Futebol, combustíveis e pobreza

Uma pedrada por semana Têm andado por aqui os interesses do país nos últimos tempos. Com diferentes entusiasmos, com diferentes manifestações, com diferentes tons e comentários.

O futebol é uma catarse purificadora que alegra o povo, sossega o governo por uns dias, e já nem se fala de apitos… Os combustíveis e as greves, adrede suscitadas, expressam a luta difícil pela vida, contra um gigante que vai vencendo porque esmaga, por forças ocultas e muito palavreado, e não se sabe bem porque chifre o pegar e arrastar… A pobreza (ai a pobreza que para alguns já é fome!), deixará depressa de ser assunto e sairá da história diária, porque a quem mais pesa menos se ouve, e a fome acabará por tirar a força a quem quereria gritar…

Afinal, parece que só o futebol é conforto e motivo de esperança. A não ser que… Deus nos livre, dado o que se está passando de triunfal, de um desgosto ou de uma desilusão para o povo que já grita vitória, enrolado no vistoso cachecol do Euro e com bandeirinhas a flutuar nos carros e nas janelas… Deus nos livre, porque, então, tudo o resto ganharia peso inesperado. Deus nos livre!

Não será um exagero das televisões, dos rádios e jornais, do povo anónimo que grita, dos emigrantes a contas com crises graves por essa Europa fora? Agora não é possível, nem aconselhável desligar o gás que anima o povo, até porque é lindo ver a cara no ecrã…

Mas seremos nós capazes de reflectir em termos de futuro, depois de acabar o futebol, de terminarem as greves dos combustíveis, de nos vermos vergados à realidade da pobreza que vai permanecer, crescer e ser beco sem saída para muita gente?

António Marcelino