cumprimento do horário do filho; com aquele que gastava a mesada em chicletes, que iam directamente para o caixote do lixo, na aula do professor X; com a aluna que pintava as unhas e se penteava nas aulas; com tantos que não usavam relógio de pulso, sendo o telemóvel desculpa para ver as horas, mas que servia sobretudo para mensagens grátis e cábulas nos testes. Teresa lembra alguns espectáculos produzidos por alunos e professores, em que os alunos entraram no seu tempo e cumpriram as suas tarefas.
Afinal, neste ano, nas aulas e fora delas, desenvolveram-se muito mais competências que a capacidade de adquirir conhecimentos e aplicá-los nos testes. As Anas, as Bárbaras, os Gonçalos e os Tiagos são o orgulho dos pais e professores, que lhes exigiram atenção e responsabilidade ao longo do ano lectivo.
* Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.
