Aqui estou!

Reflexão “Aqui estou!”

Terá dito Abraão à proposta que Deus lhe fazia de subir o monte e imolar o seu filho. E com esta resposta, punha fim à promessa de ter abandonado a sua terra para ser pai de um grande povo; punha fim a um filho único, o herdeiro da promessa, punha fim à esperança…

Aqui estou! Sem mais palavras ou comentários ou perguntas.

É o impasse em que Deus nos coloca em tantas circunstâncias, a obscuridade de uma vida que parece não ter saída, o sofrimento feito raiva interior porque tudo parece desmoronar-se. Valerá a pena confiar num Deus assim que muda de opinião de um momento para o outro, que esconde o caminho quando ele era mais necessário? Que pede para subir o monte quando a planície se espraiava ali tão perto? Abraão não abre a boca, é a obediência levada ao extremo, às últimas consequências… dando a Deus o lugar central da sua vida.

E a promessa continuou e tornou-se pessoa num Messias prometido que viria libertar Israel do jugo dos Romanos, pensavam todos, até aqueles que Ele escolheu e partilhou a vida mais de perto. E quando tudo parecia concretizar-se, quando o povo começava a acreditar, os cegos a verem e os paralíticos a andarem, quando tudo parecia correr de feição: “…O Filho do Homem tem de sofrer e ser rejeitado pelos anciãos e pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei… É dando a vida, por amor que o projecto se vai realizar.” E a desilusão invade a alegria e a incredulidade toma o lugar da vida e mais uma vez, e outra vez, as mesmas perguntas e as mesmas dúvidas: valerá a pena seguir um Mestre que nada mais pode oferecer que uma cruz?

E é novamente no cimo do monte que ressurge a esperança transfigurada em vestes resplandecentes e que a cruz não se afirma como um fim, mas simplesmente como um meio, para sabermos – pela boca do próprio Pai – que Ele é, na verdade, o Filho amado de Deus!

Muitos anos depois, pelas ruas da Vera Cruz, passou o Cristo dos Passos com a cruz às costas. Bonita ocasião para deixarmos de ser meros espectadores e como Abraão ou os Apóstolos, no monte das nossas vidas, dizermos no íntimo de cada um: “Senhor, aqui estou!”

P.e Manuel J. Rocha