“As mãos amigas lá sabiam do que eu precisava”

O P.e Manuel Rocha é pároco da Vera Cruz e juiz do Tribunal Eclesiástico de Aveiro

Estava a pensar nos livros que me têm passado pelas mãos nestes últimos tempos e chego sempre à mesma conclusão: não li o que devia, não aproveitei o tempo como devia… como também não rezei o que devia ou não fiz isto ou aquilo que devia… Sempre esta dicotomia entre o que fiz e o que podia ter feito… mas não fiz. E vem a pergunta de sempre: Mas poderia ser de outra maneira?
É verdade que fiz a viagem do silêncio com o livro de Pablo d’Ors, “A Biografia do silêncio”, inclusivamente me levantei mais cedo, um ou outro dia, para fazer essa tal experiência da meditação… e “…pelas vezes em que vislumbrei alguma coisa deste espaço e em que nele habitei, ainda que apenas por alguns segundos, posso assegurar que a verdadeira felicidade é algo muito mais simples e que está ao alcance de todos e de qualquer um. Só é preciso parar, calar-se, ouvir e olhar; embora parar, calar-se, ouvir e olhar – e isso é meditar – nos seja hoje muito difícil e tenhamos precisado de inventar um método para uma coisa tão elementar. Meditar não é difícil; o que é difícil é querer meditar” (do livro).
Passou-me pelas mãos e, até por dever de ofício li uma ou outra catequese do Papa S. João Paulo II sobre a “Teologia do Corpo”, onde somos convidados a olhar a criação como algo de belo, antes e depois de terem aparecido as folhas de figueira, para utilizar uma imagem bonita que o papa utiliza nas suas primeiras catequeses.
Fiz a viagem com Gonçalo Cadilhe, “Nos passos de Santo António”, e concluí com o Autor: Santo António terminou a sua viagem em Pádua e eu… “continuo a minha”. E foi nesta continuação que me chegou, de mãos amigas, um livro pequeno no tamanho, mas grande no conteúdo: “O elogio da imperfeição – o caminho da fragilidade” (Paolo Scquizzato, Paulinas). E começa assim: “A pérola é esplêndida e preciosa… Nasce da dor. Nasce quando uma ostra é ferida. Quando um corpo estranho – uma impureza, um grãozinho de areia – penetra no seu interior e a habita, a concha começa a produzir uma substância (a madrepérola) com que o cobre para proteger o seu corpo invadido. No fim, ter-se-á formado uma bela pérola, brilhante e valiosa. Se não for ferida, a ostra nunca poderá produzir pérolas, porque a pérola é uma ferida cicatrizada”. Achei deliciosa a comparação que leva o Autor a partir desta fragilidade da vida, convidando cada um de nós a olhar a sua própria fragilidade não como algo a desperdiçar, a pôr de lado, a encobrir, mas como elemento essencial da vida que irrompe no pequeno, no frágil, no limite . Se não olhemos este pequeno período: “A relação com nós próprios e com a nossa vida quotidiana (social, familiar e relacional) tornar-se-á paradisíaca quando conseguirmos acolher-nos e amar-nos, não de malgrado, mas através de todas as nossa feridas e das nossas debilidades” (p.16). E o “elogio da imperfeição passa por vários personagens da Bíblia quer do Antigo Testamento quer de algumas passagens do Novo Testamento. Para terminar em jeito de conclusão que faço minha: “O amor não obriga. É esta a graça que nos atinge; não a cura, mas a possibilidade de curar-se. Ai de nós se houvesse um Deus que nos mudasse! O amor é sempre adesão livre: Deus respeita de tal maneira a liberdade dos filhos que até lhes permite que se percam; o amor deixa-nos livres” (p.66).
As mãos amigas lá sabiam do que eu precisava.
Manuel J. Rocha